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Sífilis congênita: diagnóstico, tratamento e seguimento do recém-nascido exposto

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Pediatria
Sífilis congênita: diagnóstico, tratamento e seguimento do recém-nascido exposto

A sífilis congênita ocorre quando o Treponema pallidum é transmitido da gestante infectada para o feto durante a gestação ou, menos frequentemente, no momento do parto. Trata-se de uma condição potencialmente grave, mas amplamente prevenível quando há diagnóstico e tratamento adequados da sífilis materna durante o pré-natal.

Um recém-nascido é considerado exposto à sífilis quando nasce de mãe com testes treponêmicos e não treponêmicos reativos. A decisão sobre investigação e tratamento depende de uma combinação de fatores maternos e neonatais, incluindo tratamento materno, tempo entre o tratamento e o parto, comparação dos títulos sorológicos e presença de manifestações clínicas, laboratoriais ou radiográficas no recém-nascido.

 

Por que o diagnóstico de sífilis congênita é desafiador?

O diagnóstico de sífilis congênita pode ser difícil porque anticorpos maternos atravessam a placenta. Assim, testes treponêmicos e não treponêmicos reativos no recém-nascido nem sempre significam infecção ativa.

Um achado importante é o título não treponêmico do recém-nascido ser quatro vezes maior que o título materno, o que sugere infecção. No entanto, a ausência desse achado não exclui sífilis congênita.

Achado

Interpretação

Teste treponêmico positivo no recém-nascido

Pode refletir passagem passiva de anticorpos maternos

Teste não treponêmico positivo

Deve ser comparado com o título materno

Título neonatal quatro vezes maior que o materno

Sugere infecção congênita

Título neonatal menor ou semelhante ao materno

Não exclui sífilis congênita

Teste não treponêmico negativo

Reduz a probabilidade, mas deve ser interpretado no contexto clínico e materno

 

Quais recém-nascidos devem ser tratados?

O tratamento deve ser indicado quando há alto risco de infecção congênita, especialmente se a mãe não foi tratada adequadamente, se o tratamento ocorreu muito próximo ao parto ou se há sinais clínicos compatíveis no recém-nascido.

Indicações importantes de tratamento

Situação materna ou neonatal

Conduta geral

Mãe não tratada para sífilis

Tratar o recém-nascido

Mãe tratada com esquema não baseado em penicilina

Considerar tratamento inadequado e tratar o recém-nascido

Ausência de documentação do tratamento materno

Tratar o recém-nascido

Tratamento materno iniciado menos de 30 dias antes do parto

Tratar o recém-nascido

Aumento de quatro vezes ou mais no título materno

Suspeitar reinfecção ou falha terapêutica

Exame físico neonatal compatível com sífilis congênita

Tratar independentemente do histórico materno

Título neonatal quatro vezes maior que o materno

Tratar como sífilis congênita provável

 

Manifestações clínicas da sífilis congênita

Muitos recém-nascidos com sífilis congênita podem ser assintomáticos ao nascimento. Isso é particularmente importante porque manifestações podem surgir dias a meses depois, caso o recém-nascido não seja tratado.

Entre os achados possíveis estão alterações hematológicas, hepáticas, cutâneas, ósseas e neurológicas.

Sistema acometido

Possíveis manifestações

Hematológico

Anemia, trombocitopenia

Hepatobiliar

Hepatomegalia, alterações de função hepática, colestase

Pele e mucosas

Lesões bolhosas, exantema, lesões mucocutâneas

Respiratório/nasal

Rinite sifilítica

Osteoarticular

Osteocondrite, periostite, alterações em ossos longos

Neurológico

Convulsões, alterações oftalmológicas, paralisias de nervos cranianos, infartos cerebrais

A presença de alterações em ossos longos, especialmente com padrão radiográfico sugestivo de desmineralização, pode ser altamente sugestiva de sífilis congênita.

 

Como investigar o recém-nascido com suspeita de sífilis congênita?

A avaliação deve ser orientada pelo risco materno, pelo exame físico do recém-nascido e pela comparação dos testes sorológicos maternos e neonatais.

Avaliação recomendada em casos suspeitos

Exame ou avaliação

Objetivo

Exame físico completo

Identificar sinais clínicos de sífilis congênita

Teste não treponêmico quantitativo do recém-nascido

Comparar com o mesmo teste materno

Hemograma completo com plaquetas

Avaliar anemia, leucócitos e trombocitopenia

Radiografia de ossos longos

Investigar osteocondrite ou periostite

Análise do líquido cefalorraquidiano

Avaliar possibilidade de neurossífilis

Função hepática

Investigar acometimento hepatobiliar

Radiografia de tórax

Conforme quadro clínico

Ultrassonografia craniana

Conforme suspeita neurológica

Avaliação oftalmológica

Quando indicada

Avaliação auditiva

Quando indicada

Um ponto importante: o teste não treponêmico do recém-nascido deve ser feito em soro neonatal, não em sangue de cordão umbilical.

 

Tratamento da sífilis congênita

O tratamento padrão da sífilis congênita comprovada ou altamente provável é feito com penicilina G cristalina aquosa intravenosa, ajustada ao peso e à idade do recém-nascido.

Situação

Tratamento

Sífilis congênita comprovada ou altamente provável

Penicilina G cristalina aquosa intravenosa por 10 dias

Alternativa em alguns cenários

Penicilina G procaína intramuscular diária por 10 dias

Recém-nascido assintomático, avaliação normal e seguimento garantido

Pode-se considerar penicilina G benzatina intramuscular em dose única, conforme cenário clínico

A penicilina G cristalina aquosa é preferida nos casos de maior risco, especialmente pela melhor penetração no sistema nervoso central. Mesmo que o recém-nascido tenha recebido ampicilina e gentamicina por suspeita de sepse neonatal, isso não substitui o tratamento específico para sífilis congênita.

 

E quando pensar em neurossífilis?

A neurossífilis pode ocorrer em recém-nascidos com sífilis congênita, especialmente nos casos sintomáticos. A avaliação do líquido cefalorraquidiano pode ser indicada, embora sua interpretação seja complexa.

Achado

Consideração

VDRL no líquido cefalorraquidiano positivo

Sugere neurossífilis

VDRL negativo no líquido cefalorraquidiano

Não exclui completamente neurossífilis

Aumento de células ou proteínas

Deve ser interpretado conforme idade e contexto clínico

Sintomas neurológicos

Aumentam a suspeita e indicam investigação cuidadosa

 

Como fazer o seguimento do recém-nascido exposto à sífilis?

O seguimento é essencial, mesmo quando o recém-nascido está assintomático. Todos os neonatos com testes não treponêmicos reativos devem ser acompanhados com sorologia seriada.

Situação

Seguimento

Recém-nascido com teste não treponêmico reativo

Repetir sorologia a cada 2 a 3 meses

Lactente não infectado

Títulos tendem a negativar até 6 meses

Títulos persistentes após 6 meses

Reavaliar e considerar tratamento

Recém-nascido tratado com títulos persistentes após 6 a 12 meses

Reavaliar, incluindo líquido cefalorraquidiano se indicado

Líquido cefalorraquidiano inicialmente alterado

Repetir avaliação até normalização, conforme cenário clínico

Anticorpos maternos transferidos passivamente podem persistir por meses, mas a ausência de queda dos títulos deve acender alerta para infecção persistente ou tratamento inadequado.

 

Diferença entre recém-nascido exposto e sífilis congênita confirmada

Nem todo recém-nascido exposto à sífilis tem sífilis congênita confirmada. A distinção depende da história materna, do tratamento durante a gestação, dos exames do recém-nascido e da evolução sorológica.

Conceito

Definição prática

Recém-nascido exposto à sífilis

Filho de mãe com testes treponêmicos e não treponêmicos reativos

Sífilis congênita possível

Exposição com tratamento materno inadequado, ausente ou incerto

Sífilis congênita provável

Exposição associada a achados clínicos, laboratoriais, radiográficos ou título neonatal elevado

Sífilis congênita confirmada

Demonstração direta do agente ou quadro altamente compatível com critérios diagnósticos

 

Principais erros no manejo da sífilis congênita

Alguns erros são frequentes e podem comprometer o cuidado neonatal:

Erro

Por que evitar

Considerar tratamento materno com outro antibiótico como adequado

O tratamento adequado da sífilis na gestação deve ser baseado em penicilina

Não documentar o tratamento materno

Sem documentação, o recém-nascido pode precisar ser tratado

Usar sangue de cordão para sorologia neonatal

Pode gerar interpretação inadequada

Não comparar título materno e neonatal

A comparação orienta o risco de infecção

Não garantir seguimento sorológico

Pode perder casos de infecção persistente

Assumir que recém-nascido assintomático está livre de risco

Muitos casos são assintomáticos ao nascimento

 

Conclusão

A sífilis congênita continua sendo um desafio clínico e de saúde pública porque muitos recém-nascidos podem nascer assintomáticos, mas ainda assim desenvolver manifestações posteriores se não forem adequadamente avaliados e tratados.

O manejo depende de uma análise integrada: história e tratamento materno, intervalo entre tratamento e parto, títulos sorológicos comparativos, exame físico neonatal e exames complementares. A penicilina permanece como base do tratamento, e o seguimento sorológico é indispensável para confirmar resposta e identificar possíveis falhas terapêuticas.

Para o médico, a mensagem central é: diante de um recém-nascido exposto à sífilis, não basta olhar apenas a sorologia neonatal. É preciso reconstruir a história materna, avaliar o bebê cuidadosamente e garantir acompanhamento após a alta.

 

Referências bibliográficas

  1. Stafford IA, Workowski KA, Bachmann LH. Syphilis Complicating Pregnancy and Congenital Syphilis. New England Journal of Medicine. 2024;390(3):242-253. doi:10.1056/NEJMra2202762.

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  3. Kapogiannis BG, Yates F, Li W, et al. Guidelines for the Prevention and Treatment of Opportunistic Infections in Children With and Exposed to HIV. Office of AIDS Research Advisory Council. 2025.

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