Tratamento da celulite: como escolher o antibiótico e quando ampliar cobertura para MRSA
A celulite é uma infecção bacteriana da derme profunda e do tecido subcutâneo que costuma exigir decisão clínica rápida, sobretudo…
A hematúria visível, também chamada de hematúria macroscópica, é definida pela presença de sangue perceptível na urina, que pode variar de uma coloração avermelhada ou acastanhada até a eliminação de sangue vivo ou coágulos. Mesmo quanado transitória, indolor ou autolimitada, deve ser valorizada, porque pode ser a manifestação inicial de doenças urológicas, nefrológicas, infecciosas, traumáticas ou neoplásicas.
Na prática médica, o ponto central é reconhecer rapidamente quais pacientes precisam de avaliação urgente, quais achados sugerem doença glomerular e quais casos exigem investigação urológica completa para excluir neoplasia do trato urinário.
A hematúria visível ocorre quando há quantidade suficiente de sangue para alterar a coloração da urina. Pequenos volumes já podem ser capazes de modificar a cor urinária, o que explica por que a aparência da urina nem sempre se correlaciona diretamente com a gravidade do sangramento.
A hematúria pode se originar em qualquer ponto do sistema urinário:
| Local de origem | Estruturas envolvidas | Possíveis causas |
| Trato urinário superior | Rins e ureteres | Cálculos, tumores renais, pielonefrite, trauma, doenças glomerulares |
| Trato urinário inferior | Bexiga, próstata e uretra | Infecção urinária, câncer de bexiga, hiperplasia prostática, trauma uretral, cistite hemorrágica |
Um passo importante é diferenciar a hematúria verdadeira da falsa hematúria, que pode ocorrer por contaminação menstrual, alimentos como beterraba, ou medicamentos que alteram a cor da urina.
A hematúria visível é clinicamente relevante porque está associada a maior risco de doença urológica significativa quando comparada à hematúria microscópica. Em adultos, sobretudo em pacientes mais velhos, tabagistas ou com hematúria indolor, a possibilidade de neoplasia urológica precisa ser considerada.
Entre os fatores de risco para carcinoma urotelial estão:
| Fator de risco | Relevância clínica |
| Idade avançada | Aumenta o risco de câncer urológico |
| Sexo masculino | Maior incidência de neoplasias do trato urinário |
| Tabagismo | Um dos principais fatores associados a carcinoma urotelial |
| Exposição ocupacional | Benzeno, aminas aromáticas, corantes e carcinógenos industriais |
| Irradiação pélvica prévia | Risco aumentado de alterações vesicais e neoplasia |
| Infecções urinárias crônicas | Podem estar associadas a inflamação persistente |
| Sonda vesical de demora | Fator associado a irritação crônica do trato urinário |
| Sintomas miccionais irritativos persistentes | Podem sugerir doença vesical subjacente |
A etiologia varia conforme idade, sexo, sintomas associados, comorbidades, uso de medicamentos e contexto clínico.
| Causa | Pistas clínicas |
| Infecção do trato urinário | Disúria, urgência, polaciúria, dor suprapúbica |
| Pielonefrite aguda | Febre, dor lombar, náuseas, vômitos, dor à punho-percussão lombar |
| Nefrolitíase | Dor súbita em flanco, irradiação para virilha, náuseas, vômitos |
| Hiperplasia prostática benigna | Jato fraco, hesitação, noctúria, esforço miccional, retenção |
| Câncer de bexiga | Hematúria indolor, especialmente em idosos e tabagistas |
| Câncer de próstata | Sintomas obstrutivos, toque retal alterado, antígeno prostático específico elevado |
| Instrumentação urinária | Cateterismo, cistoscopia, biópsia prostática, stent ureteral |
| Menstruação | Contaminação da amostra urinária em mulheres menstruadas |
| Causa | Quando suspeitar |
| Trauma renal, vesical ou uretral | Trauma abdominal, pélvico ou genital; sangue no meato uretral |
| Doença glomerular | Proteinúria, edema, hipertensão, cilindros eritrocitários |
| Anemia falciforme | Hematúria recorrente, história pessoal ou familiar compatível |
| Coagulopatias | Sangramentos em outros sítios, equimoses, história familiar |
| Uso de anticoagulantes | Pode exacerbar sangramento de lesão subjacente |
| Cistite por radiação | História de radioterapia pélvica |
| Cistite hemorrágica medicamentosa | Uso de ciclofosfamida ou outros agentes citotóxicos |
| Endometriose urinária | Hematúria cíclica, dor pélvica, sintomas urinários relacionados ao ciclo |
| Tuberculose geniturinária | Piúria estéril, sintomas persistentes, perda de peso, sudorese noturna |
Alguns pacientes precisam de avaliação imediata em pronto atendimento ou ambiente hospitalar.
| Situação | Por que preocupa? |
| Instabilidade hemodinâmica | Pode indicar sangramento significativo |
| Taquicardia, hipotensão ou palidez importante | Sugerem perda sanguínea relevante |
| Retenção urinária por coágulos | Pode causar obstrução urinária e insuficiência renal pós-renal |
| Dor intensa em flanco com vômitos | Sugere cálculo obstrutivo ou pielonefrite complicada |
| Febre, calafrios e queda do estado geral | Pode indicar infecção urinária alta ou sepse |
| Trauma abdominal, pélvico ou lombar | Risco de lesão renal, vesical ou uretral |
| Sangue no meato uretral após trauma | Não se deve passar sonda antes de excluir lesão uretral |
| Gestante com hematúria e instabilidade | Considerar causas obstétricas raras, como placenta percreta com invasão vesical |
A presença de coágulos merece atenção especial, pois sugere sangramento mais volumoso e pode causar obstrução da saída vesical.
A investigação começa com uma boa anamnese, exame físico completo e urinálise. O objetivo é confirmar a hematúria, identificar sinais de infecção, diferenciar origem glomerular de não glomerular e definir necessidade de imagem e avaliação urológica.
Perguntas essenciais:
| Pergunta | Interpretação |
| O sangue aparece no início, no fim ou durante todo o jato? | Ajuda a localizar a origem do sangramento |
| Há dor ao urinar, urgência ou polaciúria? | Sugere infecção ou inflamação vesical |
| Há dor lombar ou dor irradiada para virilha? | Sugere cálculo urinário ou pielonefrite |
| Há febre, náuseas ou vômitos? | Sugere infecção alta ou quadro sistêmico |
| Há perda de peso, anorexia ou hematúria indolor? | Aumenta preocupação com neoplasia |
| Há tabagismo ou exposição ocupacional? | Aumenta risco de carcinoma urotelial |
| Usa anticoagulante ou antiagregante? | Pode revelar ou exacerbar lesão subjacente |
| Houve trauma recente? | Sugere lesão renal, vesical ou uretral |
| Houve procedimento urológico recente? | Pode indicar causa iatrogênica |
| Há edema, hipertensão ou urina muito escura? | Sugere doença glomerular |
| Em mulheres, há menstruação ou sangramento vaginal? | Avaliar possibilidade de falsa hematúria |
| Padrão da hematúria | Possível origem |
| Inicial | Uretra, próstata ou colo vesical |
| Terminal | Colo vesical, próstata ou uretra posterior |
| Total, durante todo o jato | Bexiga, ureter ou rim |
Esse dado não fecha diagnóstico isoladamente, mas ajuda a direcionar a investigação.
O exame físico deve procurar sinais de gravidade, infecção, doença sistêmica, obstrução urinária e neoplasia.
| Achado | Possível significado |
| Hipotensão e taquicardia | Instabilidade por sangramento ou sepse |
| Febre | Infecção urinária alta ou sistêmica |
| Palidez | Anemia |
| Edema periférico ou periorbital | Doença renal ou glomerular |
| Dor em ângulo costovertebral | Pielonefrite, cálculo ou massa renal |
| Dor suprapúbica | Cistite, retenção urinária ou obstrução por coágulos |
| Bexiga palpável | Retenção urinária |
| Toque retal com próstata aumentada | Hiperplasia prostática benigna |
| Toque retal nodular ou endurecido | Suspeita de câncer de próstata |
| Linfonodos palpáveis | Possível doença neoplásica |
| Sangue no meato uretral | Suspeita de trauma uretral |
A urinálise é o exame inicial mais importante. Deve ser feita em amostra recente, preferencialmente de jato médio, ou por cateterismo quando indicado.
| Exame | O que avalia |
| Urinálise com tira reagente | Sangue, leucócitos, nitrito, proteinúria, densidade urinária |
| Microscopia urinária | Eritrócitos, cilindros, leucócitos, cristais, bactérias |
| Urocultura | Confirma infecção e orienta antibiótico |
| Hemograma | Anemia, leucocitose |
| Creatinina e taxa de filtração glomerular estimada | Função renal e segurança para contraste |
| Coagulograma | Suspeita de coagulopatia ou anticoagulação excessiva |
| Citologia urinária | Suspeita de carcinoma urotelial, especialmente em pacientes de alto risco |
| Antígeno prostático específico | Avaliação prostática em contexto apropriado |
A hematúria pode ter origem renal intrínseca, especialmente quando associada a:
| Achado | Sugere |
| Proteinúria significativa | Doença glomerular |
| Eritrócitos dismórficos | Sangramento glomerular |
| Cilindros eritrocitários | Glomerulonefrite |
| Hipertensão | Doença renal parenquimatosa |
| Edema | Síndrome nefrítica ou nefrótica |
| Creatinina elevada | Comprometimento da função renal |
Nesses casos, o paciente deve ser avaliado por nefrologia, especialmente se houver insuficiência renal, proteinúria importante ou hipertensão grave.
A imagem do trato urinário superior é parte essencial da avaliação da hematúria visível não explicada.
| Exame | Melhor uso |
| Urotomografia computadorizada | Avaliação completa do trato urinário superior; preferida em muitos adultos |
| Tomografia sem contraste | Melhor exame inicial quando a principal hipótese é cálculo |
| Ultrassonografia renal e de vias urinárias | Alternativa inicial em alguns pacientes, crianças, gestantes ou quando se deseja evitar radiação |
| Urografia por ressonância magnética | Alternativa quando há contraindicação à tomografia com contraste |
| Pielografia retrógrada | Alternativa quando tomografia ou ressonância não são possíveis |
| Cistografia por tomografia | Suspeita de lesão vesical traumática |
A escolha depende da hipótese clínica, idade, função renal, gravidez, alergia a contraste, disponibilidade e gravidade do caso.
A cistoscopia permite avaliação direta da bexiga, uretra e, em homens, da região prostática. Ela é fundamental quando há suspeita de patologia do trato urinário inferior, especialmente câncer de bexiga.
De forma prática, pacientes adultos com hematúria visível não explicada, sobretudo aqueles com fatores de risco para neoplasia, geralmente precisam de avaliação urológica com cistoscopia, mesmo que exames de imagem não mostrem alterações evidentes.
Quando a hematúria ocorre junto de sintomas típicos de infecção urinária, como disúria, urgência, polaciúria e dor suprapúbica, a conduta inicial pode ser confirmar com urinálise e urocultura, tratar adequadamente e repetir a avaliação após o tratamento.
No entanto, se a hematúria persistir após a resolução da infecção, ou se o paciente tiver fatores de risco para neoplasia, a investigação deve prosseguir.
Um erro comum é atribuir automaticamente a hematúria ao uso de anticoagulante. Embora anticoagulantes possam aumentar o sangramento, a hematúria visível frequentemente revela uma lesão ou doença subjacente do trato urinário.
Portanto, a presença de anticoagulação não exclui necessidade de investigação, especialmente em pacientes idosos, tabagistas, com hematúria recorrente ou indolor.
| Passo | Conduta |
| 1 | Confirmar se é hematúria verdadeira e excluir falsa hematúria |
| 2 | Avaliar estabilidade hemodinâmica e retenção por coágulos |
| 3 | Procurar sinais de infecção, trauma, cálculo ou doença glomerular |
| 4 | Solicitar urinálise, microscopia urinária, urocultura quando indicada, hemograma e função renal |
| 5 | Tratar infecção se presente e repetir urina após tratamento |
| 6 | Solicitar imagem do trato urinário superior conforme hipótese clínica |
| 7 | Encaminhar para urologia quando hematúria não explicada ou risco de neoplasia |
| 8 | Encaminhar para nefrologia se houver proteinúria, cilindros, eritrócitos dismórficos, hipertensão grave ou insuficiência renal |
A hematúria visível nunca deve ser banalizada. Mesmo episódios transitórios podem estar associados a doenças relevantes.
Em adultos, especialmente idosos, tabagistas e pacientes com hematúria indolor, é essencial excluir neoplasia urológica.
Infecção urinária pode causar hematúria, mas a persistência do sangramento após o tratamento exige investigação adicional.
Anticoagulação não deve ser considerada explicação suficiente sem avaliação do trato urinário.
A presença de proteinúria, cilindros eritrocitários, eritrócitos dismórficos, edema, hipertensão ou alteração da função renal deve direcionar a investigação para doença glomerular e motivar avaliação nefrológica.
A hematúria visível é um sinal clínico que exige abordagem sistemática. A avaliação deve começar pela confirmação da hematúria, identificação de sinais de urgência e diferenciação entre causas infecciosas, urológicas, traumáticas e nefrológicas. Em pacientes com fatores de risco, a investigação deve ser completa, incluindo imagem do trato urinário superior e avaliação urológica com cistoscopia.
Para o médico, a mensagem central é simples: sangue visível na urina pode ser a primeira pista de uma condição grave. Investigar adequadamente é a melhor forma de evitar atraso diagnóstico.
BMJ Best Practice. Avaliação da hematúria visível. Última atualização: 28 abr. 2026.

Gabriel Henriques Amorim é médico (CRM-SP 272307), especialista em Educação na Saúde pela USP e residente de Medicina de Família e Comunidade no Hospital das Clínicas da FMUSP. No blog da Manole, compartilha conteúdos práticos, baseados em evidências, voltados para o dia a dia do cuidado em saúde.
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