Introdução
A tontura é uma queixa comum e desafiadora. O mesmo termo pode ser usado pelo paciente para descrever vertigem, desequilíbrio, pré-síncope, instabilidade ou sensação inespecífica de cabeça “leve”.
Segundo o BMJ Best Practice, tontura é a sensação de orientação espacial perturbada sem uma sensação distorcida de movimento. Já a vertigem é a sensação de automovimento distorcido, ocorrendo em repouso ou durante movimento normal da cabeça.
O ponto central da avaliação é não depender apenas da palavra usada pelo paciente, mas entender tempo de duração, gatilhos, sintomas associados e sinais neurológicos.
Tipos de tontura
| Termo |
Como o paciente pode descrever |
Causas comuns |
| Vertigem |
Sensação de rotação ou movimento |
VPPB, neurite vestibular, labirintite, Ménière, AVC posterior |
| Pré-síncope |
Sensação de desmaio iminente |
Hipotensão ortostática, arritmias, causas cardiovasculares |
| Desequilíbrio |
Instabilidade ao andar |
Neuropatias, doenças cerebelares, causas neurológicas |
| Tontura inespecífica |
Balanço, flutuação, sensação de estar “nadando” |
Tontura psicogênica, TPPP, ansiedade, causas mistas |
Mais de 60% dos pacientes apresentam mais de um tipo de tontura, o que reforça a importância de uma anamnese estruturada.
Perguntas que mudam o diagnóstico
| Pergunta |
Por que importa |
| A tontura é contínua ou episódica? |
Diferencia síndromes vestibulares agudas e episódicas |
| Quanto tempo dura? |
Segundos, minutos, horas ou dias sugerem causas diferentes |
| Há gatilho posicional? |
Sugere VPPB |
| Há perda auditiva ou zumbido? |
Sugere labirintite, Ménière ou causas otológicas |
| Há cefaleia, fotofobia ou fonofobia? |
Sugere enxaqueca vestibular |
| Há dor torácica, palpitações ou dispneia? |
Sugere causa cardiovascular |
| Há diplopia, disartria, fraqueza ou ataxia? |
Sugere causa central, como AVC |
| Ocorre ao levantar? |
Sugere hipotensão ortostática ou taquicardia postural |
Principais causas vestibulares
| Condição |
Pistas clínicas |
| VPPB |
Vertigem com mudança da posição da cabeça, como virar na cama ou olhar para cima |
| Neurite vestibular |
Vertigem aguda, sem perda auditiva ou zumbido |
| Labirintite |
Vertigem associada a sintomas auditivos, como zumbido e perda auditiva |
| Doença de Ménière |
Vertigem, perda auditiva, zumbido e plenitude aural |
| TPPP |
Tontura ou instabilidade na maioria dos dias por 3 meses ou mais |
A vertigem posicional paroxística benigna é uma das causas mais comuns de vertigem. O teste de Dix-Hallpike pode provocar nistagmo torsional para cima quando o canal posterior está envolvido.
Doença de Ménière
A apresentação clássica inclui:
| Achado |
Característica |
| Vertigem |
Ataques espontâneos de 20 minutos a 12 horas |
| Perda auditiva |
Neurossensorial, de baixa a média frequência |
| Zumbido |
Frequentemente descrito como “rugido” |
| Plenitude aural |
Sensação de pressão ou ouvido cheio |
Enxaqueca vestibular
A enxaqueca vestibular é uma causa comum de vertigem e tontura. Pode ocorrer em pacientes com história pessoal ou familiar de enxaqueca.
| Pista |
Interpretação |
| Cefaleia associada |
Sugere migrânea |
| Fotofobia e fonofobia |
Reforçam hipótese |
| Náuseas e fadiga |
Frequentes |
| Episódios de minutos a dias |
Duração variável |
Causas cardiovasculares
A tontura de origem cardiovascular pode se apresentar como pré-síncope, mas também pode ser relatada como vertigem.
| Causa |
Pistas clínicas |
| Hipotensão ortostática |
Tontura ao levantar, melhora ao sentar ou deitar |
| Arritmias |
Palpitações, síncope, sintomas súbitos |
| Isquemia |
Dor torácica, dispneia, fatores de risco |
| Embolia pulmonar |
Dispneia, dor torácica, taquicardia, risco tromboembólico |
| Anemia |
Fadiga, dispneia aos esforços, fraqueza |
A hipotensão ortostática é definida por queda da pressão sistólica de pelo menos 20 mmHg ou da diastólica de pelo menos 10 mmHg em até 3 minutos após ortostatismo. A pressão e o pulso devem ser medidos após 1 e 3 minutos em pé.
Quando pensar em AVC de circulação posterior?
O AVC de circulação posterior pode mimetizar neurite vestibular. Esse é um dos pontos mais importantes da avaliação.
| Sinal de alerta |
Por que preocupa |
| Fraqueza unilateral |
Sugere lesão central |
| Disartria |
Sinal neurológico focal |
| Diplopia |
Sugere acometimento de tronco encefálico |
| Ataxia de marcha ou de membro |
Sugere cerebelo ou tronco |
| Nistagmo multidirecional |
Sugere causa central |
| Dormência facial |
Pode ocorrer em lesões de tronco |
| Síndrome de Horner |
Pista de síndrome de Wallenberg |
| Incapacidade de ficar em pé sem apoio |
Mais comum em lesão central grave |
Pacientes com neurite vestibular ou labirintite geralmente conseguem ficar em pé com apoio visual. A incapacidade de permanecer em pé mesmo com olhos abertos deve aumentar a suspeita de causa central.
Exames complementares
| Situação |
Exame possível |
| Suspeita de VPPB |
Manobra de Dix-Hallpike |
| Suspeita cardiovascular |
ECG, pressão ortostática, exames conforme hipótese |
| Suspeita de AVC |
TC sem contraste inicialmente e RNM quando indicada |
| Suspeita otológica |
Avaliação auditiva e otoneurológica |
| Suspeita metabólica |
Glicemia, hemograma e exames dirigidos |
Conclusão prática
A avaliação da tontura deve sair da pergunta “é labirintite?” e avançar para um raciocínio por padrão temporal, gatilhos e sinais associados.
Na prática, diferencie tontura episódica posicional, vertigem aguda contínua, pré-síncope ao levantar e desequilíbrio neurológico. E nunca ignore sinais de alerta como diplopia, disartria, ataxia, fraqueza unilateral, cefaleia intensa ou incapacidade de ficar em pé sem apoio.
Referência bibliográfica: BMJ Best Practice. Avaliação da tontura. Última atualização: 18 ago. 2026.
Gabriel Henriques Amorim é médico (CRM-SP 272307), especialista em Educação na Saúde pela USP e residente de Medicina de Família e Comunidade no Hospital das Clínicas da FMUSP. No blog da Manole, compartilha conteúdos práticos, baseados em evidências, voltados para o dia a dia do cuidado em saúde.