O câncer de endométrio é uma neoplasia maligna originada no revestimento interno do corpo uterino, geralmente representada por adenocarcinomas. É uma das neoplasias ginecológicas mais relevantes na prática clínica, especialmente porque costuma se manifestar com um sinal de alerta relativamente precoce: o sangramento vaginal pós-menopausa.
Apesar de muitas pacientes serem diagnosticadas em estádios iniciais e apresentarem doença potencialmente curável por cirurgia, a abordagem atual do câncer de endométrio exige integração entre fatores clínicos, histologia, estadiamento cirúrgico e perfil molecular do tumor.
O que é câncer de endométrio?
O câncer de endométrio é uma malignidade epitelial da mucosa do corpo uterino. O subtipo mais comum é o carcinoma endometrioide, frequentemente associado à exposição estrogênica sem oposição adequada da progesterona. Outros subtipos, como carcinoma seroso, carcinoma de células claras e carcinossarcoma, tendem a apresentar comportamento mais agressivo e maior risco de disseminação precoce.
De forma didática, pode-se dividir a apresentação em dois grandes perfis:
| Perfil |
Características principais |
| Tumores endometrioides |
Mais comuns, frequentemente associados à obesidade, anovulação, hiperplasia endometrial e exposição estrogênica |
| Tumores não endometrioides |
Menos comuns, porém mais agressivos; incluem carcinoma seroso, células claras e carcinossarcoma |
Epidemiologia: por que o câncer de endométrio importa?
A incidência global do câncer de endométrio está aumentando, possivelmente relacionada ao crescimento da prevalência de obesidade. Em 2022, foram estimados aproximadamente 420 mil novos casos no mundo. A idade mediana ao diagnóstico é em torno de 64 anos.
Esse dado é clinicamente importante porque o câncer de endométrio combina três elementos relevantes para o médico: alta frequência, sinal de alerta comum e possibilidade de tratamento curativo quando diagnosticado precocemente.
Fatores de risco para câncer de endométrio
Os principais fatores de risco estão relacionados à exposição prolongada do endométrio ao estrogênio sem oposição da progesterona, além de fatores genéticos e metabólicos.
| Fator de risco |
Comentário prático |
| Obesidade e sobrepeso |
Um dos fatores mais importantes; aumenta a produção periférica de estrogênios |
| Idade maior que 50 anos |
A maioria dos diagnósticos ocorre após a menopausa |
| Hiperplasia endometrial atípica |
Lesão precursora relevante |
| Anovulação crônica |
Inclui síndrome dos ovários policísticos |
| Nuliparidade e infertilidade |
Menor exposição ao efeito protetor da progesterona gestacional |
| Diabetes mellitus e resistência insulínica |
Frequentemente coexistem com obesidade |
| Uso de tamoxifeno em mulheres menopausadas |
Aumenta risco de alterações endometriais |
| Terapia estrogênica sem progesterona |
Especialmente em mulheres com útero |
| Síndrome de Lynch |
Importante causa hereditária |
| História familiar de câncer colorretal, endometrial ou ovariano |
Deve acender alerta para avaliação genética |
A síndrome de Lynch merece destaque: ela está associada a mutações em genes de reparo de erro de pareamento do DNA e aumenta o risco de câncer de endométrio, colorretal e ovário.
Sintomas do câncer de endométrio
O principal sintoma do câncer de endométrio é o sangramento vaginal pós-menopausa. Qualquer sangramento após a menopausa deve ser valorizado e investigado.
Em mulheres na pré-menopausa, a apresentação pode ser mais inespecífica, com sangramento uterino anormal, menstruação irregular, sangramento intenso ou padrão desorganizado de sangramento.
| Situação clínica |
Conduta esperada |
| Sangramento pós-menopausa |
Investigar sempre |
| Sangramento uterino anormal em mulher acima de 35 anos |
Considerar biópsia endometrial, especialmente se houver fatores de risco |
| Sangramento anormal com obesidade, anovulação ou síndrome dos ovários policísticos |
Baixo limiar para investigação endometrial |
| Células glandulares atípicas no Papanicolau |
Avaliação endometrial imediata |
Sintomas como dor pélvica, perda de peso, distensão abdominal, tosse persistente, dispneia ou sintomas neurológicos são menos comuns como apresentação inicial, mas podem sugerir doença extrauterina ou metastática.
Diagnóstico do câncer de endométrio
A investigação começa, em geral, com ultrassonografia transvaginal. Se houver espessamento endometrial, massa intrauterina ou achados suspeitos, a paciente deve ser encaminhada para avaliação histológica por biópsia endometrial ou dilatação e curetagem.
Nas mulheres com sangramento pós-menopausa, a ultrassonografia transvaginal é útil para avaliar a espessura endometrial. Achados como espessura endometrial maior que 4 mm ou massa vascular devem motivar investigação adicional com biópsia e/ou dilatação e curetagem.
| Exame |
Papel no diagnóstico |
| Ultrassonografia transvaginal |
Exame inicial para avaliar espessura endometrial e alterações estruturais |
| Biópsia endometrial ambulatorial |
Confirma o diagnóstico histológico |
| Histeroscopia com dilatação e curetagem |
Indicada se biópsia ambulatorial não for viável, inconclusiva ou não tolerada |
| Citologia cervical |
Não rastreia câncer de endométrio, mas células glandulares atípicas exigem avaliação endometrial |
| Tomografia ou ressonância |
Usadas quando há suspeita de doença extrauterina ou para planejamento em situações selecionadas |
| Avaliação molecular |
Ajuda no prognóstico, tratamento e investigação de síndrome hereditária |
Papanicolau rastreia câncer de endométrio?
Não. O exame de Papanicolau é voltado principalmente para rastreamento de lesões precursoras e câncer do colo do útero. Ele pode, ocasionalmente, detectar células glandulares atípicas, mas não deve ser usado como exame de rastreamento para câncer de endométrio.
Avaliação molecular no câncer de endométrio
A classificação molecular ganhou papel cada vez mais importante. Ela pode orientar prognóstico, tratamento sistêmico e necessidade de avaliação genética.
Os principais marcadores incluem:
| Marcador molecular |
Relevância |
| Deficiência de reparo de erro de pareamento |
Pode sugerir síndrome de Lynch e predizer resposta à imunoterapia |
| Instabilidade de microssatélites |
Importante em tumores avançados ou recorrentes |
| Mutação em POLE |
Associada a prognóstico favorável em alguns cenários |
| Alteração de p53 |
Associada a comportamento mais agressivo |
| HER2 |
Especialmente relevante em carcinoma seroso e alguns carcinossarcomas |
| Receptores de estrogênio e progesterona |
Podem orientar terapia hormonal em doença avançada ou recorrente |
A avaliação genética deve ser considerada em pacientes com tumores com deficiência de reparo de erro de pareamento, instabilidade de microssatélites alta, diagnóstico em idade jovem ou história familiar forte de câncer endometrial ou colorretal.
Existe rastreamento para câncer de endométrio?
Não há recomendação de rastreamento populacional para câncer de endométrio. A estratégia central é investigar prontamente sangramento vaginal anormal, especialmente no período peri ou pós-menopausa.
A exceção envolve mulheres com alto risco hereditário, especialmente aquelas com síndrome de Lynch, que podem se beneficiar de avaliação de risco genético, aconselhamento, vigilância individualizada e estratégias de redução de risco.
Tratamento do câncer de endométrio
O tratamento do câncer de endométrio depende do estádio, subtipo histológico, grau tumoral, risco de recorrência, perfil molecular, idade, comorbidades e desejo reprodutivo.
A cirurgia é o tratamento primário para a maior parte das pacientes com doença potencialmente curável. Ela tem dupla função: remover a neoplasia e permitir o estadiamento adequado.
O estadiamento cirúrgico pode incluir histerectomia total, salpingo-ooforectomia bilateral, avaliação peritoneal, avaliação linfonodal por linfonodo sentinela ou linfadenectomia, além de biópsia de omento em tumores de alto grau, como serosos, células claras e carcinossarcomas.
| Cenário |
Tratamento geral |
| Baixo risco |
Cirurgia, geralmente sem terapia adjuvante |
| Risco intermediário |
Cirurgia; considerar braquiterapia vaginal em pacientes selecionadas |
| Alto risco |
Cirurgia associada a quimioterapia, radioterapia e/ou imunoterapia conforme o caso |
| Estádios III e IV |
Quimioterapia, frequentemente combinada à imunoterapia |
| Doença recorrente |
Terapia sistêmica, radioterapia de resgate, cirurgia selecionada ou cuidados paliativos |
| Tumor positivo para receptores hormonais |
Terapia hormonal pode ser opção em doença recorrente ou inoperável |
| Tumor com deficiência de reparo de erro de pareamento |
Imunoterapia pode ter papel relevante |
Tratamento conservador para preservar fertilidade
Em casos muito selecionados, pacientes jovens com carcinoma endometrioide bem diferenciado, estádio inicial, sem invasão miometrial e com desejo reprodutivo podem ser consideradas para tratamento conservador com progestagênios, como dispositivo intrauterino de levonorgestrel ou progestina oral.
Essa abordagem exige centro especializado, confirmação cuidadosa da extensão da doença e seguimento rigoroso com avaliação clínica, imagem e amostragem endometrial periódica.
Radioterapia no câncer de endométrio
A radioterapia pode ser usada no contexto adjuvante para reduzir risco de recorrência local ou locorregional, principalmente em pacientes com risco alto-intermediário ou alto. A braquiterapia vaginal tende a apresentar menor toxicidade intestinal que a radioterapia pélvica externa, embora a escolha dependa do risco de recorrência, do estadiamento e da avaliação multidisciplinar.
Quimioterapia e imunoterapia
Nos estádios III e IV, a quimioterapia é base do tratamento sistêmico. O esquema com paclitaxel e carboplatina é descrito como preferencial em doença avançada estadiada cirurgicamente.
Diretrizes recentes também incorporam a combinação de quimioterapia com imunoterapia, como dostarlimabe, pembrolizumabe ou durvalumabe, seguida de manutenção em pacientes selecionadas. O benefício parece especialmente relevante em tumores com deficiência de reparo de erro de pareamento, embora também possa ocorrer em tumores proficientes.
Acompanhamento após o tratamento
O acompanhamento deve ser individualizado conforme estádio, tratamento recebido e risco de recorrência. A maioria das recorrências ocorre nos primeiros anos após o tratamento e costuma ser sintomática. Sangramento vaginal, dor pélvica ou abdominal, tosse persistente, perda de peso inexplicada e sintomas neurológicos novos devem motivar reavaliação.
Mais do que solicitar exames de rotina de forma indiscriminada, o seguimento deve valorizar anamnese dirigida, exame físico, educação da paciente e investigação orientada por sintomas ou achados clínicos.
Mensagens práticas para o médico
O câncer de endométrio deve ser lembrado diante de qualquer sangramento pós-menopausa. A ultrassonografia transvaginal é uma boa ferramenta inicial, mas o diagnóstico é histológico. A cirurgia segue como pilar terapêutico nos casos potencialmente curáveis, enquanto a classificação molecular passou a ter papel central na estratificação prognóstica e na escolha de terapias sistêmicas.
Em mulheres com história familiar sugestiva de síndrome de Lynch ou tumores com deficiência de reparo de erro de pareamento, a avaliação genética não deve ser esquecida, pois pode impactar a paciente e seus familiares.
Conclusão
O câncer de endométrio é uma neoplasia ginecológica frequente, fortemente associada à obesidade, idade avançada e exposição estrogênica sem oposição. O sinal clínico mais importante é o sangramento vaginal pós-menopausa, que sempre deve ser investigado.
O diagnóstico depende de avaliação histológica por biópsia ou dilatação e curetagem, e o tratamento é definido pela combinação entre estadiamento cirúrgico, histologia, risco de recorrência e perfil molecular. Na prática médica, reconhecer precocemente o sangramento anormal e encaminhar adequadamente é uma das principais oportunidades para melhorar desfechos.
Referência bibliográfica
BMJ Best Practice. Câncer de endométrio. Última atualização: 29 abr. 2026.
Gabriel Henriques Amorim é médico (CRM-SP 272307), especialista em Educação na Saúde pela USP e residente de Medicina de Família e Comunidade no Hospital das Clínicas da FMUSP. No blog da Manole, compartilha conteúdos práticos, baseados em evidências, voltados para o dia a dia do cuidado em saúde.