O rastreamento de quedas e osteoporose em idosos é uma estratégia central na prevenção de fraturas, incapacidade funcional e mortalidade. Fraturas osteoporóticas especialmente de quadril e vértebras estão associadas a aumento de institucionalização, perda de autonomia e risco de morte, sendo as quedas o principal mecanismo causal nessa população.
Um ponto crítico é que a maioria das fraturas ocorre em indivíduos sem diagnóstico prévio de osteoporose pela densitometria óssea isolada, o que reforça a necessidade de uma avaliação ampliada do risco de fratura, incorporando fatores clínicos, funcionais e ferramentas preditivas.
Por que rastrear quedas e osteoporose de forma integrada?
Quedas e osteoporose compartilham determinantes comuns e impacto clínico convergente. O rastreamento isolado da densidade mineral óssea não identifica todos os indivíduos sob risco, enquanto a avaliação funcional sem estratificação óssea pode subestimar o risco de fraturas graves. A abordagem integrada permite:
- Identificar idosos com alto risco de fratura antes do primeiro evento
- Direcionar intervenções preventivas baseadas em evidências
- Reduzir morbidade, mortalidade e custos em saúde
Rastreamento do risco de quedas em idosos
Avaliação clínica inicial
O rastreamento do risco de quedas deve iniciar com uma avaliação clínica sistemática, incluindo:
- História de quedas no último ano (especialmente quedas recorrentes)
- Dificuldades de mobilidade e equilíbrio
- Uso de medicamentos, com atenção especial à polifarmácia e fármacos sedativos
- Avaliação de fatores ambientais domiciliares
- A presença de queda prévia é um dos preditores mais robustos de quedas futuras.
Testes funcionais recomendados
Testes simples e reprodutíveis auxiliam na estratificação do risco, como:
- Velocidade de marcha reduzida
- Avaliação do equilíbrio e da capacidade funcional
Esses testes permitem identificar idosos com risco aumentado mesmo na ausência de quedas relatadas.
Fatores modificáveis associados a quedas
A identificação e correção de fatores modificáveis é essencial, incluindo:
- Polifarmácia e uso de medicamentos de alto risco
- Hipotensão ortostática
- Déficits sensoriais (visão, audição, neuropatia periférica)
- Riscos ambientais
A intervenção nesses fatores reduz significativamente a incidência de quedas.
Rastreamento da osteoporose em idosos
Indicações para densitometria óssea
A densitometria óssea por DXA central (quadril e coluna lombar) é recomendada para:
- Mulheres ≥65 anos
- Homens ≥70 anos
- Indivíduos mais jovens com fatores de risco clínicos, como fratura prévia, quedas frequentes, uso crônico de glicocorticoides, tabagismo, consumo excessivo de álcool ou doenças secundárias associadas à perda óssea
Limitações do uso isolado do BMD
O uso exclusivo do BMD apresenta limitações importantes:
- Não identifica todos os indivíduos que irão fraturar
- Subestima o risco em pacientes com múltiplos fatores clínicos
- Não considera risco de quedas
Por isso, recomenda-se integrar o BMD a ferramentas clínicas de estratificação de risco.
Ferramentas de avaliação de risco de fratura
Ferramentas como FRAX, Garvan, QFracture, OST e ORAI estimam a probabilidade de fratura em 10 anos, incorporando variáveis clínicas, com ou sem inclusão do BMD.
A combinação do FRAX com a densitometria óssea aumenta a precisão preditiva para fraturas maiores e de quadril. Quando disponível, o trabecular bone score pode ser incorporado ao FRAX para aprimorar ainda mais a estratificação de risco.
Avaliação de fraturas vertebrais
A investigação de fraturas vertebrais, por radiografia ou por vertebral fracture assessment via DXA, é indicada quando há suspeita clínica, como:
- Perda de estatura superior a 3,8 cm
- Dor dorsal crônica
- Achados sugestivos em exames de imagem
A identificação de fraturas vertebrais assintomáticas altera substancialmente o risco de fratura futura e a conduta terapêutica.
Frequência do rastreamento e limitações
Intervalos recomendados para DXA
Em mulheres ≥65 anos, recomenda-se repetir a densitometria a cada 2 anos. Em pacientes com BMD normal ou osteopenia leve, o intervalo pode ser estendido chegando a até 10–15 anos devido à baixa taxa de progressão para osteoporose.
Limitações das ferramentas de risco
As ferramentas de estratificação apresentam limitações, como:
- Ausência de quantificação precisa de álcool e glicocorticoides
- Não inclusão da história de quedas em alguns modelos
- Menor acurácia em populações não brancas
Além disso, não há consenso para rastreamento universal em homens, reforçando a necessidade de avaliação individualizada. O rastreamento eficaz de quedas e osteoporose em idosos exige uma abordagem multidimensional, que combine avaliação clínica, testes funcionais, ferramentas de risco e exames de imagem. A identificação precoce de fatores modificáveis e a estratificação individualizada do risco de fratura são fundamentais para orientar intervenções preventivas baseadas em evidências e reduzir desfechos adversos nessa população.
Referências
- Morin SN, Leslie WD, Schousboe JT. Osteoporosis. JAMA. 2025;334(10):894–907.
- US Preventive Services Task Force. Screening for Osteoporosis to Prevent Fractures. JAMA. 2025;333(6):498–508.
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- Plesa M, Wong A, Katsaggelos E. Health Maintenance in Postmenopausal Women. Am Fam Physician. 2025;111(5):407–418.
- Ye C, Ebeling P, Kline G. Osteoporosis. Lancet. 2025;406(10514):2003–2016.
- Walker MD, Shane E. Postmenopausal Osteoporosis. N Engl J Med. 2023;389(21):1979–1991.
Gabriel Henriques Amorim é médico (CRM-SP 272307), especialista em Educação na Saúde pela USP e residente de Medicina de Família e Comunidade no Hospital das Clínicas da FMUSP. No blog da Manole, compartilha conteúdos práticos, baseados em evidências, voltados para o dia a dia do cuidado em saúde.