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Neurite vestibular e labirintite: especial NeuroUSP

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Clínica Médica
Neurite vestibular e labirintite: especial NeuroUSP

A vertigem de início súbito é uma das queixas neurológicas mais angustiantes na prática clínica. Entre as causas periféricas, a neurite vestibular e a labirintite ocupam papel central, tanto pela frequência quanto pelo desafio diagnóstico, já que compartilham manifestações clínicas com condições neurológicas potencialmente graves, como eventos vasculares do sistema nervoso central.

Reconhecer essas condições de forma adequada é fundamental para evitar erros diagnósticos, reduzir morbidade e oferecer tratamento seguro e baseado em evidências.

 

O que é neurite vestibular e qual a diferença para labirintite

A neurite vestibular é uma condição autolimitada caracterizada por disfunção aguda do sistema vestibular periférico, geralmente atribuída a um processo inflamatório do nervo vestibular. O quadro cursa com vertigem intensa, náuseas, vômitos e instabilidade da marcha.

Quando esse mesmo quadro está associado à perda auditiva unilateral, a condição passa a ser denominada labirintite. Essa distinção clínica é relevante, pois a presença de sintomas auditivos amplia o diagnóstico diferencial e exige maior atenção na avaliação.

 

Manifestações clínicas típicas

A apresentação clássica inclui:

  • Vertigem intensa de início súbito e contínuo
  • Náuseas e vômitos importantes
  • Instabilidade da marcha, com preservação da capacidade de deambular
  • Ausência de outros sinais neurológicos focais

Ao exame físico, observa-se nistagmo horizontal ou horizontal com componente rotatório, unidirecional, que diminui com fixação visual e não muda de direção com o olhar.

 

Importância do exame neurológico à beira do leito

A avaliação clínica detalhada é o principal instrumento diagnóstico. Determinados achados permitem diferenciar causas periféricas de vertigem de eventos centrais, especialmente acidentes vasculares cerebrais de fossa posterior.

A presença de qualquer um dos seguintes achados sugere fortemente origem central e indica necessidade de investigação imediata:

  • Reflexo vestíbulo-ocular preservado
  • Nistagmo que muda de direção conforme o olhar
  • Desvio vertical dos olhos

Esses sinais, quando presentes, têm alta sensibilidade para identificar eventos vasculares cerebelares ou de tronco encefálico.

 

Diagnóstico e papel dos exames de imagem

O diagnóstico da neurite vestibular é clínico. Não existem exames específicos que confirmem a condição.

A realização de exames de imagem é indicada quando:

  • O exame neurológico não é compatível com lesão periférica
  • O paciente apresenta fatores de risco vasculares
  • Há cefaleia nova associada
  • Existem sinais neurológicos focais

Nesses casos, a ressonância magnética é o exame de escolha, especialmente para avaliar lesões na circulação posterior.

 

Tratamento: o que realmente funciona

O tratamento é dividido em controle sintomático e reabilitação funcional.

Tratamento sintomático

Nos primeiros dias, podem ser utilizados medicamentos para controle de náuseas e vertigem, preferencialmente por curto período. O uso prolongado dessas medicações não é recomendado, pois pode atrasar a compensação central.

Evidências atuais não sustentam o uso rotineiro de corticosteroides ou antivirais, uma vez que não demonstraram benefício clínico consistente.

Reabilitação vestibular

A reabilitação vestibular é uma das intervenções mais eficazes para recuperação funcional. Exercícios específicos aceleram a compensação central e reduzem sintomas residuais de desequilíbrio.

A indicação precoce de fisioterapia vestibular está associada a melhor prognóstico e retorno mais rápido às atividades diárias.

 

Evolução clínica e prognóstico

A maioria dos pacientes apresenta melhora significativa em poucos dias, com recuperação progressiva do equilíbrio ao longo das semanas. Sintomas residuais, como tontura inespecífica, podem persistir por meses em alguns casos.

Recorrência é rara, mas parte dos pacientes pode evoluir posteriormente com vertigem posicional benigna ou transtornos de ansiedade relacionados ao episódio agudo.

 

Por que esse tema é essencial para médicos não neurologistas

A vertigem aguda é um sintoma comum em serviços de emergência, ambulatórios e atenção primária. A capacidade de diferenciar causas periféricas de condições centrais potencialmente fatais é uma competência clínica crítica.

Atualizar-se sobre neurite vestibular e labirintite melhora a segurança do paciente, reduz exames desnecessários e qualifica a tomada de decisão médica.

 

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Referências bibliográficas

  • Furman JM, Aminoff MJ. Vestibular neuritis and labyrinthitis. UpToDate. Atualizado em 2025.
  • Baloh RW. Vestibular neuritis. New England Journal of Medicine.
  • Strupp M et al. Diagnostic criteria for acute unilateral vestibulopathy. Journal of Vestibular Research.
  • Newman-Toker DE et al. Bedside diagnosis of acute vestibular syndrome. Stroke.

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