Os sintomas vasomotores da menopausa, especialmente ondas de calor e sudorese noturna, acometem grande parte das mulheres durante a transição menopausal e após a menopausa. Segundo o artigo do JAMA Internal Medicine, pelo menos 75% das mulheres em países ocidentais relatam esses sintomas em algum momento desse período. Embora a terapia com estrogênio siga sendo a estratégia com maior eficácia, o tratamento não hormonal para sintomas vasomotores da menopausa ganhou espaço por atender pacientes com contraindicação ao uso de hormônios ou que preferem evitá-los.
Quando indicar tratamento não hormonal na menopausa
O tratamento não hormonal deve entrar na conversa clínica principalmente em três cenários: quando há contraindicação à terapia hormonal, quando a paciente prefere não usar hormônios e quando o perfil de risco ou a tolerabilidade tornam outras abordagens mais adequadas. O próprio artigo da JAMA destaca que a decisão costuma ser dificultada pela falta de comparações diretas entre estratégias, pelas dúvidas sobre efeitos adversos de curto e longo prazo e pela confusão em torno de terapias alternativas com benefício incerto.
O que o artigo da JAMA mostra sobre eficácia
A revisão publicada no JAMA Internal Medicine resume as principais opções com evidência para tratamento não hormonal dos sintomas vasomotores e compara a redução de sintomas em relação ao placebo ou ao cuidado usual. Um ponto importante para o médico é interpretar esses números como reduções adicionais relativas, e não como equivalência à terapia hormonal, já que o estrogênio permanece como a intervenção mais eficaz, com redução média aproximada de 75% na frequência dos sintomas em relação ao placebo.
Principais opções não hormonais para sintomas vasomotores da menopausa
| Classe / tratamento |
Dose |
Eficácia relatada |
Pontos de atenção |
| Paroxetina |
7,5 mg à noite |
~10% a 25% de redução adicional |
Sonolência, ganho de peso, redução da libido; interação com tamoxifeno; atenção à pressão arterial |
| Citalopram |
10 a 30 mg/dia |
~5% a 35% |
Sonolência, ganho de peso, redução da libido, hipertensão |
| Desvenlafaxina |
100 mg/dia |
~15% a 25% |
Insônia, náusea, redução da libido, hipertensão |
| Escitalopram |
10 a 20 mg/dia |
~20% |
Sonolência, ganho de peso, redução da libido, hipertensão |
| Venlafaxina |
37,5 a 75 mg/dia |
~10% a 25% |
Insônia, náusea, redução da libido, hipertensão |
| Fezolinetante |
45 mg/dia |
~20% a 25% |
Dados limitados de segurança em longo prazo; monitorização hepática exigida |
| Gabapentina |
300 a 800 mg, 3x/dia |
~10% a 20% |
Sonolência, tontura, ganho de peso; efeito dependente da dose |
| Pregabalina |
75 a 150 mg, 2x/dia |
~15% a 25% |
Boca seca, tontura, constipação, sonolência |
| Oxibutinina |
2,5 a 5 mg, 2x/dia |
~30% a 50% |
Boca seca, constipação, sonolência; possível delirium em idosos |
| Clonidina |
0,025 a 0,1 mg/dia |
~10% a 20% |
Tontura e hipotensão |
| Terapia cognitivo-comportamental |
Várias formas |
~15% a 25% |
Acesso limitado a profissionais treinados |
| Hipnose clínica |
Sessões semanais |
~45% a 55% |
Evidência concentrada em poucos estudos e baixa disponibilidade |
Antidepressivos: onde costumam ajudar mais
Os inibidores seletivos da recaptação de serotonina e os inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina estão entre as opções mais estudadas. A paroxetina é descrita como uma opção não hormonal aprovada pela agência reguladora dos Estados Unidos, em formulação de 7,5 mg/dia. Além da redução dos fogachos, o artigo ressalta que a paroxetina em baixa dose pode oferecer benefício adicional em alterações de sono e humor, que frequentemente coexistem com os sintomas vasomotores.
Outros medicamentos da mesma linha, como citalopram, escitalopram, venlafaxina e desvenlafaxina, também aparecem como alternativas úteis fora de bula. Um dado interessante do texto é que poucos estudos compararam diretamente essas medicações com estradiol, mas reduções semelhantes na frequência de fogachos foram observadas com escitalopram e venlafaxina em relação a baixa dose de estradiol oral.
Quando pensar em antidepressivos na prática
| Situação clínica |
Opção que pode fazer sentido |
Racional clínico |
| Fogachos + piora do sono |
Paroxetina |
Pode ajudar em sintomas vasomotores e distúrbios do sono |
| Fogachos + humor deprimido ou ansiedade |
Escitalopram, venlafaxina, desvenlafaxina |
Pode haver benefício duplo sobre sintomas vasomotores e sintomas emocionais |
| Paciente em uso de tamoxifeno |
Evitar paroxetina |
Interação medicamentosa relevante citada no artigo |
Fezolinetante: nova classe, nova lógica terapêutica
O fezolinetante é um antagonista do receptor de neurocinina 3 aprovado em 2023 nos Estados Unidos. Seu diferencial é atuar em mecanismos hipotalâmicos de termorregulação envolvidos nos sintomas vasomotores. Nos estudos publicados, o medicamento mostrou redução adicional de aproximadamente 20% a 25% na frequência de sintomas moderados a intensos em comparação com placebo.
Na prática, o fezolinetante chama atenção por oferecer uma alternativa direcionada ao mecanismo fisiopatológico dos fogachos sem uso de hormônios. Porém, a revisão alerta para a limitação de dados de segurança em longo prazo. Além disso, após um caso pós-comercialização de lesão hepática grave e outros casos de elevação moderada de enzimas hepáticas, a agência reguladora norte-americana passou a recomendar avaliação da função hepática antes do tratamento, mensalmente nos três primeiros meses e novamente nos meses 6 e 9.
Gabapentina, oxibutinina e clonidina: ainda valem a pena?
A gabapentina segue como alternativa relevante, sobretudo quando há predomínio de sintomas noturnos ou queixa de sono ruim. Seu benefício é mais modesto que o da terapia hormonal, mas pode ser clinicamente útil em perfis selecionados. O problema costuma ser a tolerabilidade, especialmente sonolência, tontura e ganho de peso.
A oxibutinina se destaca por apresentar uma das maiores magnitudes de redução de sintomas entre as opções não hormonais citadas, variando de 30% a 50% além do placebo. Mesmo assim, seus efeitos anticolinérgicos limitam o uso em muitas pacientes, especialmente idosas, pelo risco de boca seca, constipação, sonolência e possível delirium.
A clonidina, por sua vez, aparece com efeito mais discreto e tende a ser menos atraente quando se ponderam tontura e hipotensão.
Terapias comportamentais: não devem ser esquecidas
O texto do JAMA também traz duas abordagens não farmacológicas com respaldo científico. A terapia cognitivo-comportamental mostrou redução aproximada de 15% a 25% dos sintomas em comparação com cuidado usual ou ausência de tratamento. Já a hipnose clínica apresentou reduções maiores, de cerca de 45% a 55%, frente a controle estruturado.
Esses dados reforçam que o manejo não hormonal não precisa se limitar à prescrição. Para algumas pacientes, especialmente aquelas que querem evitar medicamentos ou apresentam efeitos adversos com terapias farmacológicas, intervenções comportamentais podem ser parte importante do plano terapêutico. A limitação maior costuma ser o acesso a profissionais capacitados.
Como escolher o melhor tratamento não hormonal para cada paciente
A escolha da melhor opção depende menos de “qual remédio é mais forte” e mais de combinar eficácia possível com perfil clínico individual. Em geral:
| Perfil da paciente |
Opções que podem ser mais interessantes |
O que considerar |
| Não quer hormônios, sem comorbidades complexas |
Escitalopram, venlafaxina, paroxetina, fezolinetante |
Preferência, custo, acesso e perfil de efeitos adversos |
| Fogachos noturnos e insônia |
Paroxetina, gabapentina |
Sonolência pode ser útil ou indesejável, dependendo do caso |
| História de câncer de mama em uso de tamoxifeno |
Evitar paroxetina |
Atenção para interação medicamentosa |
| Paciente idosa, maior fragilidade cognitiva |
Evitar ou usar muita cautela com oxibutinina |
Potencial efeito anticolinérgico e risco de delirium |
| Desejo de abordagem não medicamentosa |
Terapia cognitivo-comportamental ou hipnose clínica |
Disponibilidade local e adesão |
O que esse tema ensina para a prática clínica
Há tratamento não hormonal eficaz para sintomas vasomotores da menopausa, mas nenhuma opção é perfeita. Antidepressivos, fezolinetante, gabapentina, oxibutinina, terapia cognitivo-comportamental e hipnose clínica podem ser úteis, desde que se respeitem o perfil da paciente, as comorbidades, as interações medicamentosas e a tolerabilidade.
Para o consultório, a melhor estratégia costuma ser individualizar. Em vez de apresentar apenas uma lista de alternativas, faz mais sentido discutir com a paciente qual sintoma pesa mais, quais riscos ela aceita, quais efeitos adversos são mais problemáticos e qual abordagem combina melhor com seus valores e contexto de vida.
Referência bibliográfica
Huang AJ, Faubion S, Grady D. Nonhormonal Treatment of Menopausal Vasomotor Symptoms. JAMA Internal Medicine. 2025;185(7):874-875. doi:10.1001/jamainternmed.2025.0990.
Gabriel Henriques Amorim é médico (CRM-SP 272307), especialista em Educação na Saúde pela USP e residente de Medicina de Família e Comunidade no Hospital das Clínicas da FMUSP. No blog da Manole, compartilha conteúdos práticos, baseados em evidências, voltados para o dia a dia do cuidado em saúde.