Clínica Médica
Fratura exposta: classificação, antibiótico e manejo inicial
A fratura exposta é uma emergência ortopédica definida pela comunicação entre o foco de fratura e o meio externo. Essa…
O hipotireoidismo é uma das doenças endócrinas mais frequentes na prática médica. Ele ocorre quando há produção insuficiente de hormônios tireoidianos ou quando a ação desses hormônios é inadequada para as necessidades do organismo.
Na maioria dos casos, trata-se de hipotireoidismo primário, causado por disfunção da própria tireoide. A principal etiologia em regiões com ingestão adequada de iodo é a tireoidite de Hashimoto, uma doença autoimune caracterizada por destruição progressiva da glândula tireoide.
Apesar de ser uma condição comum, o hipotireoidismo pode gerar dúvidas importantes: quem deve ser rastreado? Quando solicitar TSH? Como interpretar TSH elevado com T4 livre normal? Qual dose inicial de levotiroxina? E como conduzir pacientes que permanecem sintomáticos apesar do TSH normal?
Neste artigo, vamos revisar o diagnóstico, o tratamento e o seguimento do hipotireoidismo com foco na prática clínica.
Hipotireoidismo é a síndrome clínica e bioquímica causada pela deficiência de hormônios tireoidianos. Esses hormônios participam da regulação do metabolismo, da temperatura corporal, da função cardiovascular, da motilidade intestinal, da função cognitiva, do ciclo menstrual e de diversos processos fisiológicos.
A doença pode ser classificada em:
| Tipo | Característica |
| Hipotireoidismo primário | Alteração na própria tireoide, com TSH elevado e T4 livre baixo |
| Hipotireoidismo central | Alteração hipofisária ou hipotalâmica, com T4 livre baixo e TSH baixo, normal ou inadequadamente normal |
| Hipotireoidismo subclínico | TSH elevado com T4 livre normal |
| Hipotireoidismo congênito | Presente desde o nascimento, geralmente identificado por triagem neonatal |
Na prática ambulatorial, o hipotireoidismo primário é o mais comum.
As causas variam conforme idade, região geográfica, histórico clínico e exposição a medicamentos.
| Causa | Comentário prático |
| Tireoidite de Hashimoto | Principal causa em áreas com suficiência de iodo |
| Tireoidectomia | Pode causar hipotireoidismo permanente |
| Radioiodoterapia | Frequente após tratamento de hipertireoidismo |
| Radioterapia cervical | Pode causar disfunção tireoidiana tardia |
| Deficiência de iodo | Causa importante em regiões com baixa ingestão de iodo |
| Excesso de iodo | Pode precipitar disfunção em pessoas predispostas |
| Medicamentos | Amiodarona, lítio, interferon, inibidores de checkpoint imune |
| Doenças infiltrativas | Raras, como amiloidose, sarcoidose ou hemocromatose |
| Hipotireoidismo central | Decorrente de doença hipofisária ou hipotalâmica |
A tireoidite de Hashimoto deve ser suspeitada em pacientes com hipotireoidismo primário, especialmente quando há história pessoal ou familiar de doenças autoimunes.
Os sintomas do hipotireoidismo podem ser inespecíficos, graduais e facilmente confundidos com outras condições clínicas. Muitos pacientes apresentam queixas leves ou atribuídas ao envelhecimento, estresse, depressão, sedentarismo ou outras doenças crônicas.
Entre os sintomas mais comuns estão:
Na avaliação clínica, é importante lembrar que a intensidade dos sintomas nem sempre se correlaciona diretamente com o grau de alteração laboratorial.
A investigação deve ser considerada em pacientes com sintomas compatíveis e também em algumas situações clínicas associadas.
| Situação clínica | Por que pensar em hipotireoidismo? |
| Fadiga persistente | Sintoma frequente, embora inespecífico |
| Ganho de peso e intolerância ao frio | Sugere redução do metabolismo basal |
| Constipação crônica | Pode ocorrer por lentificação intestinal |
| Dislipidemia | Hipotireoidismo pode elevar LDL-colesterol |
| Insuficiência cardíaca ou bradicardia | Hormônios tireoidianos influenciam função cardiovascular |
| Infertilidade ou irregularidade menstrual | Pode haver impacto no eixo reprodutivo |
| Depressão ou lentificação cognitiva | Pode mimetizar ou agravar quadros psiquiátricos |
| Uso de amiodarona ou lítio | Medicamentos associados à disfunção tireoidiana |
| História de tireoidectomia ou radioiodo | Alto risco de hipotireoidismo |
O diagnóstico não deve ser feito apenas por sintomas. A confirmação é bioquímica.
O rastreamento universal de hipotireoidismo em adultos assintomáticos não é recomendado de forma rotineira.
No entanto, o rastreamento direcionado com dosagem de TSH deve ser considerado em grupos de maior risco.
| Grupo de risco | Conduta prática |
| Doenças autoimunes | Considerar TSH, especialmente em diabetes tipo 1, anemia perniciosa, vitiligo e insuficiência adrenal primária |
| História familiar de doença tireoidiana | Maior risco em parentes de primeiro grau |
| Radioterapia de cabeça e pescoço | Risco de disfunção tireoidiana tardia |
| Cirurgia tireoidiana prévia | Necessidade de seguimento funcional |
| Uso de amiodarona, lítio ou imunoterapia | Monitorar função tireoidiana |
| Síndrome de Down ou Turner | Rastreamento periódico, geralmente anual |
| Gestantes de alto risco | Rastreamento direcionado conforme fatores clínicos |
Em gestantes, também não se recomenda rastreamento universal em todos os cenários. A investigação costuma ser direcionada para mulheres com história pessoal ou familiar de doença tireoidiana, diabetes tipo 1, sintomas sugestivos, bócio, positividade prévia de anticorpos antitireoidianos ou outros fatores de risco.
O TSH sérico é o exame inicial recomendado para a maioria dos pacientes com suspeita de hipotireoidismo primário.
Se o TSH estiver elevado, deve-se dosar T4 livre para diferenciar hipotireoidismo manifesto de hipotireoidismo subclínico.
| Resultado | Interpretação |
| TSH normal | Hipotireoidismo primário improvável |
| TSH elevado + T4 livre baixo | Hipotireoidismo primário manifesto |
| TSH elevado + T4 livre normal | Hipotireoidismo subclínico |
| T4 livre baixo + TSH baixo, normal ou inadequadamente normal | Suspeitar de hipotireoidismo central |
No hipotireoidismo central, o TSH pode não estar elevado. Por isso, quando há suspeita de doença hipofisária, o T4 livre deve ser interpretado junto com o quadro clínico e outros eixos hormonais.
A dosagem de T3 não tem papel no diagnóstico rotineiro do hipotireoidismo.
Isso ocorre porque o T3 pode permanecer normal até fases mais avançadas da doença, além de sofrer interferência de condições sistêmicas, doenças agudas e alterações periféricas de conversão hormonal.
Na prática, o diagnóstico deve se basear principalmente em TSH e T4 livre.
A dosagem de anti-TPO pode ajudar a confirmar etiologia autoimune, especialmente em pacientes com TSH elevado e suspeita de tireoidite de Hashimoto.
No entanto, a positividade do anti-TPO isoladamente, sem alteração de TSH ou T4 livre, não define hipotireoidismo. Ela indica maior risco de desenvolver disfunção tireoidiana ao longo do tempo.
| Exame | Utilidade |
| Anti-TPO | Sugere tireoidite autoimune e maior risco de progressão |
| Antitireoglobulina | Pode complementar avaliação em alguns casos |
| Ultrassonografia de tireoide | Não é necessária para diagnóstico funcional; indicada se houver nódulo, bócio assimétrico ou achado estrutural |
É comum solicitar ultrassonografia sem necessidade em pacientes com alteração laboratorial isolada. O diagnóstico de hipotireoidismo é laboratorial, não ultrassonográfico.
A levotiroxina é o tratamento de primeira linha para o hipotireoidismo primário. O objetivo é normalizar o TSH, melhorar manifestações clínicas e prevenir complicações relacionadas ao hipo ou hipertireoidismo iatrogênico.
A levotiroxina deve ser usada uma vez ao dia, idealmente em jejum, 30 a 60 minutos antes do café da manhã.
Outra opção, quando há dificuldade de adesão pela manhã, é o uso à noite, desde que seja administrada com intervalo adequado da última refeição. O mais importante é manter regularidade.
A dose deve ser individualizada conforme idade, peso, gravidade do hipotireoidismo, presença de doença cardiovascular, gestação e comorbidades.
| Perfil do paciente | Dose inicial sugerida |
| Adulto jovem, saudável, sem cardiopatia | Reposição plena, em geral 1,5 a 1,8 mcg/kg/dia |
| Idoso ou paciente com doença cardiovascular | Iniciar baixo, geralmente 12,5 a 50 mcg/dia |
| Hipotireoidismo leve ou subclínico tratado | Pode iniciar com doses menores, como 25 a 50 mcg/dia |
| Gestante com hipotireoidismo prévio | Aumentar dose assim que confirmada gestação e monitorar mensalmente no início |
Em pacientes idosos ou com doença arterial coronariana, iniciar com dose plena pode precipitar angina, arritmias ou descompensação cardiovascular. Por isso, a titulação deve ser gradual.
A absorção da levotiroxina é um ponto central do tratamento. Muitos casos de “hipotireoidismo resistente” são, na verdade, problemas de adesão, interação medicamentosa ou uso inadequado.
Orientações práticas:
Medicamentos e substâncias que podem interferir na absorção ou metabolismo incluem cálcio, ferro, inibidores de bomba de prótons, antiácidos, sucralfato, colestiramina, anticonvulsivantes, rifampicina, amiodarona e estrogênios, entre outros.
Após iniciar levotiroxina ou alterar dose, o TSH deve ser reavaliado em cerca de 6 a 8 semanas. Esse intervalo é necessário porque o eixo hipotálamo-hipófise-tireoide leva algumas semanas para atingir novo equilíbrio.
Depois de estabilizado, o acompanhamento pode ser espaçado.
| Momento | Conduta |
| Início do tratamento | Reavaliar TSH em 6 a 8 semanas |
| Após ajuste de dose | Repetir TSH em 6 a 8 semanas |
| Até estabilização | Monitorar periodicamente até TSH em alvo |
| Manutenção | Dosar TSH anualmente ou conforme contexto clínico |
Ajustes de dose costumam ser feitos em incrementos de 12,5 a 25 mcg por vez, com nova avaliação laboratorial após 6 a 8 semanas.
Na maioria dos adultos com hipotireoidismo primário, o objetivo é manter o TSH dentro da faixa de referência do laboratório, associado à melhora clínica.
No entanto, o alvo pode variar conforme idade, gestação, risco cardiovascular e contexto clínico.
Evitar overtreatment é tão importante quanto tratar o hipotireoidismo. TSH persistentemente suprimido por excesso de levotiroxina pode aumentar risco de fibrilação atrial, perda óssea e sintomas de tireotoxicose, especialmente em idosos e mulheres pós-menopausa.
Hipotireoidismo subclínico é definido por TSH elevado com T4 livre normal.
A decisão de tratar deve considerar nível de TSH, idade, sintomas, presença de anticorpos, risco cardiovascular, gestação e preferência do paciente.
| Situação | Conduta possível |
| TSH igual ou maior que 10 mIU/L em duas dosagens | Considerar tratamento com levotiroxina |
| TSH discretamente elevado em adulto jovem sintomático | Considerar teste terapêutico individualizado |
| TSH discretamente elevado em idoso | Em geral, observar e monitorar |
| Gestação ou tentativa de engravidar | Manejo específico, com limiares mais rigorosos |
| Anti-TPO positivo | Maior risco de progressão; considerar no seguimento |
Em pacientes com menos de 65 anos, sintomas compatíveis e TSH persistentemente elevado, mas menor que 10 mIU/L, pode-se considerar teste terapêutico. Se os sintomas persistirem apesar da normalização do TSH, o tratamento deve ser reavaliado e outras causas dos sintomas devem ser investigadas.
Em pacientes com mais de 65 anos, especialmente com elevações discretas de TSH, o benefício do tratamento é menos claro, e o risco de overtreatment deve ser considerado.
Essa é uma situação comum. Antes de aumentar a dose de levotiroxina ou associar T3, é necessário revisar alguns pontos:
A adição rotineira de T3 não é recomendada para pacientes com sintomas persistentes e TSH normal. A maior parte das diretrizes mantém a levotiroxina em monoterapia como padrão.
A gestação aumenta a demanda por hormônio tireoidiano. Mulheres com hipotireoidismo prévio geralmente precisam de aumento da dose de levotiroxina assim que a gestação é confirmada.
Uma estratégia prática é aumentar a dose semanal em aproximadamente 30%, por exemplo, com duas doses extras por semana, seguida de dosagem de TSH e ajuste conforme alvo gestacional.
O monitoramento deve ser mais frequente, especialmente no primeiro trimestre e após ajustes de dose.
O manejo na gestação deve considerar faixas de referência específicas por trimestre, quando disponíveis, além de história obstétrica, anticorpos tireoidianos e risco materno-fetal.
A maioria dos casos de hipotireoidismo primário pode ser manejada na atenção primária ou clínica geral. No entanto, algumas situações exigem avaliação especializada.
| Situação | Motivo para encaminhar |
| Suspeita de hipotireoidismo central | Pode haver doença hipofisária associada |
| Gestação com difícil controle | Maior risco materno-fetal |
| TSH instável apesar de adesão adequada | Avaliar má absorção, interações ou diagnóstico alternativo |
| Doença cardíaca importante | Titulação deve ser cautelosa |
| Nódulo tireoidiano suspeito ou bócio compressivo | Avaliação estrutural |
| Sintomas persistentes apesar de TSH normal | Investigação ampliada e decisão compartilhada |
| Crianças e adolescentes | Manejo pediátrico específico |
| Erro | Por que evitar? |
| Diagnosticar apenas por sintomas | Sintomas são inespecíficos e exigem confirmação laboratorial |
| Solicitar T3 de rotina | Não ajuda no diagnóstico usual de hipotireoidismo |
| Pedir ultrassom para todo TSH alterado | Hipotireoidismo é diagnóstico bioquímico |
| Iniciar dose alta em idoso ou cardiopata | Pode precipitar eventos cardiovasculares |
| Reavaliar TSH cedo demais | O equilíbrio hormonal leva cerca de 6 a 8 semanas |
| Aumentar dose em paciente sintomático com TSH normal | Pode causar hipertireoidismo iatrogênico |
| Manter levotiroxina junto com cálcio ou ferro | Reduz absorção e dificulta controle |
| Tratar todo hipotireoidismo subclínico leve em idoso | Benefício é incerto e há risco de overtreatment |
O hipotireoidismo é uma condição comum, mas exige abordagem clínica cuidadosa para evitar tanto subdiagnóstico quanto tratamento excessivo.
O TSH é o exame inicial de escolha na suspeita de hipotireoidismo primário. Quando elevado, deve ser complementado com T4 livre para diferenciar hipotireoidismo manifesto de hipotireoidismo subclínico. A dosagem de T3 não tem papel no diagnóstico rotineiro.
A levotiroxina é o tratamento de primeira linha. A dose inicial deve ser individualizada, com maior cautela em idosos e pacientes com doença cardiovascular. O monitoramento deve ser feito com TSH após 6 a 8 semanas de início ou ajuste, e depois periodicamente até estabilização.
No hipotireoidismo subclínico, a decisão de tratar deve considerar nível de TSH, idade, sintomas, anticorpos, gestação e risco cardiovascular. Em idosos com elevação discreta do TSH, a observação costuma ser preferível ao tratamento automático.
Na prática, o manejo adequado depende de diagnóstico bioquímico correto, orientação clara sobre o uso da levotiroxina, seguimento longitudinal e atenção para causas alternativas de sintomas persistentes.
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Gabriel Henriques Amorim é médico (CRM-SP 272307), especialista em Educação na Saúde pela USP e residente de Medicina de Família e Comunidade no Hospital das Clínicas da FMUSP. No blog da Manole, compartilha conteúdos práticos, baseados em evidências, voltados para o dia a dia do cuidado em saúde.
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