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Placenta prévia

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Ginecologia e Obstetrícia
Placenta prévia

Introdução

A placenta prévia é uma complicação obstétrica incomum, mas potencialmente grave, caracterizada pela implantação da placenta sobre o óstio cervical. Na prática clínica, pode ser identificada incidentalmente em ultrassonografias de rotina ou se manifestar com sangramento vaginal indolor no segundo ou terceiro trimestre.

Embora muitos casos diagnosticados precocemente se resolvam espontaneamente com a evolução da gestação, a placenta prévia persistente no final da gravidez exige acompanhamento especializado, planejamento do parto e preparo para risco aumentado de hemorragia.

O ponto central para o médico é reconhecer que, diante de sangramento vaginal na segunda metade da gestação, não se deve realizar toque vaginal digital até que a posição da placenta seja conhecida.

O que é placenta prévia?

A placenta prévia ocorre quando a placenta recobre diretamente o óstio cervical. Já a placenta baixa é definida quando a borda placentária está a menos de 2 cm do óstio cervical.

Classificação Definição
Placenta prévia Placenta cobre diretamente o óstio cervical
Placenta baixa Borda placentária a <2 cm do óstio cervical
Localização placentária normal Borda placentária a ≥2 cm do óstio cervical

Essa classificação simplificada substitui termos antigos, como “prévia total”, “parcial” ou “marginal”, que podiam gerar confusão na prática.

Por que a placenta prévia acontece?

A placenta prévia ocorre quando o blastocisto se implanta no segmento uterino inferior, próximo ao colo uterino. Em muitos casos, isso parece decorrer de uma variação da placentação normal.

Entretanto, a presença de uma cicatriz uterina, especialmente após cesárea anterior, pode interferir no processo de placentação e aumentar o risco de placenta prévia e de espectro da placenta acreta.

Epidemiologia

A placenta prévia ocorre em cerca de 0,3% a 0,5% das gestações no mundo. A frequência pode variar conforme a população e a presença de fatores de risco, especialmente cesárea anterior.

O documento destaca que a frequência da placenta prévia tem aumentado nos Estados Unidos em associação ao maior número de partos cesáreos.

Fatores de risco para placenta prévia

Fator de risco Comentário clínico
Cesárea anterior ou outra cicatriz uterina Principal fator de risco a ser lembrado
Placenta prévia prévia Aumenta risco de recorrência
Fertilização in vitro Associada a maior risco
Idade materna avançada Associação reconhecida
Multiparidade Mais comum em mulheres com múltiplas gestações
Tabagismo Associado a maior risco
Abortamento espontâneo prévio Associação descrita
Abortamento induzido prévio Associação descrita
Intervalo curto entre gestações Pode contribuir
Uso de substâncias ilícitas, especialmente cocaína Associado a maior risco
Outras anormalidades placentárias Inserção velamentosa e placenta sucenturiada podem coexistir

Embora vários fatores estejam associados à placenta prévia, muitos não são sensíveis nem específicos. Na prática, a história de cicatriz uterina prévia merece atenção especial.

Quadro clínico: quando suspeitar?

A apresentação clássica é o sangramento vaginal vermelho vivo e indolor no segundo ou terceiro trimestre.

Achado clínico Interpretação
Sangramento vaginal indolor Achado típico de placenta prévia
Sangramento vermelho vivo Pode ocorrer de forma súbita
Útero sem dor à palpação Ajuda a diferenciar de descolamento de placenta
Hipotensão e taquicardia Podem indicar perda sanguínea importante
Sangramento com início do trabalho de parto Pode ocorrer por abertura cervical e separação placentária
Sangramento doloroso Sugere trabalho de parto ou descolamento associado

O sangramento pode variar de leve a maciço e pode se agravar rapidamente.

Atenção: não fazer toque vaginal digital

Em gestantes com sangramento vaginal ativo, o exame vaginal por toque digital não deve ser realizado até que a placenta prévia seja descartada.

Isso é essencial porque o toque pode transformar um sangramento intenso em hemorragia maciça.

Situação Conduta
Sangramento vaginal no 2º ou 3º trimestre e posição placentária desconhecida Não realizar toque vaginal
Necessidade de avaliar sangramento Preferir avaliação clínica e ultrassonografia
Suspeita de causa cervical ou vaginal Exame especular cuidadoso pode ser considerado
Trabalho de parto inicial com sangramento leve Avaliar em ambiente com possibilidade de cesárea imediata

Diagnóstico de placenta prévia

O diagnóstico é feito por ultrassonografia, que define a localização da placenta em relação ao óstio cervical.

A ultrassonografia pode ser transabdominal, transvaginal, translabial ou transperineal. O documento destaca que diferentes sociedades têm recomendações distintas: algumas orientam ultrassonografia transabdominal como exame inicial, enquanto outras recomendam a transvaginal por maior precisão diagnóstica.

Na imagem do PDF, a placenta prévia é demonstrada por ultrassonografia na 22ª semana e novamente na 32ª semana, ilustrando a placenta recobrindo a região do colo uterino.

Exame Papel
Ultrassonografia transabdominal Pode ser exame inicial
Ultrassonografia transvaginal Mais precisa para diagnóstico em algumas diretrizes
Dopplerfluxometria colorida Avalia suspeita de espectro da placenta acreta
Ressonância magnética da placenta Considerar quando não for possível excluir placenta acreta ou em placenta posterior
Hemograma Avalia anemia e perda sanguínea
Tipagem sanguínea e prova cruzada Preparo para transfusão em sangramento importante
Coagulograma, fibrinogênio e produtos de degradação Se houver suspeita de CIVD
Teste de Kleihauer-Betke Em mulheres Rh negativas, para avaliar hemorragia feto-materna

Quando repetir a ultrassonografia?

Muitas placentas baixas ou prévias identificadas no exame morfológico de rotina se resolvem espontaneamente. Por isso, a reavaliação é fundamental.

Momento Conduta
18 a 22 semanas Diagnóstico em exame anatômico de rotina
Cerca de 32 semanas Repetir ultrassonografia para reavaliar localização
36 semanas Repetir se placenta baixa ou prévia persistir, para planejamento do parto
História de cesárea prévia + suspeita de placenta prévia Avaliar também risco de espectro da placenta acreta

Se a placenta estiver em posição normal na reavaliação, geralmente não são necessárias investigações adicionais.

Placenta prévia e espectro da placenta acreta

Em mulheres com útero cicatrizado, especialmente após cesárea anterior, a placenta prévia pode estar associada ao espectro da placenta acreta, condição em que a placenta se adere de forma anormal ao miométrio.

Tipo Definição
Placenta acreta Vilosidades coriônicas aderem ao miométrio
Placenta increta Vilosidades invadem o miométrio
Placenta percreta Vilosidades atravessam o miométrio e podem invadir tecidos contíguos

Essa distinção é importante para especialistas, mas, para a prática geral, o ponto mais relevante é reconhecer o risco aumentado de hemorragia e necessidade de manejo obstétrico especializado.

Diagnósticos diferenciais

Nem todo sangramento na segunda metade da gestação é placenta prévia.

Diagnóstico diferencial Como diferenciar
Trabalho de parto normal Sangramento geralmente menos intenso e mais escuro, com evolução normal do parto
Descolamento prematuro de placenta Geralmente doloroso; útero pode estar hipertônico; pode haver sofrimento fetal
Aborto espontâneo Mais comum no primeiro trimestre e início do segundo; dor em cólica é frequente
Causas cervicais ou vaginais Podem ser avaliadas por exame especular cuidadoso

O descolamento de placenta pode coexistir com placenta prévia, especialmente quando há dor, hipertonia uterina ou comprometimento fetal.

Conduta inicial diante de sangramento

O manejo inicial deve priorizar a estabilidade materna. O objetivo imediato é controlar a hemorragia e manter perfusão adequada. O objetivo secundário é preservar a sobrevida fetal.

Passo Conduta
1. Avaliar gravidade Quantificar sangramento, sinais vitais e estado fetal
2. Não fazer toque vaginal Até descartar placenta prévia
3. Acesso venoso Obter acesso intravenoso
4. Ressuscitação Seguir ABC da ressuscitação
5. Monitorização fetal Cardiotocografia contínua se sangramento significativo
6. Tipagem e prova cruzada Preparar pelo menos 4 unidades de concentrado de hemácias em sangramento importante
7. Hemograma seriado Frequência conforme intensidade do sangramento
8. Avaliar coagulopatia INR/TTP, fibrinogênio e produtos de degradação se suspeita de CIVD
9. Ultrassonografia urgente Se posição placentária ainda é desconhecida e paciente está estável
10. Cesariana imediata Se sangramento não cede ou há comprometimento fetal significativo

O documento também menciona considerar o uso de antifibrinolítico, como ácido tranexâmico, assim que possível em hemorragia significativa.

Conduta na placenta prévia sem sangramento

Em gestantes pré-termo assintomáticas, a conduta costuma ser expectante, com acompanhamento especializado.

Conduta Objetivo
Repouso pélvico Evitar relação sexual com penetração e absorvente interno
Orientar sinais de alerta Procurar hospital em caso de sangramento além de pequena mancha
Ultrassonografia seriada Verificar se houve resolução
Planejamento do parto Definir local, equipe e idade gestacional
Avaliar necessidade de internação Individualizar em pacientes com sangramento prévio ou alto risco
Encaminhar para centro adequado Especialmente se risco de hemorragia ou placenta acreta

Repouso pélvico não significa repouso absoluto no leito. O foco é evitar estímulos que possam precipitar sangramento.

Corticosteroide e sulfato de magnésio

Em situações com risco de parto prematuro, podem ser indicadas medidas para proteção fetal.

Situação Conduta
Risco de parto entre 24 e 34 semanas Considerar corticosteroide para maturação pulmonar fetal
Parto planejado ou esperado antes de 34 semanas Sulfato de magnésio para neuroproteção fetal
Trabalho de parto pré-termo Tocolítico pode ser considerado para ganhar tempo para corticoide ou transferência
Período prematuro tardio Tocólise para permitir corticoide não é recomendada pelo ACOG

O uso de tocolíticos em placenta prévia com sangramento é controverso e deve ser decidido por especialista.

Quando indicar cesárea?

A placenta prévia persistente após 36 semanas geralmente é indicação de parto cesáreo.

Situação Conduta
Placenta prévia a termo Cesárea geralmente indicada
Placenta prévia com trabalho de parto Cesárea de urgência
Sangramento não controlado Cesárea imediata
Comprometimento fetal significativo Cesárea imediata
Suspeita de placenta acreta Planejamento em centro especializado
Placenta baixa a termo Via de parto depende da distância até o óstio e do contexto clínico

O parto cesáreo em placenta prévia pode ser tecnicamente complexo e deve ser realizado por profissionais experientes, com disponibilidade de transfusão e suporte neonatal.

Melhor momento para o parto

O planejamento depende de fatores de risco, sangramento, trabalho de parto, idade gestacional e recursos disponíveis.

Situação Momento sugerido no documento
Placenta prévia com fatores de risco Cesárea entre 36 semanas e 36s6d
Placenta prévia sem fatores de risco Cesárea entre 37 semanas e 37s6d
Placenta baixa com borda 11 a 20 mm do óstio Pode-se oferecer tentativa de parto, com alta expectativa de sucesso
Placenta baixa ≤10 mm do óstio Tentativa de parto pode ser considerada em casos selecionados e com estrutura imediata para cesárea
Placenta baixa com opção por cesárea e borda 11 a >20 mm Cesárea entre 39 semanas e 40s6d
Placenta baixa ≤10 mm com cesárea planejada e fatores de risco Cesárea entre 37 semanas e 37s6d
Placenta baixa ≤10 mm sem fatores de risco Cesárea entre 38 semanas e 38s6d

A decisão final deve ser individualizada e realizada por equipe obstétrica experiente.

Placenta baixa: sempre precisa cesárea?

Não necessariamente. Na placenta baixa, a distância entre a borda placentária e o óstio cervical interno, medida na ultrassonografia de 36 semanas, ajuda a definir a via de parto.

Distância da borda placentária ao óstio Conduta possível
11 a 20 mm Pode-se oferecer tentativa de trabalho de parto
≤10 mm Tentativa de parto pode ser considerada em casos muito selecionados
Placenta cobrindo o óstio Cesárea geralmente indicada

A tentativa de parto só deve ocorrer em local com acesso imediato a obstetra, anestesista, neonatologista e transfusão sanguínea.

Imunoglobulina anti-D

Em mulheres Rh negativas não sensibilizadas, deve-se avaliar a indicação de imunoglobulina anti-D, especialmente diante de sangramento, parto ou eventos associados a hemorragia feto-materna.

Situação Conduta
Mulher Rh negativa com sangramento na gestação Avaliar anti-D
28 semanas com feto Rh positivo ou status desconhecido Anti-D conforme protocolo
Pós-parto de bebê Rh positivo Anti-D em até 72 horas
Sangramento importante Teste de Kleihauer-Betke pode ajudar a estimar dose necessária

Complicações da placenta prévia

Complicação Probabilidade no documento Comentário
Anemia Alta Depende do sangramento e das reservas de ferro
Complicações da cesárea Média Maior risco de transfusão e histerectomia puerperal
Nascimento pré-termo Média Muitas vezes inevitável
Espectro da placenta acreta Média Risco aumenta com cesáreas prévias
CIVD Baixa Pode ocorrer em hemorragia significativa
Restrição do crescimento intrauterino Baixa Associação descrita
Óbito fetal Baixa Depende do grau de sangramento
Síndrome da morte súbita infantil Baixa Ligeiro aumento relatado

Prognóstico

O prognóstico costuma ser bom quando há diagnóstico, acompanhamento e planejamento adequados.

A placenta prévia diagnosticada no início da gestação pode deixar de ser prévia com o crescimento uterino. O documento descreve que cerca de 85% das placentas prévias identificadas entre 15 e 20 semanas e cerca de um terço das identificadas entre 20 e 23 semanas não permanecem prévias no início do trabalho de parto.

Prognóstico Ponto principal
Materno Geralmente bom, mas com maior risco de transfusão e cesárea complexa
Fetal Geralmente bom, mas pode ser afetado por sangramento e restrição de crescimento
Neonatal Depende principalmente da prematuridade e do grau de sangramento pré-parto
Próximas gestações Risco de recorrência permanece baixo, mas exige atenção precoce

Orientações para a paciente

A gestante com placenta prévia precisa receber orientações repetidas, porque a condição pode gerar ansiedade e risco de eventos súbitos.

Orientação Explicação
Procurar hospital se houver sangramento Mesmo se parecer pequeno
Evitar penetração vaginal Repouso pélvico reduz risco de trauma
Não usar absorvente interno Evitar manipulação vaginal
Manter fácil acesso a atendimento Sangramento pode ser súbito e intenso
Levar cartão de pré-natal e exames Facilita decisão rápida
Entender risco de cesárea Placenta prévia persistente geralmente exige cesárea
Planejar próxima gestação precocemente Há risco de recorrência e placenta acreta, especialmente após cesárea

Fluxograma prático

Situação clínica Conduta inicial
Sangramento no 2º/3º trimestre + posição placentária desconhecida Não fazer toque; estabilizar; ultrassonografia urgente se estável
Sangramento + placenta prévia conhecida Ressuscitação, monitorização fetal, exames, preparo transfusional
Sangramento não controlado ou sofrimento fetal Cesárea imediata
Placenta prévia pré-termo sem sangramento Monitoramento, repouso pélvico, USG seriada
Trabalho de parto pré-termo Considerar tocólise, corticoide e sulfato de magnésio conforme idade gestacional
Placenta prévia após 36 semanas Planejar cesárea
Placenta baixa a termo Definir via de parto pela distância da borda ao óstio e recursos disponíveis

Pontos-chave para a prática médica

Pergunta clínica Resposta prática
O que define placenta prévia? Placenta recobrindo o óstio cervical
O que define placenta baixa? Borda placentária a <2 cm do óstio
Qual sintoma clássico? Sangramento vaginal indolor no 2º ou 3º trimestre
Pode fazer toque vaginal? Não, até descartar placenta prévia
Qual exame confirma? Ultrassonografia
Toda placenta prévia precoce persiste? Não. Muitas resolvem espontaneamente
Quando repetir USG? Cerca de 32 semanas; se persistir, novamente em 36 semanas
Cesárea é sempre necessária? Em placenta prévia persistente, geralmente sim
Placenta baixa sempre exige cesárea? Não. Depende da distância ao óstio e do contexto
Qual risco importante com cesárea prévia? Espectro da placenta acreta

Conclusão

A placenta prévia é uma causa importante de sangramento vaginal na segunda metade da gestação. Embora incomum, exige reconhecimento rápido, investigação por ultrassonografia e conduta cuidadosa para reduzir risco materno-fetal.

Na prática, três mensagens são fundamentais: não realizar toque vaginal digital antes de conhecer a posição da placenta, estabilizar prontamente a gestante com sangramento e planejar o parto em ambiente adequado quando a placenta prévia persiste no final da gestação.

A maioria dos casos diagnosticados precocemente pode se resolver, mas placenta prévia persistente, sangramento recorrente, cesárea anterior ou suspeita de placenta acreta exigem acompanhamento obstétrico especializado.

Referência: BMJ Best Practice. Placenta prévia. Última atualização: 12 maio 2026.

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