Você já teve a sensação de que H. pylori é sempre um déjà vu na sua prática? O paciente chega, você trata…e ele volta. E volta de novo. E quando percebe, já está no terceiro esquema antibiótico. Não é coincidência: 15% a 20% dos tratamentos falham, e isso piora a cada nova tentativa repetida sem estratégia adequada .
A boa notícia: as diretrizes mais recentes reforçam caminhos mais eficazes e deixam claro que a era dos esquemas empíricos ultrapassados finalmente precisa terminar.
O que realmente importa?
✔ Quem deve ser tratado?
Todo paciente com infecção ativa confirmada deve receber tratamento, exceto gestantes e indivíduos em que o risco supera o benefício .
✔ Por que o pré-tratamento importa tanto?
O guidance é claro: orientar o paciente é essencial para o sucesso da erradicação.
Na consulta, enfatize:
- importância da adesão total ao esquema;
- complexidade do regime (10–14 dias, múltiplas tomadas);
- manejo dos efeitos adversos (ex.: língua e fezes escurecidas com bismuto) .
✔ O vilão silencioso: resistência antibiótica
A escolha do esquema passa obrigatoriamente por um raciocínio atualizado sobre padrões locais de resistência, histórico de antibióticos e eficácia do tratamento disponível.
Exemplo prático:
- Claritromicina resistente em 20–30% nos EUA
- Levofloxacino: até 40% de resistência
Esses esquemas não devem ser usados empiricamente.
A primeira linha
✔ O preferido: Bismuth Quadruple Therapy (BQT)
O esquema otimizado (14 dias) inclui:
- PPI 2x/dia
- Bismuto
- Tetraciclina
- Metronidazol 3–4x/dia
É o regime mais eficaz e o recomendado como empirismo inicial na maioria dos pacientes.Por quê?
- Não sofre tanto com resistência
- Alta taxa de erradicação
- Consistência em diferentes populações
- Indicado inclusive após uma primeira falha em quem não recebeu BQT previamente
✔ Alternativas eficazes
- a) Rifabutina + Amoxicilina + PPI (Talicia®)
- 14 dias
- 3x/dia
- Excelente eficácia → mas custo alto e risco de uso excessivo de rifabutina (antibiótico em lista de vigilância da OMS) .
- b) Vonoprazana (PCAB)
Duas opções:
- Dual therapy: Vonoprazana + Amoxicilina
- Triple therapy: Vonoprazana + Amoxicilina + Claritromicina
Vantagens:
- menor carga de comprimidos
- potente supressão ácida
- eficácia superior a esquemas com PPI tradicional .
Limitações:
- custo elevado
- disponibilidade variável
- eficácia menor que BQT em alguns cenários
- triple therapy só deve ser usada quando susceptibilidade à claritromicina for comprovada.
Teste de cura: o passo que muitos pulam (e não podem)
Confirmar a erradicação é obrigatório. Sintoma não é confiável. Ideal:
- realizar teste ≥ 4 semanas após o término do tratamento
- suspender PPI ou PCAB por 2 semanas antes do teste
- métodos: urease respiratório, antígeno fecal ou biópsia endoscópica .
O cenário do tratamento do H. pylori mudou — e muito. Esquemas antigos empíricos, especialmente com claritromicina e levofloxacino, devem ser abandonados em regiões com resistência elevada. BQT otimizado é a base da terapêutica atual. Rifabutina e vonoprazana surgem como alternativas modernas e promissoras, mas ainda com limitações importantes. E, acima de tudo, não esqueça: sem confirmar a erradicação, não existe tratamento completo.
Referências
- UpToDate: Treatment of Helicobacter pylori infection in adults
- ACG Clinical Guideline: Treatment of H. pylori Infection. Am J Gastroenterol 2017.
- Meta-análises e evidências adicionais listadas na seção final do PDF, incluindo Nyssen et al., 2022; Patel et al., 2024; Marasco et al., 2025.
Gabriel Henriques Amorim é médico (CRM-SP 272307), especialista em Educação na Saúde pela USP e residente de Medicina de Família e Comunidade no Hospital das Clínicas da FMUSP. No blog da Manole, compartilha conteúdos práticos, baseados em evidências, voltados para o dia a dia do cuidado em saúde.