Voltar para o blog

Tratamento agudo da enxaqueca em adultos: especial NeuroUSP

15 min de leitura
2.5k visualizações
Clínica Médica
Tratamento agudo da enxaqueca em adultos: especial NeuroUSP

A enxaqueca é uma das principais causas de incapacidade no mundo e figura entre os motivos mais frequentes de procura por atendimento ambulatorial e de urgência. Apesar disso, o manejo do episódio agudo ainda é heterogêneo, muitas vezes tardio e, não raro, baseado em condutas pouco eficazes ou associadas a risco de cronificação.

Compreender o tratamento agudo da enxaqueca em adultos é essencial para reduzir sofrimento, evitar uso excessivo de medicamentos e melhorar desfechos clínicos. Este artigo apresenta uma visão prática e baseada em evidências sobre o tema.

O que caracteriza a enxaqueca no adulto

A enxaqueca é um transtorno neurológico episódico caracterizado por cefaleia de intensidade moderada a grave, geralmente unilateral, pulsátil, associada a náuseas, vômitos e hipersensibilidade à luz e ao som. A fisiopatologia envolve ativação do sistema trigeminovascular, liberação de peptídeos inflamatórios e disfunção dos mecanismos centrais de modulação da dor.

O reconhecimento precoce do quadro clínico é fundamental, pois a eficácia do tratamento está diretamente relacionada ao momento da intervenção.

 

Princípios gerais do tratamento agudo da enxaqueca

O tratamento do episódio agudo tem como objetivo aliviar a dor e os sintomas associados, restaurar a funcionalidade e prevenir recorrência precoce. Algumas recomendações são centrais:

  • O tratamento deve ser iniciado o mais cedo possível após o início da crise
  • Doses únicas adequadas são mais eficazes do que múltiplas doses fracionadas
  • A via de administração deve ser individualizada, especialmente na presença de náuseas e vômitos
  • A escolha do medicamento deve considerar intensidade da crise, comorbidades e resposta prévia

Esses princípios orientam a tomada de decisão clínica e reduzem falhas terapêuticas.

 

Analgésicos simples e anti-inflamatórios

Em crises leves a moderadas, analgésicos simples e anti-inflamatórios não esteroidais são opções eficazes. Medicamentos como paracetamol, ácido acetilsalicílico, ibuprofeno, naproxeno e diclofenaco demonstram benefício na redução da dor e da incapacidade funcional.

A associação com medicamentos para náuseas pode aumentar a eficácia, especialmente em pacientes com sintomas gastrointestinais importantes. O uso deve ser criterioso para evitar cefaleia associada ao uso excessivo de medicamentos.

 

Medicamentos específicos para enxaqueca

Em crises moderadas a graves, ou quando há falha dos analgésicos simples, os medicamentos específicos para enxaqueca são recomendados. Os agonistas serotoninérgicos seletivos demonstram elevada eficácia quando utilizados precocemente, atuando na modulação da dor e na inibição da liberação de mediadores inflamatórios.

Existem diferentes apresentações e vias de administração, o que permite individualizar o tratamento conforme o perfil do paciente e a gravidade da crise. A associação de um anti-inflamatório não esteroidal com um medicamento específico pode aumentar a taxa de resposta.

 

O que deve ser evitado no tratamento agudo

O uso de opioides e medicamentos barbitúricos não é recomendado no tratamento da enxaqueca. Além de menor eficácia, essas classes estão associadas a maior risco de cronificação da cefaleia, dependência e desenvolvimento de cefaleia por uso excessivo de medicamentos.

A educação do paciente e do profissional de saúde é parte essencial do cuidado e deve ser reforçada em todos os níveis de atenção.

 

Quando considerar outras estratégias

Em crises refratárias, prolongadas ou com necessidade de atendimento hospitalar, podem ser utilizados esquemas parenterais, associados a hidratação venosa e medicamentos para controle de náuseas. Em casos selecionados, intervenções adjuvantes reduzem a recorrência precoce da dor.

A avaliação global do paciente, incluindo frequência das crises e impacto funcional, também deve levantar a necessidade de tratamento preventivo.

 

Por que esse tema é central na prática clínica atual

O manejo adequado da enxaqueca exige atualização constante, leitura crítica da evidência e integração entre neurologia, clínica médica e medicina de família. Avanços recentes ampliaram o arsenal terapêutico e reforçaram a importância da abordagem individualizada.

Aprofundar-se nesses conceitos é fundamental para médicos que desejam oferecer cuidado qualificado, seguro e alinhado à melhor evidência científica disponível.

 

👉 Este conteúdo faz parte de uma série especial de aquecimento para o NeuroUSP, um dos principais eventos de atualização em neurologia do país.
Informações completas e inscrições: https://www.manole.com.br/neurousp/p

 


Referências bibliográficas

  • Schwedt TJ, Garza I. Acute treatment of migraine in adults. UpToDate. Atualizado em janeiro de 2026.
  • Lipton RB et al. Stratified care versus step care strategies for migraine. Journal of the American Medical Association.
  • Ashina M et al. Migraine: integrated approaches to clinical management. The Lancet.
  • Qaseem A et al. Pharmacologic treatments of acute episodic migraine headache. Annals of Internal Medicine.

Confira os artigos relacionados de