Clínica Médica
Catarata: sintomas, diagnóstico e quando indicar cirurgia
Introdução A catarata é uma das causas mais importantes de perda visual no mundo e, ao mesmo tempo, uma das…
A comunicação com crianças e adolescentes é uma habilidade essencial na prática médica. Embora muitos atendimentos pediátricos sejam mediados pelos pais ou responsáveis, o cuidado verdadeiramente centrado na criança exige que o profissional reconheça o paciente pediátrico como sujeito ativo da própria saúde.
O artigo do BMJ propõe uma abordagem prática para tornar a consulta mais centrada na criança: cumprimentar, engajar, envolver e compartilhar decisões. Esses quatro passos ajudam a construir confiança, reduzir ansiedade e permitir que crianças e adolescentes participem de forma realista do cuidado.
Em resumo: para comunicar-se melhor com crianças e jovens, o profissional deve perguntar, escutar com atenção, demonstrar curiosidade e explicar de forma clara, acessível e não infantilizada.
O cuidado centrado na criança significa colocar crianças e adolescentes no centro das decisões, da comunicação e das ações clínicas. Isso envolve reconhecer suas experiências, perspectivas, medos, preferências e prioridades.
Na pediatria, existe uma assimetria de poder importante: o profissional é adulto, tem autoridade técnica e costuma se dirigir aos responsáveis. Isso pode fazer com que a criança fique distante, excessivamente obediente ou pouco à vontade para expressar necessidades reais.
Por isso, a comunicação centrada na criança busca criar um ambiente em que ela se sinta segura para participar.
Falar diretamente com a criança não significa excluir os pais. Pelo contrário: significa incluir todos, mas sem transformar a criança em espectadora da própria consulta.
| Quando o médico fala diretamente com a criança | Possível efeito |
| Cumprimenta pelo nome | Reduz a distância e reconhece a criança como pessoa |
| Faz perguntas adequadas à idade | Estimula participação e autonomia |
| Explica procedimentos | Reduz medo e aumenta cooperação |
| Escuta preferências | Melhora vínculo e adesão |
| Inclui nas decisões práticas | Aumenta sensação de controle e confiança |
Mesmo crianças pequenas podem contribuir com informações importantes quando recebem oportunidade e linguagem adequada.
O artigo organiza a comunicação com crianças e adolescentes em quatro passos consecutivos, que podem ser adaptados conforme a situação clínica.
| Passo | Objetivo |
| 1. Cumprimentar | Colocar a criança no centro desde o início |
| 2. Engajar | Criar vínculo antes de abordar sintomas |
| 3. Envolver | Permitir que a criança conte sua história |
| 4. Compartilhar decisões | Incluir preferências e escolhas possíveis |
A consulta começa antes da anamnese. O modo como o profissional cumprimenta a criança define o tom da interação.
O ideal é cumprimentar a criança diretamente, mesmo quando ela está acompanhada. Isso mostra que ela não será tratada apenas como objeto da conversa entre adultos.
| Estratégia | Como aplicar |
| Fazer contato visual | Olhar para a criança, não apenas para os pais |
| Usar gestos acolhedores | Acenar, sorrir, demonstrar abertura corporal |
| Conferir o nome | Verificar se está pronunciando corretamente |
| Adaptar tom de voz | Ser amigável, mas respeitoso |
| Ter paciência | Dar tempo para a criança responder |
| Reconhecer espera ou desconforto | “Desculpa por ter deixado você esperando” |
Em crianças maiores e adolescentes, pode ser adequado também perguntar como preferem ser chamados e, quando pertinente, quais pronomes utilizam.
O uso do primeiro nome pode reduzir a distância de poder e facilitar a memorização. Crianças tendem a lembrar melhor nomes simples do que sobrenomes ou títulos longos.
Exemplo:
“Oi, João. Eu sou a Ana, médica aqui do pronto atendimento. Você pode me chamar de Dra. Ana. Quero primeiro conversar um pouco com você e depois também vou ouvir sua mãe, combinado?”
Essa abordagem sinaliza que a criança será ouvida desde o início.
Algumas crianças podem se desconectar se forem colocadas “sob pressão” logo no início. Isso é especialmente importante em crianças pequenas, autistas ou com dificuldades de aprendizagem.
Nesses casos, o profissional pode:
| Conduta | Benefício |
| Aproximar-se de forma lenta e previsível | Reduz ansiedade |
| Usar brinquedos ou objetos de interesse | Facilita interação |
| Observar a resposta da criança | Ajusta a comunicação |
| Evitar perguntas imediatas em excesso | Diminui sensação de cobrança |
| Adaptar o ambiente | Torna o consultório menos ameaçador |
Às vezes, o mais importante não é apenas o que o médico diz, mas como diz: tom de voz, postura corporal, pausas, expressões faciais e ritmo da fala.
Ambientes de saúde podem ser assustadores e imprevisíveis para crianças. Por isso, antes de começar perguntas sobre dor, febre, vômitos ou procedimentos, pode ser útil criar uma breve conexão.
Conversar sobre temas não médicos, brincar ou demonstrar interesse genuíno ajuda a criança a relaxar e reduz barreiras de comunicação.
O artigo sugere usar elementos simples, como idade, aniversário, escola, roupas, esportes, jogos, objetos pessoais ou experiências anteriores com serviços de saúde.
| Tema | Exemplo de pergunta |
| Idade ou aniversário | “Vi aqui que você tem 8 anos. Já está chegando seu aniversário?” |
| Escola | “Qual é a melhor parte da escola para você?” |
| Esportes | “Essa camiseta é do seu time? Você joga também?” |
| Jogos ou tablet | “Qual jogo você mais gosta?” |
| Cidade ou bairro | “O que você mais gosta de fazer onde mora?” |
| Hospital | “Você já veio ao hospital antes? Como foi?” |
| Rede de apoio | “Quando você tem um problema, com quem costuma conversar?” |
Essas perguntas não são perda de tempo: elas ajudam a construir confiança para a parte clínica da consulta.
Crianças relatam que profissionais de saúde costumam ser melhores em fazer perguntas do que em ouvir as respostas. Por isso, é importante demonstrar escuta ativa.
| Escuta passiva | Escuta ativa |
| Apenas esperar a criança terminar | Mostrar interesse real pelo que ela disse |
| Fazer nova pergunta rapidamente | Retomar palavras usadas pela criança |
| Olhar para o computador | Manter contato visual e postura atenta |
| Ignorar conquistas ou medos | Validar experiências e emoções |
| Falar só com os pais depois | Trazer a criança de volta à conversa |
Exemplo:
“Você disse que ficou com medo quando viu a agulha. Faz sentido. Muita gente sente isso. Me conta o que costuma ajudar você nessas horas?”
Em crianças pequenas ou menos verbais, atividades lúdicas podem facilitar a conversa. O objetivo não é “distrair apenas”, mas construir um canal de comunicação.
| Atividade | Possível uso clínico |
| Desenho ou pintura | Ajudar a criança a expressar sintomas ou medos |
| Bolhas de sabão | Reduzir ansiedade e observar respiração |
| Bonecos ou ursinhos | Explicar exame físico ou procedimento |
| Estetoscópio de brinquedo | Permitir que a criança explore o instrumento |
| Livros ilustrados | Explicar etapas do atendimento |
| Música ou canto | Criar familiaridade e conforto |
Mesmo quando a criança foi cumprimentada e engajada, é comum que, na hora da anamnese “de verdade”, o profissional se volte aos pais. Isso pode fazer a criança se sentir excluída e pouco importante.
A recomendação é envolver a criança o máximo possível, respeitando idade, desenvolvimento, contexto, condição clínica e desejo de participar.
| Objetivo | Frase possível |
| Pedir permissão para perguntar | “Posso te fazer algumas perguntas sobre o que está acontecendo?” |
| Reduzir ansiedade | “Não é uma prova. Não tem resposta errada.” |
| Começar com pergunta aberta | “O que trouxe você aqui hoje?” |
| Explorar sintomas | “Como você tem se sentido?” |
| Permitir ajuda dos pais | “Se você não souber, sua mãe pode ajudar.” |
| Checar compreensão | “Isso fez sentido para você?” |
| Abrir espaço para dúvidas | “Tem alguma coisa que você queria me perguntar?” |
A comunicação deve ser acessível, sem ser condescendente. Isso significa evitar jargões técnicos ou explicá-los quando forem necessários.
| Em vez de dizer | Prefira dizer |
| “Vamos fazer uma punção venosa” | “Vamos pegar um pouco de sangue com uma agulha pequena” |
| “Você está taquicárdico” | “Seu coração está batendo mais rápido” |
| “Você precisa de analgesia” | “Vamos te dar um remédio para melhorar a dor” |
| “Vamos investigar etiologia infecciosa” | “Queremos entender se algum germe está causando isso” |
Para crianças menores, recursos visuais, desenhos, metáforas e explicações passo a passo podem ajudar bastante.
Mesmo quando os responsáveis fornecem informações importantes, o profissional pode manter a criança dentro da conversa.
Exemplo:
Mãe: “Ela vomitou cinco vezes hoje de manhã.”
Médico, olhando para a criança:
“Nossa, isso deve ter sido muito ruim. Você está se sentindo um pouco melhor agora?”
Essa pequena intervenção mostra que a criança continua sendo o centro do cuidado.
Envolver a criança não termina na anamnese. Sempre que possível, ela deve participar das decisões sobre seu cuidado.
Isso não significa transferir para a criança a responsabilidade por decisões complexas. O artigo diferencia dois tipos de decisão:
| Tipo de decisão | Exemplo | Como a criança pode participar |
| Técnica | Fazer ou não um exame ou tratamento | Receber explicação clara, expressar dúvidas e preferências |
| Prática | Como, quando ou com quem o procedimento será feito | Escolher braço para coleta, posição, presença dos pais, horário, forma do medicamento |
Crianças tendem a buscar orientação dos pais e profissionais em decisões técnicas, mas podem se sentir mais confiantes em decisões práticas.
| Situação | Escolhas possíveis |
| Coleta de sangue | Qual braço tentar primeiro, sentar ou deitar |
| Medicação | Comprimido, líquido ou outra forma disponível |
| Exame físico | Ordem das etapas, presença do responsável |
| Procedimento doloroso | Estratégias para alívio da dor e distração |
| Plano terapêutico | Melhor horário para tomar remédio |
| Internação | Objeto de conforto, rotina, quem ficará presente |
Dar escolhas reais aumenta a sensação de controle e pode melhorar cooperação.
Um ponto importante é evitar garantias absolutas que podem não se confirmar, como:
“Não vai doer nada.”
Ou:
“Vai ser só uma tentativa.”
Se isso não acontecer, a confiança pode ser prejudicada.
Prefira:
“Pode incomodar um pouco, mas eu vou te explicar tudo antes e a gente vai tentar fazer do jeito mais tranquilo possível.”
Ou:
“Vamos tentar uma vez com bastante cuidado. Se não der certo, eu te explico antes do próximo passo.”
| Pergunta para o profissional | Objetivo |
| Eu cumprimentei a criança diretamente? | Reconhecer protagonismo |
| Eu expliquei quem sou de forma compreensível? | Reduzir distância |
| Eu fiz alguma conexão antes da anamnese? | Criar vínculo |
| Eu falei primeiro com a criança quando possível? | Estimular participação |
| Eu usei linguagem clara? | Melhorar compreensão |
| Eu chequei se ela entendeu? | Evitar confusão |
| Eu ouvi os pais sem excluir a criança? | Integrar perspectivas |
| Eu ofereci escolhas reais? | Compartilhar decisões |
| Eu perguntei sobre dúvidas ou medos? | Aumentar segurança |
| Eu resumi o plano para a criança? | Fortalecer adesão |
A comunicação centrada na criança pode desafiar hábitos antigos da prática médica. Muitos profissionais foram treinados a conversar principalmente com adultos responsáveis, especialmente em contextos de urgência, tempo curto ou decisões complexas.
Além disso, os pais podem preferir proteger a criança de informações difíceis. No entanto, crianças e adolescentes costumam perceber pistas não verbais, silêncios e mudanças de comportamento dos adultos. Quando ficam “no escuro”, podem imaginar cenários ainda piores.
Por isso, a honestidade cuidadosa costuma ser melhor do que o silêncio ou a omissão.
| Evite | Por quê? |
| Falar apenas com os pais | Faz a criança se sentir invisível |
| Usar linguagem técnica sem explicar | Aumenta medo e confusão |
| Infantilizar adolescentes | Prejudica vínculo |
| Prometer ausência total de dor | Pode quebrar confiança |
| Fazer escolhas simbólicas sem valor real | Crianças percebem participação “de fachada” |
| Ignorar medos ou preferências | Reduz cooperação |
| Conversar secretamente com os pais sem necessidade | Pode gerar desconfiança |
Adolescentes podem desejar mais privacidade, autonomia e respeito à identidade. Por isso, a comunicação deve ser ainda mais cuidadosa para não soar infantilizante.
Algumas atitudes importantes:
| Estratégia | Exemplo |
| Perguntar como prefere ser chamado | “Qual nome você prefere que eu use?” |
| Reconhecer autonomia progressiva | “Quero ouvir primeiro como você entende o que está acontecendo.” |
| Garantir espaço de fala | “Tem algo que você queria conversar sem seus pais por perto?” |
| Usar linguagem direta | Evitar diminutivos ou tom infantil |
| Checar preferências | “Você prefere que eu explique isso para você primeiro ou junto com sua mãe?” |
| Passo | Frase-chave |
| Cumprimentar | “Oi, eu sou a Dra. Ana. Como você prefere que eu te chame?” |
| Engajar | “Antes de falar da dor, me conta: o que você gosta de fazer?” |
| Envolver | “Posso te fazer algumas perguntas sobre o que aconteceu?” |
| Compartilhar decisões | “Tem algumas formas de fazer isso. Vou te explicar e quero saber o que você prefere.” |
A comunicação com crianças e adolescentes não deve ser vista como um detalhe da consulta, mas como parte central do cuidado. Cumprimentar, engajar, envolver e compartilhar decisões são passos simples que ajudam a reduzir ansiedade, fortalecer vínculo e tornar o paciente pediátrico participante ativo do próprio cuidado.
Mesmo em consultas rápidas, é possível colocar a criança no centro: olhar para ela, chamá-la pelo nome, escutar sua versão, explicar de forma clara e oferecer escolhas reais sempre que possível.
Referência: Davison G, Conn R, Kelly MA, Thompson A, Dornan T. Fifteen-minute consultation: Guide to communicating with children and young people. BMJ/Archives of Disease in Childhood: Education & Practice Edition. 2023;108:91–95.

Gabriel Henriques Amorim é médico (CRM-SP 272307), especialista em Educação na Saúde pela USP e residente de Medicina de Família e Comunidade no Hospital das Clínicas da FMUSP. No blog da Manole, compartilha conteúdos práticos, baseados em evidências, voltados para o dia a dia do cuidado em saúde.
Clínica Médica
Introdução A catarata é uma das causas mais importantes de perda visual no mundo e, ao mesmo tempo, uma das…
Ginecologia e Obstetrícia
Introdução A incontinência urinária em mulheres é definida como a perda involuntária de urina. Apesar de ser uma condição comum,…