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Fratura exposta: classificação, antibiótico e manejo inicial

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Clínica Médica
Fratura exposta: classificação, antibiótico e manejo inicial

A fratura exposta é uma emergência ortopédica definida pela comunicação entre o foco de fratura e o meio externo. Essa comunicação pode ocorrer por uma ferida evidente, com exposição óssea, ou por lesões menores de pele que se conectam ao hematoma fraturário.

O manejo adequado nas primeiras horas é decisivo para reduzir complicações como infecção profunda, osteomielite, não união, perda funcional e amputação. Por isso, a abordagem inicial deve ser rápida, sistemática e integrada entre emergência, ortopedia, cirurgia vascular, cirurgia plástica e equipe de trauma, conforme a gravidade.

Na prática, a conduta inicial se baseia em cinco pilares: avaliação do trauma, antibiótico intravenoso precoce, cobertura estéril da ferida, avaliação neurovascular e planejamento cirúrgico.

O que é fratura exposta?

Fratura exposta é toda fratura em que há comunicação do osso ou do hematoma fraturário com o ambiente externo. A exposição óssea visível não é obrigatória para o diagnóstico.

Assim, uma pequena ferida próxima ao foco de fratura, especialmente após trauma de alta energia, deve ser considerada como possível fratura exposta até prova em contrário.

Essa definição é importante porque o risco de contaminação bacteriana existe desde o momento da lesão. Por isso, o tratamento não deve aguardar a confirmação intraoperatória para iniciar medidas de prevenção de infecção.

Por que a fratura exposta é uma emergência?

A fratura exposta combina lesão óssea, dano de partes moles e contaminação da ferida. Quanto maior a energia do trauma, maior tende a ser a lesão muscular, vascular, cutânea e periosteal.

As principais complicações incluem:

  • infecção de ferida operatória;
  • osteomielite;
  • síndrome compartimental;
  • lesão vascular;
  • lesão neurológica;
  • não união ou consolidação viciosa;
  • necessidade de múltiplas cirurgias;
  • perda funcional do membro;
  • amputação em casos graves.

O risco de infecção aumenta com atraso no antibiótico, maior grau de contaminação, lesão extensa de partes moles, fraturas cominutivas, lesão vascular associada e atraso na cobertura adequada dos tecidos.

Atendimento inicial: o que fazer primeiro?

O paciente com fratura exposta deve ser abordado dentro dos princípios do atendimento ao trauma. A prioridade inicial é identificar e tratar ameaças à vida.

Depois da avaliação primária, o membro lesionado deve ser examinado com atenção, documentando o estado vascular e neurológico antes de qualquer manipulação importante.

Passos iniciais no pronto-socorro

Etapa Conduta prática
1. Avaliação do trauma Seguir abordagem sistemática do trauma e estabilizar o paciente
2. Antibiótico precoce Administrar antibiótico intravenoso idealmente dentro de 1 hora da chegada
3. Curativo estéril Cobrir a ferida com gaze estéril, preferencialmente umedecida com soro fisiológico, e curativo oclusivo
4. Avaliação neurovascular Documentar pulsos, perfusão, sensibilidade e motricidade antes e depois da imobilização
5. Imobilização Realinhar grosseiramente se necessário e imobilizar o membro
6. Analgesia Oferecer analgesia adequada e precoce
7. Profilaxia antitetânica Avaliar situação vacinal e indicar reforço ou imunoglobulina conforme o caso
8. Acionamento da ortopedia Solicitar avaliação ortopédica urgente e definir necessidade de centro cirúrgico

A ferida não deve ser explorada repetidamente no pronto-socorro. A manipulação deve ser mínima, apenas para remoção de contaminantes grosseiros facilmente acessíveis, documentação fotográfica quando possível e cobertura estéril.

Avaliação neurovascular: o que não pode faltar?

Antes do realinhamento, da tração ou da imobilização, é fundamental avaliar e registrar o estado neurovascular do membro.

Essa documentação protege o paciente e orienta a equipe sobre a urgência da intervenção.

Componente O que avaliar
Perfusão Cor, temperatura, enchimento capilar
Pulsos Pulsos distais palpáveis ou avaliados com Doppler, se necessário
Sensibilidade Territórios sensitivos distais ao trauma
Motricidade Movimento ativo distal, quando possível
Dor desproporcional Sinal de alerta para síndrome compartimental
Tensão dos compartimentos Avaliar edema, dor à mobilização passiva e progressão dos sintomas

Ausência de pulso, extremidade fria, palidez, déficit neurológico progressivo, dor desproporcional ou suspeita de síndrome compartimental exigem avaliação cirúrgica imediata.

Classificação de Gustilo-Anderson

A classificação de Gustilo-Anderson é a mais utilizada para estratificar a gravidade das fraturas expostas. Ela considera tamanho da ferida, grau de contaminação, lesão de partes moles, padrão da fratura e presença de lesão vascular.

Embora a classificação definitiva muitas vezes seja feita no centro cirúrgico, uma estimativa inicial ajuda a orientar a antibioticoterapia.

Tipo Características gerais
Gustilo I Ferida menor que 1 cm, baixa energia, pouca contaminação, lesão mínima de partes moles
Gustilo II Ferida maior que 1 cm e menor que 10 cm, sem dano extenso de partes moles
Gustilo III Ferida extensa, geralmente maior que 10 cm, trauma de alta energia, contaminação importante, lesão extensa de partes moles ou fratura cominutiva
Gustilo IIIA Cobertura óssea possível apesar da lesão extensa
Gustilo IIIB Perda importante de partes moles, exposição óssea, necessidade de retalho ou reconstrução
Gustilo IIIC Lesão arterial associada que exige reparo vascular, independentemente do grau de lesão de partes moles

Na prática, qualquer fratura exposta por trauma de alta energia, ferida contaminada, esmagamento, lesão vascular, fratura segmentar ou perda extensa de partes moles deve ser tratada como lesão grave.

Antibiótico na fratura exposta: quando iniciar?

O antibiótico intravenoso deve ser administrado o mais precocemente possível, idealmente dentro de 1 hora da apresentação ao departamento de emergência.

Esse é um dos pontos mais importantes do manejo inicial. Diferentemente de algumas etapas cirúrgicas, nas quais há debate sobre o timing ideal em cenários selecionados, a antibioticoterapia precoce é uma medida de alto impacto para reduzir infecção.

A coleta de culturas não deve atrasar o início do antibiótico. O tratamento deve ser guiado pela gravidade da fratura e pelo grau de contaminação.

Qual antibiótico usar na fratura exposta?

A escolha inicial depende da classificação de Gustilo e da contaminação da ferida.

Classificação Cobertura recomendada Exemplo de esquema
Gustilo I e II Gram-positivos Cefazolina
Gustilo III Gram-positivos + gram-negativos Cefazolina + gentamicina
Contaminação grave, solo, material orgânico ou vascularização comprometida Adicionar cobertura anaeróbica Acrescentar penicilina ou esquema com cobertura anaeróbica conforme protocolo local

A cefazolina é frequentemente utilizada como primeira escolha para cobertura de gram-positivos em fraturas Gustilo I e II. Em fraturas Gustilo III, adiciona-se cobertura para gram-negativos, como aminoglicosídeo, conforme protocolo institucional e perfil do paciente.

Em casos de contaminação por solo, material fecal, ambiente rural ou suspeita de anaeróbios, deve-se ampliar a cobertura. A escolha final deve considerar alergias, função renal, idade, gestação, epidemiologia local e protocolos hospitalares.

Por quanto tempo manter o antibiótico?

A duração da antibioticoterapia deve ser suficiente para cobrir o período inicial de maior risco, mas não deve ser prolongada sem indicação.

De forma geral:

Situação Duração sugerida
Antes da cirurgia Manter doses programadas até o manejo cirúrgico
Após o procedimento cirúrgico Manter por pelo menos 24 horas a partir do início do procedimento
Feridas altamente contaminadas Pode-se considerar extensão por até 72 horas
Após 72 horas Evitar manter antibiótico além desse período, salvo nova intervenção operatória ou indicação específica

Antibiótico prolongado sem necessidade não substitui desbridamento adequado, estabilização óssea e cobertura de partes moles. Além disso, pode aumentar risco de eventos adversos, nefrotoxicidade, seleção bacteriana e infecção por microrganismos resistentes.

Desbridamento cirúrgico: precisa ser em até 6 horas?

Por muitos anos, a “regra das 6 horas” foi ensinada como dogma no tratamento das fraturas expostas. No entanto, evidências mais recentes sugerem que o ponto mais importante é que o desbridamento seja bem feito, por equipe experiente, em ambiente adequado e sem atrasar situações que realmente exigem intervenção imediata.

Em muitos casos, o desbridamento dentro das primeiras 24 horas parece adequado, desde que o paciente tenha recebido antibiótico precocemente e esteja clinicamente estável.

No entanto, algumas situações exigem cirurgia imediata.

Situação Conduta
Contaminação grosseira Desbridamento urgente
Membro desvascularizado Intervenção imediata, com avaliação vascular
Síndrome compartimental Fasciotomia urgente
Paciente politraumatizado instável Priorizar controle de danos conforme abordagem do trauma
Lesão vascular associada Avaliação vascular e reparo conforme indicação
Ferida com grande esmagamento ou necrose Desbridamento cirúrgico urgente

O objetivo do desbridamento é remover contaminantes, tecidos desvitalizados e corpos estranhos, preservando estruturas viáveis e preparando o membro para estabilização e cobertura adequada.

Irrigação da ferida: qual solução usar?

A irrigação faz parte do manejo cirúrgico, mas não deve ser feita de forma agressiva e repetida no pronto-socorro.

No centro cirúrgico, a irrigação com solução salina é recomendada. Soluções antissépticas ou antibacterianas não demonstraram superioridade consistente em relação ao soro fisiológico e podem ter efeitos deletérios sobre tecidos viáveis.

A irrigação de alta pressão também não demonstrou benefício claro e pode causar dano adicional aos tecidos. Por isso, a tendência atual é preferir irrigação adequada, com solução salina, volume suficiente e menor agressão tecidual.

Estabilização da fratura

A estabilização óssea reduz dor, sangramento, lesão adicional de tecidos moles e facilita o cuidado da ferida. A escolha entre fixação externa, fixação interna ou outras estratégias depende do tipo de fratura, grau de contaminação, estabilidade do paciente e condição das partes moles.

Em pacientes politraumatizados, pode-se optar por controle de danos ortopédico, com estabilização temporária, especialmente quando há instabilidade hemodinâmica ou lesões associadas graves.

Em fraturas graves de membros inferiores, fraturas com perda extensa de partes moles ou lesões contaminadas, a decisão deve ser individualizada por equipe experiente.

Cobertura de partes moles

A cobertura adequada de partes moles é um componente central do tratamento. Ela cria uma barreira vascularizada entre o ambiente externo e a fratura, reduz contaminação contínua e favorece a cicatrização óssea.

Quando possível, o fechamento da ferida durante a primeira cirurgia pode reduzir infecção e não união, desde que o desbridamento tenha sido adequado e não haja tensão excessiva ou tecido inviável.

Quando há necessidade de reconstrução de partes moles, a cobertura deve ser realizada idealmente nos primeiros 7 dias.

Situação da ferida Possível abordagem
Ferida limpa, tecidos viáveis, fechamento sem tensão Fechamento primário pode ser considerado
Perda de partes moles, exposição óssea ou tendínea Retalho ou reconstrução
Contaminação importante ou dúvida sobre viabilidade Desbridamentos seriados e planejamento de cobertura
Defeitos extensos Abordagem conjunta com cirurgia plástica/reconstrutiva

A terapia por pressão negativa pode ser útil como ponte em alguns casos, mas não deve servir como justificativa para atrasar cobertura definitiva quando esta é necessária.

Antibióticos locais: quando considerar?

Além da antibioticoterapia sistêmica, há interesse crescente no uso de antibióticos locais em fraturas expostas graves, especialmente em lesões com alto risco de infecção.

Exemplos incluem contas, espaçadores, cimento com antibiótico ou implantes revestidos, como os com gentamicina. Essas estratégias podem proporcionar alta concentração local de antimicrobiano com menor exposição sistêmica.

No entanto, o uso deve ser individualizado e geralmente faz parte do planejamento ortopédico intraoperatório. Antibiótico local não substitui antibiótico intravenoso precoce, desbridamento adequado, estabilização e cobertura de partes moles.

Profilaxia antitetânica

Toda fratura exposta exige avaliação da situação vacinal para tétano.

A conduta depende do tipo de ferida, número de doses prévias e tempo desde o último reforço. Como a fratura exposta é uma ferida de alto risco, pacientes com vacinação incompleta ou desconhecida podem necessitar de vacina e imunoglobulina antitetânica, conforme protocolos nacionais.

Esse ponto não deve ser esquecido no pronto-socorro, especialmente em pacientes com trauma em ambiente rural, solo, material orgânico ou feridas muito contaminadas.

Erros comuns no manejo da fratura exposta

Alguns erros podem comprometer o desfecho do paciente.

Erro Por que evitar?
Atrasar antibiótico aguardando avaliação ortopédica O antibiótico precoce reduz risco de infecção
Manipular repetidamente a ferida no pronto-socorro Aumenta contaminação e trauma tecidual
Não documentar exame neurovascular Dificulta avaliação evolutiva e decisão cirúrgica
Usar apenas o tamanho da ferida para estimar gravidade Lesões pequenas podem esconder trauma de alta energia
Manter antibiótico por tempo excessivo sem indicação Aumenta eventos adversos e resistência bacteriana
Atrasar cobertura de partes moles quando necessária Aumenta risco de infecção e complicações
Esquecer profilaxia antitetânica A fratura exposta é ferida de alto risco

Fluxo prático de atendimento inicial

Uma forma simples de organizar a conduta é seguir este raciocínio:

  1. Avaliar o paciente como vítima de trauma.
  2. Administrar antibiótico intravenoso o mais cedo possível.
  3. Controlar sangramento e cobrir a ferida com curativo estéril.
  4. Avaliar e documentar estado neurovascular.
  5. Realinhar grosseiramente se necessário e imobilizar.
  6. Solicitar radiografias após estabilização inicial, conforme segurança clínica.
  7. Avaliar profilaxia antitetânica.
  8. Acionar ortopedia e equipes associadas.
  9. Identificar critérios de cirurgia imediata.
  10. Planejar desbridamento, estabilização e cobertura de partes moles.

Conclusão

A fratura exposta é uma emergência ortopédica que exige reconhecimento precoce e manejo sistemático. O antibiótico intravenoso deve ser administrado idealmente dentro de 1 hora da chegada ao pronto-socorro, sem aguardar o centro cirúrgico ou coleta de culturas.

A avaliação inicial deve incluir curativo estéril, analgesia, exame neurovascular documentado, imobilização, profilaxia antitetânica e classificação inicial da gravidade. A classificação de Gustilo-Anderson orienta a escolha antimicrobiana e ajuda a estimar risco de infecção, embora a classificação definitiva frequentemente ocorra no intraoperatório.

O desbridamento deve remover tecidos inviáveis e contaminantes, preferencialmente por equipe experiente. Em pacientes estáveis, o desbridamento dentro de 24 horas pode ser adequado, mas contaminação grosseira, membro desvascularizado, síndrome compartimental e politrauma grave exigem intervenção imediata.

Por fim, o sucesso do tratamento depende da integração entre antibiótico precoce, cirurgia adequada, estabilização da fratura, cobertura oportuna de partes moles e reabilitação funcional.

Referências

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STAHEL, P. F.; KAUFMAN, A. M. Contemporary Management of Open Extremity Fractures: What You Need to Know. Journal of Trauma and Acute Care Surgery, v. 97, n. 1, p. 11-22, 2024. doi:10.1097/TA.0000000000004288.

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