Introdução
O sangramento uterino anormal (SUA) é uma queixa frequente na prática ginecológica e na atenção primária, com impacto importante na qualidade de vida, no bem-estar físico e emocional e, em alguns casos, no risco de complicações agudas. De forma geral, o SUA corresponde a qualquer variação sintomática da menstruação normal em relação à regularidade, frequência, volume ou duração.
Além de ser um motivo comum de consulta, o SUA exige uma abordagem clínica organizada, porque pode estar relacionado tanto a causas benignas, como pólipos e miomas, quanto a situações potencialmente graves, como hemorragia aguda, hiperplasia endometrial e neoplasias.
Segundo o material de referência, o SUA pode ser classificado em:
- agudo: episódio de sangramento intenso que exige intervenção imediata para evitar perda sanguínea adicional;
- crônico: sintomas presentes na maior parte dos 6 meses anteriores;
- intermenstrual: sangramento entre ciclos regulares.
O que é sangramento uterino anormal?
O SUA é definido como uma alteração sintomática da menstruação normal. Na prática, isso inclui mudanças no intervalo entre ciclos, no número de dias de sangramento, na previsibilidade menstrual e no volume perdido.
Parâmetros menstruais normais citados no documento
| Parâmetro |
Considerado normal |
| Frequência dos ciclos |
24 a 38 dias |
| Duração do sangramento |
Até 8 dias |
| Regularidade |
Variação de até 4 dias na duração do ciclo |
Quando esses padrões se alteram e a mulher apresenta repercussão clínica, deve-se considerar a investigação de SUA. O documento também destaca o termo sangramento menstrual intenso, definido como sangramento excessivo que interfere na qualidade de vida física, social, emocional e/ou material da mulher.
Classificação do sangramento uterino anormal: sistema PALM-COEIN
O principal sistema de classificação etiológica citado é o da FIGO, organizado pela sigla PALM-COEIN. Essa classificação ajuda a estruturar o raciocínio diagnóstico.
Causas de SUA segundo a classificação PALM-COEIN
| Grupo |
Significado |
| P |
Pólipo |
| A |
Adenomiose |
| L |
Leiomioma |
| M |
Malignidade e hiperplasia |
| C |
Coagulopatia |
| O |
Disfunção ovulatória |
| E |
Endometrial |
| I |
Iatrogênica |
| N |
Sem outra classificação |
O documento ressalta que o sangramento uterino anormal pode resultar de mais de uma causa simultaneamente.
Principais causas de sangramento uterino anormal
A seguir, um resumo didático das principais etiologias descritas no material.
| Causa |
Principais características |
| Pólipos |
Podem causar sangramento intermenstrual, sangramento menstrual intenso ou sangramento pós-menopausa; muitos são assintomáticos |
| Adenomiose |
Costuma se associar a sangramento menstrual prolongado, intenso e/ou doloroso |
| Leiomiomas (miomas) |
Causa comum de sangramento menstrual intenso; sintomas dependem de número, tamanho e localização |
| Malignidade e hiperplasia |
Mais incomuns no período pré-menopausa, mas devem ser consideradas, especialmente com fatores de risco |
| Coagulopatias |
Devem ser lembradas principalmente em pacientes com sangramento intenso desde a menarca ou história hemorrágica sugestiva |
| Disfunção ovulatória |
Relacionada a SOP, hipotireoidismo, hiperprolactinemia, obesidade, perda de peso, estresse e exercícios extremos |
| Disfunção endometrial |
Diagnóstico de exclusão em mulheres com ciclos previsíveis, mas sangramento aumentado |
| Iatrogênica |
Pode ocorrer com hormônios, anticoagulantes, tamoxifeno, antidepressivos e outros fármacos |
| Sem outra classificação |
Inclui causas raras, como endometrite crônica e malformações arteriovenosas |
Quando o sangramento uterino anormal é uma urgência?
O sangramento uterino anormal pode se apresentar como uma emergência, sobretudo quando há sangramento intenso, hipovolemia ou instabilidade hemodinâmica.
| Sinal ou situação |
Importância clínica |
| Sangramento vaginal intenso |
Pode exigir intervenção urgente |
| Hipotensão ou sinais de choque |
Sugere perda sanguínea importante |
| Taquicardia |
Pode indicar instabilidade ou anemia grave |
| Tontura, síncope e dispneia |
Sugerem repercussão hemodinâmica |
| Arritmia, sopro cardíaco ou angina |
Podem ocorrer em contexto de anemia significativa |
| Suspeita de gestação |
É obrigatório excluir complicações gestacionais |
Conduta inicial nas situações agudas
Segundo o documento, diante de sangramento importante, a abordagem inicial deve incluir:
- avaliação de hipovolemia e instabilidade hemodinâmica;
- obtenção de acesso venoso calibroso;
- ressuscitação volêmica;
- transfusão sanguínea, quando necessário;
- hemograma completo, tipagem sanguínea, prova cruzada e teste de gravidez;
- consideração de ácido tranexâmico o mais rapidamente possível;
- tratamento de primeira escolha com estrogênio equino conjugado intravenoso, anticoncepcionais orais combinados ou progestágenos orais;
- em casos selecionados, tamponamento uterino com cateter de Foley ou até cirurgia exploradora de emergência.
Como fazer a anamnese no sangramento uterino anormal?
A história clínica é um dos pilares da avaliação. O documento recomenda uma investigação detalhada do padrão menstrual, dos sintomas associados e dos fatores de risco.
O que perguntar na história menstrual
| Pergunta clínica |
O que ajuda a identificar |
| Frequência dos ciclos |
Disfunção ovulatória |
| Duração do sangramento |
Sangramento prolongado |
| Regularidade |
Ciclos irregulares sugerem ovulação anormal |
| Volume do sangramento |
Ajuda a identificar sangramento menstrual intenso |
| Presença de sangramento intermenstrual |
Pode sugerir pólipos ou patologia endometrial |
| Duração dos sintomas |
Diferencia SUA agudo e crônico |
Sintomas associados que orientam o diagnóstico diferencial
| Sintoma associado |
Possível causa |
| Polaciúria, urgência, retenção urinária, constipação, pressão pélvica |
Leiomiomas |
| Dismenorreia, dor pélvica, dispareunia, subfertilidade |
Adenomiose |
| Hirsutismo e acne |
Síndrome dos ovários policísticos |
| Ganho de peso, intolerância ao frio, pele seca, fadiga |
Hipotireoidismo |
| Galactorreia |
Hiperprolactinemia |
Também deve ser feita história ginecológica e obstétrica completa, incluindo:
- episódios prévios de SUA;
- tratamentos já realizados;
- idade da menarca;
- paridade;
- uso de DIU.
O documento ainda destaca que menarca precoce, infertilidade e nuliparidade são fatores de risco para câncer endometrial.
Quando suspeitar de coagulopatia?
A avaliação de distúrbios de coagulação deve ser lembrada especialmente em pacientes com sangramento menstrual intenso.
Rastreamento clínico sugestivo de coagulopatia
O rastreamento é considerado positivo se houver:
| Critério |
Interpretação |
| Sangramento menstrual intenso desde a menarca |
Sinal de alerta importante |
| Hemorragia pós-parto, sangramento cirúrgico ou após procedimento dentário |
Sugere distúrbio hemostático |
| Hematomas frequentes, epistaxe recorrente, sangramento gengival e história familiar hemorrágica |
Reforçam a suspeita |
Quais medicamentos podem causar sangramento uterino anormal?
A história medicamentosa precisa ser ativa e detalhada, porque a causa pode ser iatrogênica.
Medicamentos e substâncias que devem ser investigados
| Classe/substância |
Possível relação com SUA |
| Terapias hormonais |
Podem provocar sangramento de escape |
| Anticoagulantes |
Podem aumentar o sangramento |
| Tamoxifeno |
Associado a alterações endometriais e sangramento |
| ISRS, antidepressivos tricíclicos e fenotiazinas |
Podem influenciar o quadro |
| Suplementos fitoterápicos como ginseng, ginkgo e agripalma |
Podem alterar coagulação ou níveis hormonais |
| Fármacos iniciados recentemente |
Podem interferir na farmacodinâmica de tratamentos em uso |
Exame físico no sangramento uterino anormal
O exame físico deve ajudar a definir:
- a gravidade do sangramento;
- a presença de causas estruturais;
- a existência de outros distúrbios pélvicos.
Pontos essenciais do exame
| Etapa |
O que observar |
| Avaliação hemodinâmica |
Frequência de pulso e pressão arterial ortostática |
| Exame pélvico com espéculo |
Confirmar origem uterina e avaliar colo, vagina e outros sítios |
| Exame bimanual |
Avaliar tamanho uterino, sensibilidade e massas |
| Inspeção de uretra, períneo e ânus |
Excluir outros sítios de sangramento |
Achados que podem sugerir etiologias específicas
| Achado |
Possível interpretação |
| Massa uterina firme ou aumento uterino |
Leiomiomas |
| Útero doloroso |
Leiomioma ou adenomiose |
| Pólipo visível no colo |
Pólipo endocervical |
| Obesidade, hirsutismo, acne, acantose nigricans |
Compatível com SOP |
Exames laboratoriais iniciais no sangramento uterino anormal
Os exames laboratoriais devem ser solicitados conforme o contexto clínico, mas alguns fazem parte da avaliação inicial de praticamente todas as pacientes.
Exames iniciais recomendados
| Exame |
Finalidade |
| Beta-hCG em urina ou soro |
Excluir gestação |
| Hemograma completo |
Identificar anemia |
| Ferritina sérica |
Considerar em mulheres com sangramento menstrual intenso para avaliar deficiência de ferro |
O documento informa que não é recomendada a testagem rotineira de hormônios femininos em mulheres com sangramento menstrual intenso.
| Exame |
Quando considerar |
| TSH |
Sinais ou sintomas de hipotireoidismo |
| Prolactina |
Suspeita de hiperprolactinemia |
| 17-hidroxiprogesterona |
Suspeita de SOP para excluir hiperplasia adrenal congênita não clássica |
| Testosterona total e livre |
Avaliação de hiperandrogenismo, quando necessário |
| HAM |
Pode ser alternativa à ultrassonografia pélvica em adultos, em contextos específicos |
| LH e FSH |
Relação LH/FSH >3 pode sugerir SOP, mas não é diagnóstica |
| Progesterona sérica na fase lútea |
Quando houver dúvida se a paciente está ovulando |
| Investigação para coagulopatia |
Quando o rastreamento clínico for positivo |
Exames úteis na suspeita de coagulopatia
| Exame |
Papel |
| Dosagem do fator de von Willebrand |
Rastreamento de distúrbio hemorrágico |
| Hemograma com plaquetas |
Avaliação hematológica básica |
| Tempo de protrombina |
Investigação de coagulação |
| Tempo de tromboplastina parcial |
Investigação de coagulação |
Exames de imagem: quando solicitar?
Os exames de imagem são indicados principalmente quando há suspeita de causas estruturais do SUA, como miomas, adenomiose, pólipos ou neoplasia.
Qual exame escolher?
| Exame |
Quando é mais útil |
| Ultrassonografia pélvica |
Primeira linha em suspeita de lesão estrutural |
| Ultrassonografia transvaginal |
Melhor visualização dos órgãos pélvicos e massas |
| Ultrassonografia transabdominal |
Visão geral da pelve, especialmente em úteros aumentados |
| Sono-histerografia |
Melhor caracterização de anormalidades endometriais |
| Ressonância magnética |
Quando a ultrassonografia for inadequada, recusada ou inconclusiva |
O documento cita que a ultrassonografia é geralmente oferecida primeiro se houver:
- suspeita de adenomiose;
- útero palpável abdominalmente;
- suspeita de massa pélvica;
- exame físico inconclusivo ou difícil, como em mulheres obesas.
Biópsia do endométrio: quando indicar?
A biópsia endometrial não é necessária para todas as mulheres na pré-menopausa, mas deve ser considerada em contextos específicos.
Situações em que a biópsia do endométrio é considerada ou recomendada
| Situação |
Indicação |
| Mulheres com 45 anos ou mais com SUA |
Considerar/recomendar biópsia |
| Mulheres mais jovens com exposição estrogênica sem oposição |
Considerar biópsia |
| SUA persistente inexplicado |
Considerar biópsia |
| Falha de tratamento clínico |
Considerar biópsia |
| Sangramento intermenstrual ou irregular persistente |
Alto risco de patologia endometrial |
| Obesidade com sangramento intenso infrequente |
Alto risco |
| SOP com sangramento intenso infrequente |
Alto risco |
| Uso de tamoxifeno |
Alto risco |
O material também informa que, para mulheres com sangramento menstrual intenso, a amostra endometrial deve ser obtida no contexto de histeroscopia diagnóstica, e que biópsia endometrial às cegas não é recomendada nesses casos.
Histeroscopia: qual o papel na investigação?
A histeroscopia permite a visualização direta da cavidade endometrial e a obtenção de biópsias.
Quando considerar histeroscopia como primeira linha?
| Situação clínica |
Justificativa |
| Sangramento intermenstrual persistente |
Suspeita de pólipo, mioma submucoso ou patologia endometrial |
| Presença de fatores de risco para patologia endometrial |
Melhor avaliação intracavitária |
| Suspeita de pólipos ou mioma submucoso |
Melhor definição diagnóstica |
Principais diagnósticos diferenciais do SUA
O documento apresenta como causas comuns:
- síndrome dos ovários policísticos;
- leiomiomas;
- adenomiose;
- pólipo endometrial;
- disfunção endometrial;
- causas iatrogênicas.
Como causas incomuns:
- neoplasia maligna endometrial;
- hiperplasia endometrial;
- coagulopatia;
- hipotireoidismo;
- hiperprolactinemia;
- câncer cervical;
- câncer de ovário.
Resumo prático dos diferenciais
| Diagnóstico |
Pistas clínicas principais |
| SOP |
Ciclos irregulares, infertilidade, acne, hirsutismo |
| Miomas |
Sangramento menstrual intenso, dismenorreia, massa pélvica, pressão pélvica |
| Adenomiose |
Sangramento intenso, dismenorreia, útero aumentado e globoso |
| Pólipo endometrial |
Sangramento intermenstrual e manchas irregulares |
| Disfunção endometrial |
Sangramento cíclico com exclusão de causa estrutural |
| Coagulopatia |
História de sangramento desde a menarca e outros sangramentos mucosos |
| Neoplasia endometrial/hiperplasia |
Maior atenção em mulheres com fatores de risco e sangramento persistente |
Fluxo prático da avaliação do sangramento uterino anormal
Etapas da avaliação
| Etapa |
Conduta |
| 1 |
Confirmar se há urgência hemodinâmica |
| 2 |
Verificar se o sangramento é realmente uterino |
| 3 |
Fazer anamnese menstrual detalhada |
| 4 |
Investigar sintomas associados, história ginecológica, obstétrica e medicamentosa |
| 5 |
Realizar exame físico e pélvico completo |
| 6 |
Solicitar beta-hCG e hemograma completo |
| 7 |
Considerar ferritina se houver sangramento intenso |
| 8 |
Pedir exames adicionais conforme suspeita: TSH, prolactina, investigação de coagulopatia, avaliação de SOP |
| 9 |
Solicitar ultrassonografia se houver suspeita estrutural |
| 10 |
Considerar histeroscopia e biópsia endometrial quando indicado |
Pontos-chave para a prática clínica
| Pergunta |
Resposta prática |
| O que é SUA? |
Alteração sintomática da menstruação em frequência, regularidade, volume ou duração |
| Quando é agudo? |
Quando o sangramento é intenso a ponto de exigir intervenção imediata |
| Qual sistema organiza as causas? |
PALM-COEIN |
| Exame inicial obrigatório? |
Teste de gravidez e hemograma completo |
| Quando suspeitar de causa estrutural? |
Sangramento persistente, massa pélvica, útero aumentado, exame sugestivo |
| Quando pedir imagem? |
Na suspeita de pólipo, mioma, adenomiose ou malignidade |
| Quando considerar biópsia do endométrio? |
Especialmente em mulheres ≥45 anos ou com fatores de risco |
| O exame pélvico é importante? |
Sim, é uma parte fundamental da avaliação em mulheres adultas |
Conclusão
A avaliação do sangramento uterino anormal deve ser sistemática e orientada por três perguntas principais:
- Há gravidade ou instabilidade hemodinâmica?
- O padrão do sangramento sugere causa estrutural, ovulatória, endometrial, iatrogênica ou sistêmica?
- Há necessidade de investigação adicional com imagem, histeroscopia ou biópsia endometrial?
Na prática, a anamnese detalhada, o exame pélvico e os exames iniciais bem indicados resolvem boa parte da investigação. Já a classificação PALM-COEIN ajuda a organizar o diagnóstico diferencial e a direcionar a conduta.
Referência: BMJ Best Practice. Avaliação de sangramento uterino anormal. Última atualização: 08 jul. 2026
Gabriel Henriques Amorim é médico (CRM-SP 272307), especialista em Educação na Saúde pela USP e residente de Medicina de Família e Comunidade no Hospital das Clínicas da FMUSP. No blog da Manole, compartilha conteúdos práticos, baseados em evidências, voltados para o dia a dia do cuidado em saúde.