Ginecologia e Obstetrícia
Incontinência urinária em mulheres
Introdução A incontinência urinária em mulheres é definida como a perda involuntária de urina. Apesar de ser uma condição comum,…
O câncer colorretal é uma das neoplasias mais relevantes em saúde pública, tanto pela incidência quanto pela possibilidade de prevenção e diagnóstico precoce. Diferente de muitos tumores, ele pode ser rastreado por métodos capazes de identificar lesões precursoras ou sinais indiretos de neoplasia antes do surgimento de sintomas.
Nesse cenário, o FIT, sigla para fecal immunochemical test ou teste imunoquímico fecal, tem ganhado espaço como alternativa não invasiva para o rastreamento do câncer colorretal em adultos de risco médio.
O FIT detecta hemoglobina humana nas fezes e apresenta vantagens importantes em relação ao teste de sangue oculto baseado em guaiaco: não exige restrições alimentares, demanda menos amostras, tem melhor adesão e apresenta maior acurácia para detecção de câncer colorretal.
No entanto, há um ponto essencial: FIT positivo não diagnostica câncer. FIT positivo indica necessidade de colonoscopia para completar o rastreamento.
O FIT é um teste de fezes que detecta hemoglobina humana por método imunoquímico. Como o teste é específico para sangue humano, ele sofre menos interferência de dieta e medicamentos do que os métodos antigos baseados em guaiaco.
Na prática, o FIT busca identificar sangramento oculto nas fezes, que pode ocorrer em câncer colorretal ou em alguns adenomas avançados. Por ser simples, não invasivo e realizado em casa, pode aumentar a adesão de pacientes que recusam ou adiam colonoscopia.
| Característica | FIT |
| Tipo de exame | Teste fecal imunoquímico |
| O que detecta | Hemoglobina humana nas fezes |
| Indicação principal | Rastreamento do câncer colorretal em adultos de risco médio |
| Frequência | Anual, na maioria das recomendações |
| Preparo intestinal | Não requer |
| Sedação | Não requer |
| Restrição alimentar | Não requer |
| Resultado positivo | Exige colonoscopia |
O FIT é indicado como opção de rastreamento para adultos assintomáticos de risco médio para câncer colorretal.
Em geral, o rastreamento do câncer colorretal é recomendado para adultos entre 45 e 75 anos, desde que não haja sinais, sintomas ou fatores que indiquem necessidade de investigação diagnóstica ou estratégia de maior risco.
O paciente de risco médio é aquele que não apresenta:
Pacientes sintomáticos não devem ser “rastreados” com FIT. Nesses casos, a avaliação é diagnóstica e pode exigir colonoscopia ou investigação direcionada.
O FIT é uma estratégia de rastreamento, não um exame diagnóstico definitivo. Ele pode ser uma excelente opção para ampliar cobertura populacional, reduzir barreiras e aumentar adesão, mas não substitui colonoscopia quando há indicação formal do exame.
| Situação | FIT é adequado? |
| Adulto assintomático de risco médio | Sim, como opção de rastreamento |
| Paciente com sangramento retal | Não; investigar como sintoma |
| Anemia ferropriva inexplicada | Não; requer avaliação diagnóstica |
| Perda de peso ou alteração persistente do hábito intestinal | Não; investigar |
| História pessoal de pólipo avançado | Geralmente não; seguir vigilância colonoscópica |
| Doença inflamatória intestinal | Não; seguir protocolo específico |
| Síndrome hereditária de câncer colorretal | Não; rastreamento de alto risco |
| FIT positivo | Não repetir FIT; indicar colonoscopia |
Um erro comum é repetir o FIT após resultado positivo. Essa conduta pode atrasar o diagnóstico. O próximo passo é colonoscopia.
O teste de sangue oculto nas fezes por guaiaco foi usado por muitos anos no rastreamento do câncer colorretal. Porém, ele apresenta limitações importantes: pode sofrer interferência da dieta, requer mais amostras e tem menor desempenho diagnóstico.
O FIT, por outro lado, detecta especificamente hemoglobina humana e apresenta maior adesão.
| Característica | Guaiaco | FIT |
| Detecta | Atividade peroxidase do heme | Hemoglobina humana |
| Interferência alimentar | Sim | Não relevante |
| Restrição de medicamentos | Pode ser necessária | Em geral, não |
| Número de amostras | Maior | Menor |
| Adesão | Menor | Maior |
| Sensibilidade para câncer colorretal | Menor | Maior |
| Uso atual em programas organizados | Menos preferido | Preferido em muitos cenários |
Por essas razões, sociedades gastroenterológicas têm destacado o FIT como uma das melhores opções não invasivas para rastreamento em adultos de risco médio.
O desempenho do FIT varia conforme o limiar de positividade utilizado, a população avaliada, a periodicidade do rastreamento e a qualidade do programa.
De forma geral, o FIT apresenta boa sensibilidade e especificidade para câncer colorretal. Seu desempenho para adenomas avançados é menor, e sua utilidade para lesões serrilhadas é limitada.
| Alvo do rastreamento | Desempenho do FIT |
| Câncer colorretal | Boa sensibilidade e especificidade |
| Adenomas avançados | Sensibilidade moderada a baixa |
| Lesões serrilhadas | Baixa utilidade |
| Neoplasia avançada | Depende do limiar e da repetição periódica |
Esse ponto é essencial para explicar ao paciente: o FIT é bom para rastrear câncer colorretal, mas não tem a mesma capacidade da colonoscopia de identificar e remover pólipos no mesmo procedimento.
Para maximizar o benefício, o FIT deve ser repetido regularmente. A periodicidade anual é a mais utilizada e recomendada em muitos protocolos.
Como o FIT detecta sangramento oculto, um exame negativo não exclui definitivamente lesões que não estejam sangrando naquele momento. Por isso, a repetição periódica é parte fundamental da estratégia.
| Resultado | Conduta |
| FIT negativo | Repetir conforme periodicidade do programa, geralmente anual |
| FIT positivo | Encaminhar para colonoscopia |
| FIT inadequado ou amostra inválida | Repetir coleta conforme orientação do laboratório |
| FIT positivo seguido de colonoscopia normal | Seguir orientação pós-colonoscopia conforme achados e risco |
A efetividade do FIT depende de organização. Não basta entregar o teste: é preciso garantir coleta adequada, devolução da amostra, comunicação do resultado e colonoscopia após positividade.
Uma vantagem importante do FIT é a simplicidade de coleta. O exame deve ser realizado em casa, com kit apropriado e seguindo as instruções do laboratório ou programa de rastreamento.
Orientações práticas:
A amostra coletada por toque retal no consultório não é adequada para rastreamento com FIT. O teste foi desenhado para coleta domiciliar padronizada.
Todo FIT positivo deve ser seguido por colonoscopia. Essa é a etapa que completa o processo de rastreamento.
O resultado positivo significa que foi detectada hemoglobina humana nas fezes, mas não define a causa. Pode ocorrer por câncer, adenoma avançado, pólipos, doença inflamatória, lesões vasculares, hemorroidas ou outras fontes de sangramento.
Porém, como o objetivo do rastreamento é não perder neoplasias relevantes, a conduta não é repetir o FIT. A conduta é colonoscopia.
| Situação após FIT positivo | Conduta correta |
| Paciente assintomático | Colonoscopia |
| Paciente relata hemorroida | Colonoscopia, pois hemorroida não exclui câncer |
| Novo FIT negativo | Não anula o FIT positivo anterior |
| Paciente tem medo da colonoscopia | Explicar risco, benefícios e necessidade do exame |
| Colonoscopia não disponível imediatamente | Inserir em fluxo prioritário conforme protocolo local |
Programas de rastreamento eficazes precisam ter sistema de busca ativa para garantir que pacientes com FIT positivo realizem colonoscopia em tempo oportuno.
O FIT é uma ferramenta útil, mas tem limitações.
A principal é que ele depende de sangramento. Lesões que não sangram podem não ser detectadas. Além disso, o teste tem baixa sensibilidade para lesões serrilhadas, que podem ser precursoras de câncer colorretal, especialmente no cólon proximal.
Outra limitação é que o FIT não remove pólipos. A colonoscopia, por outro lado, permite diagnóstico e tratamento durante o mesmo procedimento.
| Limitação | Implicação clínica |
| Não detecta todas as lesões | Exame negativo não elimina necessidade de rastreamento periódico |
| Baixa utilidade para lesões serrilhadas | Pode perder algumas lesões precursoras |
| Requer repetição periódica | Adesão anual é essencial |
| Resultado positivo exige colonoscopia | Sem colonoscopia, rastreamento fica incompleto |
| Não é indicado para sintomáticos | Sintomas exigem investigação diagnóstica |
O FIT é mais efetivo quando usado dentro de programa organizado, com repetição anual e garantia de colonoscopia após resultado positivo.
Para adultos de risco médio, tanto o FIT quanto a colonoscopia podem ser estratégias adequadas de rastreamento, desde que usadas corretamente.
A melhor estratégia é aquela que o paciente consegue realizar de forma adequada e contínua.
| Critério | FIT | Colonoscopia |
| Invasividade | Não invasivo | Invasivo |
| Preparo intestinal | Não | Sim |
| Sedação | Não | Frequentemente |
| Frequência | Anual | Geralmente a cada 10 anos em risco médio, se normal |
| Detecta câncer | Sim | Sim |
| Detecta pólipos | Parcialmente | Sim |
| Remove pólipos | Não | Sim |
| Necessita colonoscopia se positivo | Sim | Não se exame completo e adequado |
| Aderência | Pode ser maior | Pode ser menor por barreiras de acesso/preparo |
A colonoscopia tem a vantagem de identificar e remover pólipos, mas exige preparo, disponibilidade, estrutura e aceitação do paciente. O FIT pode ampliar o rastreamento em pessoas que não fariam colonoscopia inicialmente.
Na atenção primária, o FIT pode ser uma ferramenta estratégica para ampliar rastreamento populacional do câncer colorretal.
Um programa efetivo deve incluir:
| Indicador | Por que acompanhar? |
| Pacientes elegíveis rastreados | Mede cobertura |
| Kits entregues e devolvidos | Mede adesão |
| FIT positivos | Estima demanda por colonoscopia |
| Colonoscopias realizadas após FIT positivo | Mede qualidade do programa |
| Tempo até colonoscopia | Avalia segurança do seguimento |
| Cânceres e adenomas detectados | Mede efetividade |
Sem sistema de acompanhamento, o FIT pode falhar justamente no ponto mais importante: garantir investigação dos casos positivos.
Uma explicação simples pode melhorar adesão:
“O FIT é um exame de fezes que procura pequenas quantidades de sangue que não aparecem a olho nu. Ele é feito em casa e não precisa de dieta especial. Se vier negativo, repetimos periodicamente. Se vier positivo, isso não significa necessariamente câncer, mas significa que precisamos fazer colonoscopia para investigar.”
É importante reforçar que:
| Erro | Por que evitar? |
| Usar FIT em paciente sintomático | Sintomas exigem investigação diagnóstica |
| Repetir FIT após resultado positivo | Pode atrasar colonoscopia |
| Não garantir colonoscopia após positividade | Rastreamento fica incompleto |
| Fazer coleta por toque retal no consultório | Não é coleta adequada para rastreamento |
| Oferecer FIT para paciente de alto risco sem estratificação | Pode subestimar risco e atrasar colonoscopia |
| Não repetir o exame periodicamente | O benefício depende da repetição |
| Não explicar limitações | Pode gerar falsa segurança |
O FIT é uma ferramenta eficaz, não invasiva e acessível para o rastreamento do câncer colorretal em adultos assintomáticos de risco médio. Por detectar hemoglobina humana nas fezes, apresenta vantagens sobre o teste de sangue oculto baseado em guaiaco, incluindo maior adesão, ausência de restrições dietéticas e melhor desempenho para detecção de câncer colorretal.
Seu uso deve ser periódico, geralmente anual, e integrado a um sistema organizado de rastreamento. O principal ponto de segurança é garantir que todo FIT positivo seja seguido de colonoscopia. Sem esse seguimento, o processo de rastreamento fica incompleto.
Na prática clínica, o FIT não substitui a colonoscopia em pacientes sintomáticos, de alto risco ou com indicação de vigilância colonoscópica. Mas pode ser uma estratégia valiosa para ampliar acesso, aumentar adesão e reduzir mortalidade por câncer colorretal quando bem implementado.
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Gabriel Henriques Amorim é médico (CRM-SP 272307), especialista em Educação na Saúde pela USP e residente de Medicina de Família e Comunidade no Hospital das Clínicas da FMUSP. No blog da Manole, compartilha conteúdos práticos, baseados em evidências, voltados para o dia a dia do cuidado em saúde.
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