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Abdome agudo: como avaliar no PS?

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Cirurgia
Abdome agudo: como avaliar no PS?

Introdução

O abdome agudo é uma das situações mais importantes na prática clínica e no pronto atendimento. Ele se refere ao surgimento rápido de sintomas graves de patologia abdominal e pode indicar uma condição com risco de vida, muitas vezes exigindo intervenção cirúrgica urgente.

A dor abdominal aguda é um motivo comum de atendimento em serviços de emergência. O grande desafio para o médico é diferenciar pacientes que precisam de avaliação cirúrgica imediata daqueles que podem ser inicialmente manejados de forma conservadora, mas sempre com acompanhamento rigoroso.

Um ponto essencial: a analgesia adequada deve ser oferecida. O documento destaca que o uso de opioides em adultos com dor abdominal aguda melhora o conforto do paciente e não aumenta o risco de erro diagnóstico ou erro na decisão terapêutica.

 

O que é abdome agudo?

O abdome agudo é caracterizado pelo início rápido de sintomas abdominais graves, geralmente com dor abdominal, mas nem sempre. Ele pode estar relacionado a processos inflamatórios, infecciosos, obstrutivos, perfurativos, vasculares, metabólicos, ginecológicos ou urológicos.

Característica Significado prático
Início rápido Sugere processo abdominal agudo
Sintomas graves Pode indicar condição potencialmente fatal
Possibilidade cirúrgica Algumas causas exigem intervenção urgente
Diagnóstico amplo Envolve causas gastrointestinais, urinárias, ginecológicas, vasculares e metabólicas
Avaliação dinâmica O quadro pode evoluir rapidamente

 

Principais causas de abdome agudo

Causa comum Comentário clínico
Dor abdominal inespecífica Diagnóstico de exclusão quando história, exame e investigação não definem causa
Cólica renal Dor intensa em flanco, podendo irradiar para virilha
Cólica biliar Dor constante e intensa em quadrante superior direito
Colecistite Dor biliar prolongada, com sinais inflamatórios
Apendicite Causa frequente de dor abdominal aguda
Diverticulite Mais comum em pacientes mais velhos

A etiologia provável varia conforme a idade. Cólica renal e apendicite são mais comuns em pacientes com menos de 60 anos, enquanto doença calculosa da vesícula biliar e diverticulite são mais comuns em pacientes mais velhos.

 

Causas por sistema: como organizar o raciocínio

O abdome agudo deve ser pensado de forma ampla. Nem toda dor abdominal vem do intestino.

Grupo de causas Exemplos
Gastrointestinais Apendicite, diverticulite, obstrução intestinal, víscera perfurada, gastroenterite, colite infecciosa
Geniturinárias Nefrolitíase, pielonefrite, torção testicular
Ginecológicas Gravidez ectópica, cisto ovariano roto, torção ovariana, doença inflamatória pélvica, endometriose
Hepatobiliares e pancreáticas Cólica biliar, colecistite, hepatite, abscesso hepático, pancreatite
Vasculares Aneurisma roto da aorta abdominal, dissecção de aorta, isquemia mesentérica, colite isquêmica
Metabólicas e tóxicas Cetoacidose diabética, uremia, crise addisoniana, hipercalcemia, porfiria aguda intermitente
Musculoesqueléticas Abscesso do psoas, hematoma da parede abdominal
Outras Enterite por radiação, picadas de aranha

 

Primeira etapa: reconhecer gravidade

Antes de pensar em exames complexos, a avaliação inicial deve identificar instabilidade clínica. O BMJ recomenda uma abordagem sistemática com ABCDE: vias aéreas, respiração, circulação, incapacidade neurológica e exposição.

Conduta inicial Objetivo
Avaliar ABCDE Identificar risco imediato de morte
Monitorar sinais vitais Detectar choque, febre, instabilidade
Obter acesso venoso calibroso Permitir reposição volêmica, medicações e coleta de exames
Corrigir hipovolemia Usar fluidos e/ou hemoderivados conforme necessidade clínica
Acionar apoio cirúrgico precocemente Evitar atrasos em casos que exigem intervenção
Considerar antibióticos Em perfuração, diverticulite, apendicite, isquemia mesentérica ou aneurisma roto
Considerar ECG e troponina Dor epigástrica pode ser manifestação de infarto

Em pacientes com suspeita de hemoperitônio e choque hipovolêmico, a cirurgia rápida pode ser obrigatória, com investigação pré-operatória limitada.

 

Sinais de alerta no abdome agudo

Alguns achados aumentam a preocupação com doença grave.

Sinal de alerta Possível significado
Hipotensão, taquicardia ou choque Hemorragia, sepse ou condição vascular grave
Dor súbita e intensa Perfuração, cólica renal, aneurisma roto, dissecção, pancreatite ou apendicite
Abdome rígido Irritação peritoneal grave
Dor à descompressão ou peritonismo Irritação do peritônio parietal
Febre e calafrios Processo infeccioso ou inflamatório
Vômitos persistentes Obstrução, pancreatite ou outras causas graves
Ausência de eliminação de fezes e gases Obstrução intestinal
Sangramento gastrointestinal Doença intestinal, vascular ou neoplásica
Dor epigástrica com sudorese Considerar infarto do miocárdio
Dor abdominal em gestante Exige avaliação cuidadosa, incluindo gravidez ectópica

 

Abdome agudo pode ocorrer sem dor? Sim!

Grupo Por que exige atenção
Idosos Podem ter resposta fisiológica atenuada e percepção de dor alterada
Crianças Podem ter dificuldade de comunicar sintomas
Imunocomprometidos Podem apresentar resposta inflamatória reduzida
Gestantes no último trimestre Alterações anatômicas podem dificultar localização da dor

Em idosos, por exemplo, um estudo mostrou que apenas 21% dos pacientes idosos com úlcera perfurada apresentavam peritonite.

 

Grupos especiais: idosos, gestantes e imunocomprometidos

Idosos

Em idosos, comorbidades, medicamentos, demência e alterações do sistema nervoso podem dificultar a apresentação típica. Além disso, pacientes idosos têm maior risco de doenças mais graves.

Particularidade Implicação clínica
Menor resposta fisiológica Febre, taquicardia ou dor podem ser menos evidentes
Demência Pode prejudicar a comunicação dos sintomas
Alteração da percepção de dor Pode atrasar diagnóstico
Maior risco de gravidade Exige baixo limiar para investigação

Gestantes

Na gestação, o útero aumentado desloca e comprime órgãos intra-abdominais. Além disso, a frouxidão da parede abdominal pode atenuar sinais peritoneais. Leucocitose leve pode ser fisiológica e, portanto, inespecífica.

Particularidade Implicação clínica
Deslocamento de órgãos Dor pode aparecer em local atípico
Sinais peritoneais atenuados Exame físico pode ser menos evidente
Leucocitose fisiológica Hemograma deve ser interpretado com cautela
Necessidade de teste de gravidez Fundamental em mulheres em idade fértil

Imunocomprometidos

Pacientes imunocomprometidos podem ter sintomas inespecíficos e exame físico inconclusivo. O BMJ recomenda menor limiar para hospitalização e exames de imagem em corte transversal.

Situação Exemplo
AIDS Colite por citomegalovírus
Quimioterapia Tiflite ou enterocolite neutropênica
Uso de imunossupressores Resposta inflamatória alterada

 

Como conduzir a anamnese no abdome agudo?

A história clínica deve ser detalhada e organizada. Os principais componentes incluem avaliação da dor, última refeição, antecedentes, cirurgias prévias, medicamentos, história familiar e contexto social.

Perguntas essenciais

Pergunta Por que importa
Onde começou a dor? Ajuda a localizar possível órgão envolvido
A dor foi súbita ou gradual? Diferencia perfuração, cólica, inflamação ou obstrução
A dor é contínua ou intermitente? Dor em cólica sugere obstrução ou cálculo
Irradia para algum lugar? Pode sugerir cólica renal, pancreatite ou doença biliar
Há náuseas, vômitos ou febre? Sugere processo inflamatório, infeccioso ou obstrutivo
Eliminou fezes e gases? Avalia possibilidade de obstrução
Há sangue ou muco nas fezes? Sugere doença intestinal ou sangramento
Já teve dor semelhante? Pode indicar condição recorrente
Cirurgia abdominal prévia? Aumenta risco de obstrução por aderências
Usa AINEs? Aumenta risco de ulceração gástrica
Usa opioides? Abstinência pode causar dor abdominal aguda
Consumo excessivo de álcool? Fator de risco para pancreatite
Viagem recente? Pode sugerir gastroenterite, colite infecciosa ou abscesso hepático
Mulher em idade fértil? Sempre avaliar possibilidade de gravidez

 

Localização da dor: pistas para o diagnóstico

A localização não fecha diagnóstico sozinha, mas orienta o raciocínio.

Local da dor Possíveis causas
Epigástrio Úlcera gástrica/perfuração, pancreatite, esôfago perfurado, Mallory-Weiss, colelitíase, infarto do miocárdio
Quadrante superior direito Colelitíase, colecistite, hepatite, abscesso hepático, Fitz-Hugh Curtis, pielonefrite, nefrolitíase
Quadrante superior esquerdo Infarto esplênico, aneurisma roto da artéria esplênica, pielonefrite, nefrolitíase, neoplasia/perfuração de cólon
Quadrante inferior direito Apendicite, nefrolitíase, hérnia, abscesso do psoas, torção ovariana, gravidez ectópica, DIP
Quadrante inferior esquerdo Diverticulite, volvo de sigmoide, DII, nefrolitíase, neoplasia gastrointestinal, causas ginecológicas
Periumbilical Apendicite inicial, isquemia mesentérica, aneurisma roto de aorta, obstrução de delgado
Dor generalizada Víscera perfurada ou peritonite

 

Padrão da dor: súbita, cólica ou progressiva

O padrão temporal também ajuda.

Padrão Possíveis causas
Dor súbita e intensa Úlcera perfurada, ruptura/laceração esofágica, nefrolitíase, cólica biliar, colecistite, pancreatite, apendicite
Dor intermitente em cólica Obstrução intestinal, aderências, hérnia encarcerada/estrangulada, cólica ureteral
Dor persistente Diverticulite ou processo inflamatório
Dor que piora com movimento Apendicite ou irritação peritoneal
Dor após alimento gorduroso Colelitíase ou colecistite
Dor que piora com alimentação Úlcera gástrica
Dor que melhora ao comer e piora horas depois Úlcera duodenal

 

Dor irradiada: o que sugere?

Irradiação Possível diagnóstico
Flanco para virilha Cólica renal ou ureteral
Para as costas Pancreatite, dissecção de aorta ou aneurisma roto
Escápula direita Doença biliar, doença hepática ou irritação diafragmática direita
Escápula esquerda Doença cardíaca, gástrica, pancreática ou esplênica
Dor testicular/escrotal Nefrolitíase, doença ureteral ou torção testicular

 

Exame físico no abdome agudo

O exame físico deve seguir uma ordem: inspeção, ausculta, percussão, palpação e, quando indicado, exame retal, pélvico e escrotal/testicular.

Inspeção

Achado Possível significado
Paciente inquieto, sem posição confortável Cólica renal
Paciente imóvel, evitando se mexer Peritonite
Cicatrizes abdominais Risco de aderências e obstrução
Distensão abdominal Obstrução, massa ou hérnia
Alterações cutâneas sobre hérnia Possível estrangulamento
Sinal de Cullen Pode sugerir pancreatite hemorrágica
Sinal de Grey Turner Pode sugerir pancreatite hemorrágica

Ausculta

Achado Possível significado
Ruídos hidroaéreos hiperativos em “tilintar” Obstrução intestinal em fase inicial
Ruídos reduzidos ou ausentes Obstrução avançada, perfuração, hemoperitônio ou peritonite
Achados pulmonares Pneumonia pode simular abdome agudo
Atrito pericárdico ou sons cardíacos alterados Considerar causa cardíaca

Palpação e percussão

Achado Possível significado
Abdome rígido Irritação peritoneal grave
Dor à descompressão Irritação peritoneal
Sinal de Murphy Sugere colecistite
Massa pulsátil Considerar aneurisma de aorta
Hérnia irredutível Hérnia encarcerada
Dor à percussão Inflamação peritoneal

O BMJ destaca que virilha deve ser examinada em todos os pacientes com sintomas ou sinais de obstrução intestinal, pela possibilidade de hérnia.

 

Exame retal, pélvico e testicular

Esses exames não devem ser esquecidos quando indicados.

Exame Quando considerar O que pode mostrar
Exame retal Suspeita de sangramento, impactação, massa ou abscesso Sangue, impactação fecal, tumor, próstata ou abscesso pélvico
Exame pélvico Maioria das mulheres com dor em abdome inferior DIP, gravidez ectópica, torção ovariana
Exame escrotal/testicular Homens com dor abdominal baixa, testicular ou sintomas compatíveis Epididimite, torção testicular, hérnia inguinoescrotal

Na suspeita de torção testicular, a avaliação urológica deve ser precoce, pois quanto maior o tempo de torção, menor a chance de recuperação do testículo.

 

Exames laboratoriais iniciais

O BMJ recomenda exames laboratoriais iniciais para todos os pacientes, usando-os como apoio à avaliação clínica.

Exame Utilidade
Hemograma completo Pode mostrar leucocitose em processos inflamatórios, infecciosos ou isquêmicos
Eletrólitos, ureia, creatinina, glicose Avalia distúrbios metabólicos, desidratação e função renal
Urinálise Ajuda a identificar infecção urinária, pielonefrite ou nefrolitíase
Teste de gravidez Indicado para todas as mulheres em idade fértil

Exames adicionais conforme suspeita

Exame Quando considerar
Função hepática Suspeita hepatobiliar
Proteína C-reativa Marcador inespecífico de inflamação
Coagulograma Suspeita vascular, instabilidade ou necessidade cirúrgica
Lipase sérica Suspeita de pancreatite
Lactato sérico Suspeita de isquemia mesentérica
ECG e troponina Dor epigástrica, especialmente com sudorese ou risco cardiovascular

O BMJ recomenda usar lipase sérica em vez de amilase na suspeita de pancreatite.

 

Exames de imagem no abdome agudo

A escolha do exame de imagem depende da hipótese clínica e da estabilidade do paciente.

Exame Melhor uso
Radiografia abdominal simples Pode ser exame inicial em suspeita de obstrução ou constipação
Radiografia de tórax em ortostatismo Avalia pneumoperitônio em suspeita de perfuração
Tomografia de abdome Útil para grande parte das causas de dor abdominal
Angiotomografia Recomendada em suspeita de isquemia mesentérica
TC sem contraste Usada em suspeita de nefrolitíase
Ultrassonografia Útil em doenças biliares, ginecológicas, aneurisma, líquido livre e gestação
FAST Avaliação rápida de líquido livre, principalmente no trauma
RNM Útil em situações específicas, especialmente gestantes e crianças
Endoscopia/colonoscopia Investigação de doenças gastrointestinais específicas
Laparoscopia Pode ser diagnóstica e terapêutica em pacientes selecionados

 

Quando a radiografia pode ser suficiente?

A radiografia de tórax em posição ortostática pode revelar ar livre abdominal em casos de víscera perfurada. Se houver pneumoperitônio, o BMJ afirma que pode não haver necessidade de outros estudos antes de acionar apoio cirúrgico de emergência.

Achado Conduta sugerida
Ar livre abdominal Apoio cirúrgico de emergência
Sinais de obstrução intestinal Pode orientar conduta e evitar exames adicionais
Radiografia normal Não exclui abdome agudo

 

Tomografia, ultrassonografia ou ressonância?

Tomografia computadorizada

A TC é útil para avaliar quase todas as causas de dor abdominal, incluindo:

  • obstrução;
  • diverticulite;
  • pancreatite;
  • apendicite;
  • isquemia intestinal;
  • aneurisma de aorta abdominal.

O contraste intravenoso geralmente amplia a detecção de patologias, mas a função renal e o risco de lesão renal induzida por contraste devem ser considerados.

Ultrassonografia

A ultrassonografia é especialmente útil em:

  • suspeita de colecistite;
  • avaliação pélvica em mulheres;
  • gestantes;
  • avaliação de aneurisma de aorta;
  • líquido livre peritoneal;
  • pacientes instáveis em que transporte para TC é arriscado.

Ressonância nuclear magnética

A RNM tem papel mais limitado, mas pode ser útil em:

  • gestantes com suspeita de apendicite;
  • crianças com suspeita de apendicite;
  • pancreatite;
  • doença de Crohn;
  • endometriose;
  • abscesso do psoas.

Na gestação, o gadolínio atravessa a placenta e não deve ser usado.

 

Principais diagnósticos diferenciais

O BMJ lista muitos diagnósticos diferenciais. Para uso prático, eles podem ser organizados assim:

Diagnóstico Pistas clínicas
Apendicite Dor que pode iniciar periumbilical e migrar para FID, anorexia, febre, piora com movimento
Colecistite Dor em QSD por mais de 5 horas, febre, leucocitose, sinal de Murphy
Cólica biliar Dor constante e intensa em QSD, duração de 15 minutos a 5 horas
Pancreatite Dor epigástrica ou QSE súbita, irradiação para costas, náuseas e vômitos
Diverticulite Dor persistente, mais comum em pacientes mais velhos
Obstrução intestinal Dor em cólica, distensão, vômitos, parada de fezes e gases
Úlcera perfurada Dor súbita, intensa, peritonite, possível pneumoperitônio
Nefrolitíase Dor intensa em flanco, irradiação para virilha, inquietação
Pielonefrite Febre, calafrios, dor lombar/flanco, náuseas e vômitos
Gravidez ectópica Dor pélvica/abdominal, atraso menstrual ou gravidez inicial
Torção ovariana Dor anexial unilateral intensa, possível massa anexial
Torção testicular Dor testicular/escrotal, urgência urológica
Isquemia mesentérica Dor abdominal importante, suspeita vascular, lactato pode elevar
Infarto do miocárdio Dor epigástrica, especialmente com sudorese

 

Dor abdominal inespecífica: cuidado com o diagnóstico de exclusão

A dor abdominal inespecífica é definida como dor com duração menor que 7 dias, sem causa identificada após história, exame físico e investigação. É um diagnóstico de exclusão.

O BMJ chama atenção para o risco de diagnósticos perdidos. Estudos citados mostram reinternações e diagnósticos posteriores em parte dos pacientes inicialmente classificados como dor abdominal inespecífica.

Ponto de atenção Implicação
Diagnóstico de exclusão Só deve ser usado após avaliação adequada
Pode haver reinternação Paciente precisa de orientação de retorno
Idosos exigem cautela Maior risco de causas graves ou neoplasia
Náuseas, vômitos, leucocitose e comorbidades Associados a maior chance de diagnóstico significativo não detectado

 

Analgesia no abdome agudo

Um erro clássico é atrasar analgesia por medo de “mascarar” o diagnóstico. O BMJ afirma que analgesia adequada deve ser fornecida e cita evidência de que opioides melhoram conforto sem aumentar erro diagnóstico ou erro terapêutico em adultos com dor abdominal aguda.

Conduta Mensagem prática
Oferecer analgesia Sim, de forma adequada
Evitar sofrimento desnecessário Melhora conforto do paciente
Não atrasar investigação Analgesia não substitui reavaliação
Reavaliar após analgesia O exame clínico continua fundamental

 

Fluxograma prático da avaliação do abdome agudo

Etapa Conduta
1. Avaliar gravidade ABCDE, sinais vitais, aparência geral
2. Estabilizar Acesso venoso, fluidos/hemoderivados se indicado
3. Identificar emergências Choque, peritonite, hemoperitônio, gravidez ectópica, torção testicular, aneurisma, isquemia
4. Acionar especialista Cirurgia, ginecologia, urologia ou cardiologia conforme suspeita
5. Fazer anamnese dirigida Dor, sintomas associados, cirurgias, medicamentos, gestação, comorbidades
6. Realizar exame físico completo Inspeção, ausculta, percussão, palpação e exames específicos
7. Solicitar exames iniciais Hemograma, eletrólitos/função renal/glicose, urina, teste de gravidez
8. Complementar conforme hipótese Lipase, função hepática, lactato, coagulograma, ECG/troponina
9. Escolher imagem TC, USG, RX, RNM ou angio-TC conforme quadro
10. Reavaliar continuamente Pacientes graves ou com dor persistente podem piorar rapidamente

 

Pontos-chave para a prática médica

Pergunta clínica Resposta prática
Abdome agudo sempre tem dor? Não. Pode ocorrer sem dor em idosos, crianças, imunocomprometidos e gestantes no fim da gestação
Todo abdome agudo é cirúrgico? Não, mas é essencial identificar rapidamente quem precisa de cirurgia
Pode dar opioide? Sim. Analgesia adequada melhora conforto e não aumenta erro diagnóstico em adultos
Quais exames iniciais pedir? Hemograma, eletrólitos/função renal/glicose, urinálise e teste de gravidez em mulheres em idade fértil
Quando pensar em gravidez ectópica? Toda mulher em idade fértil com dor abdominal deve fazer teste de gravidez
Quando pensar em infarto? Dor epigástrica, especialmente com sudorese ou fatores de risco
Qual exame de imagem é mais amplo? TC de abdome, conforme estabilidade e hipótese
Qual exame preferir na gestação? Ultrassonografia inicialmente; RNM como segunda linha
Quando acionar cirurgia? Instabilidade, peritonite, hemoperitônio, pneumoperitônio, suspeita de perfuração ou isquemia
O que fazer em dor abdominal inespecífica? Diagnóstico de exclusão, com orientação clara de retorno e reavaliação

 

Conclusão

A avaliação do abdome agudo exige raciocínio rápido, sistemático e cuidadoso. A prioridade inicial é reconhecer pacientes instáveis, tratar hipovolemia, oferecer analgesia adequada e acionar apoio cirúrgico ou especializado quando necessário.

A história clínica e o exame físico continuam centrais, mas exames laboratoriais e de imagem ajudam a confirmar hipóteses, estratificar gravidade e evitar atrasos. Atenção especial deve ser dada a idosos, gestantes e imunocomprometidos, pois esses grupos podem apresentar quadros atípicos e maior risco de diagnóstico tardio.

No pronto atendimento, a pergunta mais importante não é apenas “qual é a causa da dor?”, mas também: este paciente pode ter uma condição abdominal grave que exige intervenção urgente?

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