Introdução
O exantema maculopapular é uma das apresentações dermatológicas mais desafiadoras da prática clínica. O termo é amplo e inespecífico, pois várias doenças podem se manifestar com lesões planas e elevadas na pele.
Apesar disso, ele continua sendo uma expressão muito usada para descrever erupções agudas e generalizadas, também chamadas de erupções exantematosas, exantema ou erupção morbiliforme.
A avaliação deve responder rapidamente a duas perguntas: há sinais de gravidade? e qual é a causa mais provável?
O que significa exantema maculopapular?
| Termo |
Definição |
| Mácula |
Lesão plana e circunscrita com até 1 cm |
| Mancha |
Mácula maior que 1 cm |
| Pápula |
Lesão elevada e circunscrita com até 1 cm |
| Placa |
Lesão elevada maior que 1 cm |
| Vesícula |
Pápula com líquido claro |
| Pústula |
Pápula com conteúdo purulento |
| Bolha |
Vesícula maior que 1 cm |
| Urticária |
Pápulas ou vergões transitórios |
Assim, o exantema maculopapular combina lesões planas e elevadas, geralmente em padrão agudo e disseminado.
Principais causas
O diagnóstico diferencial é amplo. As categorias mais importantes incluem:
| Grupo |
Exemplos |
| Anafilaxia |
Reação aguda com pele/mucosa e comprometimento respiratório ou cardiovascular |
| Reação medicamentosa |
Causa comum em adultos |
| Exantemas virais |
Epstein-Barr, enterovírus, adenovírus, parvovírus B19, citomegalovírus, HIV agudo, dengue, zika, chikungunya |
| Infecções bacterianas |
Podem cursar com febre e toxicidade sistêmica |
| Doenças por rickettsias |
Importantes conforme contexto epidemiológico |
| Doenças reumáticas |
Podem vir com artralgia, febre e manifestações sistêmicas |
| Doenças sistêmicas |
Incluem causas inflamatórias, infecciosas e imunes |
Reação medicamentosa: causa comum em adultos
A erupção induzida por medicamentos é a causa mais comum de exantema maculopapular em adultos, e o próprio exantema maculopapular é a manifestação mais comum das reações cutâneas medicamentosas.
| Ponto clínico |
Dado prático |
| Início típico |
6 a 10 dias após primeira exposição |
| Reexposição |
Pode surgir em até 3 dias |
| Janela possível |
Pode ocorrer desde a primeira dose até 3 semanas |
| Medicamentos comuns |
Anticonvulsivantes, antibióticos, antifúngicos, antirretrovirais, anti-inflamatórios não esteroidais e alopurinol |
| Fatores de risco |
Sexo feminino, idade avançada, polimedicação, insuficiência hepática ou renal e imunossupressão |
A cronologia é uma das partes mais importantes da anamnese: quando o medicamento foi iniciado, quando a lesão apareceu e o que aconteceu após suspensão ou reintrodução.
Sinais de alerta no exantema
Nem todo exantema é benigno. Alguns achados indicam risco de doença grave.
| Sinal de alerta |
Diagnóstico a considerar |
| Dispneia, sibilância, hipotensão ou síncope |
Anafilaxia |
| Dor cutânea intensa |
Stevens-Johnson/necrólise epidérmica tóxica |
| Lesão de mucosa oral, ocular ou genital |
Stevens-Johnson/necrólise epidérmica tóxica |
| Bolhas, descolamento de pele ou sinal de Nikolsky |
Reação cutânea grave |
| Febre, mal-estar e edema facial |
DRESS |
| Linfadenopatia e alteração hepática |
DRESS |
| Petéquias, púrpura ou toxemia |
Infecção grave ou vasculite |
| Imunossupressão |
Maior risco de infecção grave |
| Gestação |
Muda o risco e o diagnóstico diferencial |
Anafilaxia: não perder tempo
A anafilaxia é uma reação de início agudo, em minutos a horas, envolvendo pele, mucosa ou ambas, associada a comprometimento respiratório ou cardiovascular.
| Sistema |
Achados possíveis |
| Pele/mucosa |
Urticária, prurido, edema de lábios ou língua |
| Respiração |
Dispneia, sibilância, hipóxia |
| Circulação |
Hipotensão, síncope, choque |
| Gastrointestinal |
Cólica abdominal, náuseas, diarreia |
| Neurológico/comportamental |
Tontura, agitação, confusão, sensação de morte iminente |
Quando houver suspeita clínica de anafilaxia, o tratamento deve ser imediato.
Reações cutâneas medicamentosas graves
Stevens-Johnson e necrólise epidérmica tóxica
São reações mucocutâneas graves, frequentemente desencadeadas por medicamentos. Fazem parte de um espectro definido pela porcentagem de superfície corporal afetada.
| Condição |
Área acometida |
| Síndrome de Stevens-Johnson |
Menos de 10% da superfície corporal |
| Necrólise epidérmica tóxica |
Mais de 30% da superfície corporal |
O quadro costuma iniciar com mal-estar, febre, fotofobia e anorexia, seguido de inflamação mucocutânea, dor, lesões vermelho-escuras ou arroxeadas, bolhas, descamação e sinal de Nikolsky.
DRESS
A reação medicamentosa com eosinofilia e sintomas sistêmicos costuma aparecer 2 a 6 semanas após o medicamento desencadeante. O paciente tende a estar mais doente, com febre, mal-estar, linfadenopatia, edema facial, dor abdominal e envolvimento de órgãos, especialmente fígado.
Como conduzir a avaliação?
| Etapa |
Perguntas práticas |
| Tempo de início |
Quando começou? Foi súbito ou progressivo? |
| Medicamentos |
Algum remédio novo nas últimas 3 a 8 semanas? |
| Sintomas sistêmicos |
Febre, mal-estar, dor, dispneia, hipotensão? |
| Mucosas |
Há lesão oral, ocular ou genital? |
| Exposição infecciosa |
Contato com doentes, viagens, surtos, vetores? |
| Distribuição |
Começou no tronco, face, extremidades, palmas ou plantas? |
| Morfologia |
Há bolhas, petéquias, púrpura ou descamação? |
| Contexto |
Gestação, imunossupressão, internação, neoplasia? |
Exames: quando pedir?
A investigação depende da hipótese clínica. Em quadros leves e típicos, a história pode bastar. Em quadros graves ou incertos, podem ser necessários hemograma, função hepática e renal, marcadores inflamatórios, sorologias, culturas ou biópsia cutânea.
Conclusão prática
A avaliação do exantema maculopapular começa pela morfologia, mas não termina nela. O diagnóstico depende da combinação entre tempo de evolução, medicamentos recentes, sintomas sistêmicos, acometimento de mucosas e contexto epidemiológico.
Na prática, os principais diagnósticos a não perder são anafilaxia, Stevens-Johnson/necrólise epidérmica tóxica, DRESS e infecções graves. Em adultos, sempre investigue medicamentos recentes; em crianças, pense também em exantemas virais.
Referência bibliográfica: BMJ Best Practice. Avaliação de exantema maculopapular. Última atualização: 18 ago. 2026.
Gabriel Henriques Amorim é médico (CRM-SP 272307), especialista em Educação na Saúde pela USP e residente de Medicina de Família e Comunidade no Hospital das Clínicas da FMUSP. No blog da Manole, compartilha conteúdos práticos, baseados em evidências, voltados para o dia a dia do cuidado em saúde.