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Contraindicações à amamentação e alternativas seguras

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Medicina de Família e Comunidade
Contraindicações à amamentação e alternativas seguras

A amamentação é reconhecida como o padrão-ouro da alimentação infantil, com benefícios amplamente documentados para a saúde materna e neonatal. No entanto, existem situações clínicas específicas em que a amamentação é absoluta ou temporariamente contraindicada, exigindo do médico conhecimento atualizado para orientar adequadamente famílias e equipes multiprofissionais. Este artigo revisa as principais contraindicações à amamentação, os desafios clínicos mais frequentes, e discute as alternativas seguras, com ênfase no uso do leite humano doado pasteurizado.

 

Contraindicações absolutas à amamentação

As contraindicações absolutas à amamentação são raras, mas clinicamente relevantes. Entre elas, destacam-se:

  • Galactosemia clássica no lactente, condição metabólica em que a ingestão de lactose pode levar a complicações graves.
  • Infecção materna por HIV ou pelo vírus linfotrópico de células T humanas tipo I ou II (HTLV-I/II), devido ao risco comprovado de transmissão vertical pelo leite humano.

Nessas situações, a amamentação deve ser evitada de forma definitiva, independentemente do contexto clínico ou social.

 

Contraindicações maternas temporárias ou localizadas

Algumas condições maternas exigem suspensão temporária da amamentação ou restrição ao seio acometido:

  • Tuberculose ativa não tratada, até que a mãe esteja adequadamente tratada e não infecciosa.
  • Varicela ativa, principalmente no período periparto.
  • Lesões ativas de herpes simples na mama, nas quais a amamentação deve ser evitada apenas no seio afetado.

Nesses cenários, o manejo individualizado e o acompanhamento clínico são fundamentais para garantir segurança materno-infantil.

 

Uso de medicamentos durante a amamentação

A maioria dos medicamentos utilizados no período pós-parto é compatível com a amamentação. Contudo, um número restrito de fármacos exige interrupção temporária ou definitiva, incluindo:

  • Agentes quimioterápicos
  • Alguns antirretrovirais específicos
  • Isótopos radioativos

As principais sociedades científicas recomendam que o médico consulte bases de dados especializadas, como o LactMed, para avaliar risco, farmacocinética e alternativas terapêuticas seguras antes de orientar a suspensão da amamentação.

 

Desafios clínicos frequentes que impactam a amamentação

Mesmo na ausência de contraindicações formais, a amamentação enfrenta desafios comuns que podem levar ao desmame precoce não desejado, entre eles:

  • Dor ou trauma mamilar
  • Baixa produção de leite
  • Pega inadequada do lactente
  • Doença materna ou neonatal
  • Barreiras sociais, como ausência de licença-maternidade remunerada e falta de apoio no ambiente de trabalho 

As diretrizes reforçam que a intervenção precoce, com suporte em lactação e abordagem multiprofissional, é essencial para prevenir a interrupção precoce da amamentação.

 

Amamentação e uso de substâncias

O uso de substâncias ilícitas representa um desafio específico. O uso ativo e contínuo, especialmente em contexto de policonsumo, é considerado contraindicação à amamentação devido ao risco imprevisível de sedação, toxicidade ou efeitos neurológicos no lactente.

Em relação à hepatite C, a amamentação é permitida, exceto quando houver fissuras ou sangramento nos mamilos, situações que aumentam o risco de transmissão.

 

Alternativas seguras à amamentação

Quando a amamentação é contraindicada ou inviável, duas alternativas são consideradas seguras:

  • Fórmula infantil adequadamente preparada
  • Leite humano doado pasteurizado, quando disponível

A escolha deve considerar o contexto clínico do lactente, a disponibilidade institucional e as condições socioeconômicas da família.

 

Leite humano doado pasteurizado: indicações clínicas

Segundo a Academia Americana de Pediatria, o leite humano doado pasteurizado é a alternativa preferencial ao leite materno da própria mãe, especialmente para recém-nascidos de muito baixo peso ao nascer (VLBW).

A principal justificativa para essa recomendação é a redução consistente do risco de enterocolite necrosante (NEC) quando comparado à fórmula para prematuros. Esse benefício é sustentado por evidência de alta certeza proveniente de ensaios clínicos randomizados e revisões sistemáticas.

 

Limitações e particularidades do leite doado

O processo de pasteurização reduz parte dos componentes bioativos do leite humano, o que explica por que o leite doado:

  • Não reproduz integralmente os benefícios do leite materno da própria mãe
  • Não demonstra vantagem consistente em desfechos como sepse tardia ou neurodesenvolvimento em prematuros extremos

Ainda assim, permanece superior à fórmula na prevenção de NEC. Na prática clínica, o leite doado é frequentemente utilizado como estratégia de transição até que a produção materna seja estabelecida.

 

Uso em outros grupos neonatais

  • Prematuros moderados e tardios (32–36 semanas): evidência limitada, com possíveis benefícios em tolerância alimentar, mas sem impacto consistente em morbidade maior.
  • Recém-nascidos a termo saudáveis: uso crescente, porém sem benefícios clínicos claros em comparação à fórmula; não há evidência de dano. 

Considerações nutricionais, segurança e acesso

O leite humano doado geralmente requer fortificação, especialmente para atender às necessidades nutricionais de prematuros. A segurança é garantida por protocolos rigorosos de triagem de doadoras, pasteurização (método Holder) e controle de qualidade.

Apesar disso, persistem desigualdades de acesso, relacionadas a custo, disponibilidade e infraestrutura hospitalar, particularmente fora de unidades de terapia intensiva neonatal.

O manejo da amamentação exige do médico uma abordagem baseada em evidências, sensível ao contexto clínico e social. Embora as contraindicações absolutas sejam raras, seu reconhecimento é essencial para evitar riscos ao lactente. Quando a amamentação não é possível, o leite humano doado pasteurizado representa a melhor alternativa disponível, especialmente para recém-nascidos de alto risco, reforçando a importância de políticas institucionais que ampliem seu acesso de forma segura e equitativa.

 

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