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Roacutan (Isotretinoína): indicações, posologia e monitorização clínica no tratamento da acne

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Pediatria
Roacutan (Isotretinoína): indicações, posologia e monitorização clínica no tratamento da acne

A isotretinoína oral, comercialmente conhecida como Roacutan, permanece como a terapia mais eficaz para acne inflamatória grave e formas recalcitrantes da doença. Seu uso adequado exige conhecimento preciso das indicações formais, da estratégia posológica baseada em dose cumulativa e de protocolos de monitorização clínica e laboratorial.

Este artigo revisa as evidências atuais sobre indicações, esquema terapêutico e acompanhamento do paciente em uso de isotretinoína, com foco em médicos que atuam em dermatologia, medicina de família e especialidades correlatas.

Indicações da isotretinoína oral

A principal indicação da isotretinoína é:

  • Acne nodular grave
  • Acne conglobata
  • Acne recalcitrante não responsiva a terapias convencionais, incluindo antibióticos tópicos e sistêmicos [1–3]

Outras indicações reconhecidas incluem:

  • Acne moderada com tendência à cicatrização permanente
  • Acne com sofrimento psicológico significativo
  • Recidiva rápida após tratamento convencional
  • Melhora inferior a 50% após seis meses de terapia combinada
  • Foliculite gram-negativa
  • Acne fulminans
  • Hidradenite supurativa
  • Rosácea inflamatória [3–5]

Diretrizes recentes recomendam considerar isotretinoína também em acne moderada persistente, especialmente quando há impacto psicossocial relevante ou risco de cicatriz permanente [3,6].

Posologia e estratégia terapêutica

Dose inicial

O esquema recomendado inicia-se com:

  • 0,5 a 1 mg/kg/dia

Em casos muito graves, pode-se aumentar a dose até:

  • 2 mg/kg/dia [1,5,6]

Dose cumulativa

O objetivo terapêutico é atingir dose cumulativa entre:

  • 120 a 150 mg/kg por curso

Evidências indicam que doses cumulativas superiores a 220 mg/kg podem estar associadas a menor taxa de recidiva, embora esse ponto ainda seja tema de debate [3,7].

Duração do tratamento

A duração típica varia entre:

  • 4 a 7 meses

Recomenda-se manter o tratamento por pelo menos dois meses após resolução completa das lesões, com o intuito de reduzir risco de recidiva [3,6]. Há consenso de que a dose cumulativa é fator determinante para remissão sustentada, mais do que a duração isolada do tratamento [3,7,8].

Monitorização clínica e laboratorial

O acompanhamento rigoroso é essencial para minimizar riscos e otimizar resultados.

1. Monitorização laboratorial

Antes do início do tratamento:

  • Perfil lipídico (colesterol total e triglicerídeos)
  • Função hepática

Repetir exames em:

  • 4 semanas
  • 8 semanas

Se os resultados permanecerem estáveis, pode-se considerar espaçamento progressivo das avaliações subsequentes [1,3,7]. A individualização da frequência deve considerar fatores de risco metabólicos.

2. Monitorização clínica

Avaliar regularmente:

  • Sintomas psiquiátricos, especialmente sinais de depressão
  • Efeitos mucocutâneos (queilite, xerose, ressecamento ocular)
  • Mialgia e artralgia
  • Alterações visuais

Embora a associação entre isotretinoína e depressão permaneça controversa, recomenda-se vigilância ativa de sintomas neuropsiquiátricos [2,3,6].

3. Mulheres em idade fértil

A isotretinoína é altamente teratogênica.

Medidas obrigatórias incluem:

  • Dois testes de gravidez negativos antes do início
  • Testes mensais durante o tratamento
  • Teste até seis semanas após o término
  • Uso rigoroso de contracepção

Nos Estados Unidos, o uso é regulado pelo programa iPledge, que exige registro e acompanhamento mensal obrigatório [1,3]. A orientação detalhada sobre riscos fetais é parte essencial da consulta inicial.

4. Procedimentos dermatológicos

Deve-se evitar durante o tratamento e por até seis meses após:

  • Peelings químicos profundos
  • Laser ablativo
  • Dermoabrasão

Essas medidas reduzem risco de cicatrização anômala [1,6].

Isotretinoína em populações especiais

Adolescentes

Pacientes mais jovens apresentam maior risco de recidiva, especialmente quando tratados precocemente. Em alguns casos, pode ser necessário mais de um curso terapêutico [6,8]. A estratégia de dose cumulativa adequada parece reduzir esse risco, embora não elimine completamente a possibilidade de recorrência.

Recidiva e necessidade de retratamento

A taxa de recidiva varia conforme:

  • Idade
  • Gravidade inicial
  • Dose cumulativa atingida

Ainda existe debate sobre qual dose cumulativa ideal minimiza recidivas. Entretanto, há consenso quanto à importância de atingir dose total adequada antes da suspensão do tratamento [3,7,8].

Individualização da monitorização

A monitorização deve considerar:

  • Histórico psiquiátrico
  • Dislipidemia prévia
  • Doença hepática
  • Uso concomitante de medicações hepatotóxicas
  • Atividade física intensa

A abordagem personalizada permite reduzir exames desnecessários e concentrar vigilância em pacientes de maior risco.

Considerações finais

A isotretinoína continua sendo o tratamento mais eficaz para acne grave e formas recalcitrantes, com potencial de remissão prolongada quando utilizada com estratégia adequada de dose cumulativa.

Pontos-chave para a prática médica:

  • Indicação correta baseada em gravidade e impacto psicossocial
  • Meta de dose cumulativa entre 120–150 mg/kg
  • Monitorização laboratorial inicial e individualizada
  • Vigilância de sintomas neuropsiquiátricos
  • Controle rigoroso de risco teratogênico
  • Orientação quanto a procedimentos dermatológicos

O acompanhamento estruturado é fundamental para maximizar benefícios terapêuticos e minimizar eventos adversos.

Referências

  1. Food and Drug Administration. Isotretinoin. Updated 2022-10-24.
  2. McLane J. Analysis of Common Side Effects of Isotretinoin. J Am Acad Dermatol. 2001;45(5):S188-94. doi:10.1067/mjd.2001.113719.
  3. Eichenfield DZ, Sprague J, Eichenfield LF. Management of Acne Vulgaris: A Review. JAMA. 2021;326(20):2055-2067. doi:10.1001/jama.2021.17633.
  4. Ortonne JP. Oral Isotretinoin Treatment Policy. Dermatology. 1997;195 Suppl 1:34-7. doi:10.1159/000246018.
  5. Cunliffe WJ, van de Kerkhof PC, Caputo R, et al. Roaccutane Treatment Guidelines. Dermatology. 1997;194(4):351-7. doi:10.1159/000246134.
  6. Dessinioti C, Zouboulis CC, Bettoli V, Rigopoulos D. Comparison of Guidelines on Oral Isotretinoin. J Eur Acad Dermatol Venereol. 2020;34(10):2229-2240. doi:10.1111/jdv.16430.
  7. Haider A, Shaw JC. Treatment of Acne Vulgaris. JAMA. 2004;292(6):726-35. doi:10.1001/jama.292.6.726.
  8. Leyden JJ. Oral Isotretinoin: Difficult Acne Patients. Dermatology. 1997;195 Suppl 1:29-33. doi:10.1159/000246017.

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