Tratamento da insônia: abordagem prática e baseada em evidências
A insônia é uma das queixas mais frequentes da atenção primária e da prática clínica ambulatorial. Embora muitas vezes seja…
A síndrome de Tourette é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado pela presença de tiques motores e vocais com início na infância. Embora ainda seja cercada por estigma e simplificações, trata-se de uma condição clínica heterogênea, frequentemente associada a comorbidades psiquiátricas e impacto funcional variável.
Para o médico, reconhecer a síndrome de Tourette é importante não apenas para confirmar o diagnóstico, mas também para evitar exames desnecessários, orientar a família, diferenciar tiques de outros fenômenos motores e identificar transtornos associados que, muitas vezes, geram mais prejuízo do que os próprios tiques.
A síndrome de Tourette é definida como um transtorno de início na infância marcado por múltiplos tiques motores e um ou mais tiques vocais ao longo da evolução, embora eles não precisem ocorrer simultaneamente. Os sintomas costumam começar na infância, atingem pico antes da puberdade e tendem a melhorar na adolescência ou no início da vida adulta.
Ela integra um espectro de transtornos de tique, que também inclui o transtorno de tique provisório e o transtorno de tique motor ou vocal persistente. Na prática, a síndrome de Tourette representa a forma mais complexa desse espectro.
A síndrome de Tourette é relatada em todo o mundo e é mais frequente em meninos, com razão aproximada entre 3:1 e 5:1 em comparação com meninas. Estudos estimam prevalência entre 0,3% e 0,9%, embora haja variação conforme o método diagnóstico e a população estudada.
Outro ponto importante é que muitos casos permanecem sem diagnóstico, sobretudo os mais leves. Além disso, apenas uma minoria dos pacientes apresenta somente tiques, sem outras condições associadas. O transtorno do déficit de atenção com hiperatividade é uma das comorbidades mais frequentes.
Os sintomas centrais são os tiques motores e vocais. Os tiques motores simples incluem piscar, caretas, encolher os ombros, sacudir a cabeça e contrair o nariz. Já os tiques vocais simples podem se manifestar como fungadas, tosse, pigarro, gemidos ou gritos.
Também podem ocorrer tiques complexos. Nos motores, entram padrões mais coordenados, como imitar gestos. Nos vocais, podem ocorrer ecolalia e, em menor proporção, coprolalia. É importante lembrar que a coprolalia, apesar de muito associada de forma estereotipada à doença, ocorre em apenas uma parcela dos pacientes.
Um aspecto clínico bastante útil é a sensação premonitória. Muitos pacientes descrevem uma urgência, tensão, queimação ou sensação interna crescente que antecede o tique e melhora logo após sua execução. Esse dado ajuda a diferenciar tiques de outros movimentos involuntários.
A suspeita costuma surgir em crianças com início de movimentos repetitivos rápidos, não rítmicos, geralmente entre 3 e 8 anos, sobretudo quando há alternância dos tiques ao longo do tempo, presença de vocalizações e relato de urgência para realizá-los. O restante do exame neurológico tende a ser normal.
Também reforçam a suspeita clínica:
O diagnóstico é clínico. Não há marcador biológico identificável, e a confirmação depende de história clínica detalhada e exame físico e neurológico. A anamnese deve explorar início, curso temporal, tipo dos tiques, fatores de piora e melhora, presença de sensação premonitória, comorbidades e história familiar.
Segundo os critérios diagnósticos atuais, é necessário haver múltiplos tiques motores e pelo menos um tique vocal em algum momento da doença, persistindo por mais de um ano desde o início, com início antes dos 18 anos, sem que o quadro seja melhor explicado por substâncias ou outra doença neurológica.
Na maioria dos casos, nenhum exame complementar é necessário quando o exame neurológico é normal. Ressonância magnética ou eletroencefalograma devem ser reservados para situações em que a história ou o exame físico levantem suspeita de lesão estrutural ou atividade epiléptica.
O diagnóstico diferencial inclui outras condições com movimentos repetitivos ou vocalizações, especialmente na infância. Entre as principais estão:
Esse último ponto é bastante prático: nem todo pigarro recorrente ou piscar frequente é tique, e muitas crianças com Tourette são inicialmente avaliadas por alergistas ou oftalmologistas antes do diagnóstico correto.
Grande parte do impacto funcional da síndrome de Tourette vem das comorbidades, e não apenas dos tiques. O transtorno do déficit de atenção com hiperatividade e o transtorno obsessivo-compulsivo são especialmente comuns, mas também podem ocorrer ansiedade, depressão, comportamento opositor e dificuldades escolares.
Por isso, o médico não deve limitar a consulta à contagem de tiques. Investigar rendimento escolar, funcionamento social, sintomas obsessivo-compulsivos, humor, impulsividade e sofrimento emocional é fundamental. Em muitos casos, tratar a comorbidade reduz inclusive a repercussão global dos tiques.
O objetivo do tratamento não é eliminar qualquer tique a qualquer custo, mas melhorar qualidade de vida, reduzir prejuízo funcional e apoiar o desenvolvimento da criança ou do adolescente. O manejo costuma ser multidisciplinar e multimodal.
A educação é etapa central do tratamento. Explicar a natureza dos tiques, seu curso flutuante, o peso das comorbidades e o prognóstico geralmente favorável ajuda a reduzir estigma, ansiedade e intervenções inadequadas. O envolvimento da família, da escola e, quando possível, dos colegas faz diferença real na adaptação do paciente.
Para tiques leves a moderados com impacto clínico, a primeira linha é a abordagem cognitivo-comportamental, especialmente a intervenção comportamental abrangente para tiques, que inclui terapia de reversão de hábitos. Essa estratégia tem boa base de evidência e pode reduzir a gravidade dos tiques e melhorar o funcionamento psicossocial.
A medicação costuma ser reservada para os casos em que a terapia comportamental não foi efetiva, não está disponível ou quando o prejuízo é mais importante.
Nos pacientes sem comorbidades dominantes, agonistas alfa-2 como clonidina e guanfacina costumam ser opções farmacológicas iniciais para tiques leves a moderados. A guanfacina tende a ter perfil de efeitos adversos um pouco mais favorável em relação à sedação.
Nos casos moderados a graves com comprometimento funcional, podem ser usados antipsicóticos. Aripiprazol, risperidona e ziprasidona são opções frequentemente utilizadas, com preferência crescente pelos antipsicóticos atípicos em razão de menor ocorrência de efeitos extrapiramidais em comparação com agentes típicos. Ainda assim, é preciso monitorar sedação, ganho de peso, alterações metabólicas e outros eventos adversos.
Topiramato e tetrabenazina podem ser considerados em contextos selecionados, geralmente com apoio especializado. Toxina botulínica tipo A pode ter utilidade em tiques focais específicos, sobretudo quando persistem sintomas com sofrimento significativo.
Quando o transtorno do déficit de atenção com hiperatividade é comórbido, ele pode ser a principal fonte de prejuízo. Os estimulantes seguem sendo tratamento eficaz, e metanálises não sustentam associação consistente entre psicoestimulantes e piora dos tiques. O metilfenidato costuma ser a escolha mais bem tolerada quando um estimulante é necessário. Atomoxetina e agonistas alfa-2 também têm papel importante.
Nos casos com transtorno obsessivo-compulsivo, a terapia cognitivo-comportamental com exposição e prevenção de resposta é a base do tratamento. Quando necessário, podem ser associados inibidores seletivos da recaptação de serotonina ou clomipramina, conforme o perfil clínico e a gravidade.
De forma geral, o prognóstico é melhor do que muitos pacientes e famílias imaginam. Os tiques costumam começar entre 3 e 8 anos, agravam-se na terceira infância e tendem a diminuir ao longo da adolescência. Na vida adulta, a maioria apresenta tiques leves ou melhora importante, e apenas uma minoria mantém sintomas moderadamente debilitantes.
Mesmo assim, o acompanhamento deve ser individualizado, porque o curso é variável e o impacto psicossocial pode ser relevante, especialmente quando coexistem ansiedade, depressão, transtorno obsessivo-compulsivo ou transtorno do déficit de atenção com hiperatividade.
O encaminhamento para neurologia infantil, neuropediatria, psiquiatria da infância e adolescência ou equipe especializada deve ser considerado quando houver:
A síndrome de Tourette é uma condição clínica mais ampla do que a presença de tiques visíveis. O diagnóstico continua sendo essencialmente clínico, com base em anamnese cuidadosa e exame neurológico normal na maior parte dos casos. O manejo adequado passa por educação, redução do estigma, investigação de comorbidades e indicação criteriosa de terapia comportamental e farmacológica.
Para o médico, o ponto central é lembrar que nem todo paciente com Tourette precisa de medicamento, mas quase todo paciente precisa de escuta qualificada, orientação correta e avaliação global do funcionamento.
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Gabriel Henriques Amorim é médico (CRM-SP 272307), especialista em Educação na Saúde pela USP e residente de Medicina de Família e Comunidade no Hospital das Clínicas da FMUSP. No blog da Manole, compartilha conteúdos práticos, baseados em evidências, voltados para o dia a dia do cuidado em saúde.
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