Novo Estatuto dos Direitos do Paciente: o que muda na prática para médicos
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A forma como o médico inicia uma consulta influencia diretamente a qualidade da entrevista clínica, a confiança do paciente, a adesão ao plano terapêutico e até a eficiência do atendimento. Em especial na Atenção Primária à Saúde e na Medicina de Família e Comunidade, onde a longitudinalidade é uma dimensão central do cuidado, o início da relação terapêutica não é apenas uma etapa protocolar: é uma intervenção clínica.
O Francisco Borrell Carrió propõe que uma boa entrevista começa antes mesmo de o paciente entrar no consultório. O autor destaca que o estado emocional do profissional, o domínio do ambiente assistencial, a leitura prévia dos dados do paciente e a capacidade de acolher as demandas iniciais são elementos fundamentais para construir uma consulta mais segura, humana e efetiva.
Muitas vezes, o médico associa a entrevista clínica apenas à coleta de dados: queixa principal, história da doença atual, antecedentes, exame físico e plano terapêutico. No entanto, a consulta também é um encontro relacional. Nela, o paciente avalia se pode confiar no profissional, se será escutado, se suas preocupações serão levadas a sério e se há espaço para participar das decisões.
Segundo Borrell Carrió, a entrevista clínica envolve três tarefas simultâneas: estabelecer uma relação interpessoal, obter dados para o diagnóstico e propor um plano educativo e terapêutico. Essas tarefas não acontecem de forma isolada. Uma relação inicial ruim pode prejudicar a qualidade das informações obtidas, gerar resistência, aumentar conflitos e comprometer a adesão ao tratamento.
Por isso, iniciar bem uma consulta não significa apenas ser simpático. Significa criar condições para que o encontro clínico aconteça com atenção, respeito, organização e intencionalidade.
Um dos principais ensinamentos do capítulo é que o médico precisa observar a si mesmo antes de observar o paciente. O autor chama atenção para perguntas simples, mas frequentemente negligenciadas: como está meu humor? Estou atento ou distraído? Estou cansado? Estou irritado? Estou funcionando no automático?
Essas questões são importantes porque o estado emocional do profissional aparece na consulta. Ele se expressa no tom de voz, na postura corporal, na impaciência, no olhar, na forma de interromper e até na maneira como o médico lida com demandas repetidas.
Na prática médica, especialmente em agendas cheias, é comum que o profissional chegue à consulta pressionado por atrasos, excesso de demandas, tarefas administrativas e interrupções. Esse contexto pode favorecer respostas defensivas, impessoais ou pouco empáticas. O problema é que o paciente percebe esses sinais, mesmo quando eles são sutis.
Borrell Carrió descreve a ideia da lei do eco emocional: o clima emocional que o médico oferece tende a retornar na relação. Quando o profissional inicia o encontro com hostilidade, frieza ou pressa, aumenta a chance de receber resistência, tensão ou desconfiança. Quando oferece cordialidade, presença e respeito, favorece colaboração.
O primeiro minuto da consulta é decisivo. Nesse momento, o paciente identifica se terá espaço para falar ou se será rapidamente enquadrado em um fluxo burocrático. Pequenos gestos podem modificar profundamente o clima do encontro: chamar o paciente pelo nome, olhar para ele, cumprimentá-lo com atenção, explicar quando for necessário revisar o prontuário e evitar começar a consulta exclusivamente olhando para o computador.
Isso não significa abandonar o prontuário eletrônico. Pelo contrário: revisar dados prévios pode ser uma atitude de cuidado. O ponto central é comunicar ao paciente que ele continua sendo a prioridade.
Uma forma simples de fazer isso é dizer:
“Bom dia, Dona Maria. Vou revisar rapidamente seu histórico para entender melhor o contexto, mas quero ouvir com calma o que trouxe a senhora hoje.”
Essa frase organiza a consulta, legitima o uso do prontuário e preserva a centralidade do paciente.
Um erro comum no início da consulta é presumir o motivo do atendimento. Perguntas como “está aqui por causa da pressão?” ou “veio renovar a receita?” podem parecer eficientes, mas correm o risco de reduzir a agenda do paciente à hipótese do médico.
Borrell Carrió propõe que o profissional delimite claramente a demanda, perguntando de forma aberta o que trouxe o paciente à consulta. Além disso, recomenda investigar precocemente se há outras questões a serem abordadas. Essa estratégia ajuda a evitar as chamadas demandas aditivas, isto é, problemas que aparecem no final da consulta, quando o tempo já acabou.
Na prática, perguntas úteis incluem:
“O que o trouxe aqui hoje?”
“Tem mais alguma coisa que gostaria de discutir na consulta de hoje?”
“De tudo isso, o que mais preocupa você agora?”
Ao contrário do que muitos médicos temem, perguntar sobre outras demandas no início não necessariamente torna a consulta mais longa. Frequentemente, torna a consulta mais organizada. O médico pode reconhecer todos os pontos trazidos pelo paciente, priorizar o que é mais relevante e negociar o que será abordado naquele encontro.
Uma boa relação terapêutica exige equilíbrio entre acolhimento e condução. O médico não precisa resolver todas as demandas no mesmo encontro, mas precisa reconhecê-las. Isso é especialmente importante na Atenção Primária, onde uma mesma consulta pode envolver dor crônica, renovação de receita, sofrimento emocional, dúvidas sobre exames, problemas familiares e demandas administrativas.
Uma resposta possível diante de múltiplas demandas seria:
“Entendi. Hoje temos a dor nas costas, a renovação da receita, os exames e a preocupação com a pressão. Pelo tempo que temos, quero garantir que a gente cuide do mais importante com segurança. Vamos começar pelo que mais está preocupando você?”
Essa formulação mostra escuta, organiza o encontro e evita que o paciente sinta que suas demandas foram ignoradas.
Na prática clínica, o acompanhante pode ser fonte importante de informação, apoio e cuidado. Porém, também pode interferir na fala do paciente. O capítulo orienta que o profissional não deve menosprezar o acompanhante, mas também precisa proteger a voz da pessoa atendida.
Uma estratégia útil é reconhecer a contribuição do acompanhante e, em seguida, devolver a palavra ao paciente:
“Obrigado por trazer essas informações. Agora eu queria ouvir como a senhora percebe essa situação.”
Em consultas com crianças, adolescentes, idosos ou pessoas com maior vulnerabilidade, esse manejo é ainda mais importante. A relação terapêutica pode envolver mais de uma pessoa, mas o paciente não deve desaparecer dentro da consulta.
Entre os erros mais comuns no início da consulta estão:
Esses erros podem parecer pequenos, mas têm grande impacto na relação clínica. Um início rude, apressado ou desorganizado pode aumentar resistência, reduzir confiança e dificultar decisões compartilhadas.
É muito comum encontrar pacientes frustrados com o sistema, com filas, encaminhamentos, sintomas persistentes ou tratamentos que não produziram o efeito esperado. O paciente pode chegar dizendo:
“Doutor, eu já vim aqui várias vezes e ninguém resolve nada.”
Uma resposta defensiva tende a piorar o encontro:
“Mas você também não tomou o remédio direito.”
Uma resposta terapêutica reconhece a emoção e reconduz a consulta para objetivos concretos:
“Entendo que isso esteja sendo frustrante. Vamos organizar juntos o que já foi feito e pensar no próximo passo.”
Empatia não significa concordar com tudo. Significa criar uma ponte para que a conversa possa continuar de forma produtiva.
Algumas atitudes simples podem melhorar a abertura do encontro clínico:
Antes do paciente entrar, revise rapidamente dados relevantes do prontuário, especialmente lista de problemas, medicações e últimas evoluções. Observe seu próprio estado emocional e identifique sinais de cansaço ou irritação.
No primeiro minuto, cumprimente o paciente com atenção, olhe para ele e explique caso precise consultar o prontuário. Evite iniciar a consulta com julgamentos, broncas ou perguntas excessivamente fechadas.
Na delimitação da demanda, pergunte o que trouxe o paciente e investigue se há outros pontos a serem abordados. Em seguida, organize a agenda da consulta junto com ele.
Quando houver muitas demandas, reconheça todas, priorize as mais importantes e negocie o que poderá ser resolvido naquele dia. Se necessário, combine retorno ou acompanhamento.
Diante de irritação, frustração ou agressividade, evite responder no mesmo tom. Nomeie a emoção, acolha o sofrimento e reconduza a conversa para objetivos concretos.
Iniciar uma relação terapêutica é uma competência clínica fundamental. O começo da consulta influencia o vínculo, a qualidade da anamnese, o raciocínio diagnóstico, a adesão terapêutica e a segurança do cuidado.
A boa comunicação clínica não depende apenas de gentileza espontânea ou talento pessoal. Ela pode ser aprendida, treinada e aperfeiçoada. Para médicos, residentes e preceptores, esse é um ponto essencial: ensinar a começar bem uma consulta é também ensinar a cuidar melhor.
Na prática, o início da consulta deve responder a uma pergunta central: como criar, desde o primeiro minuto, um encontro em que o paciente se sinta reconhecido e o médico consiga conduzir o cuidado com clareza, empatia e segurança?
BORRELL CARRIÓ, Francisco. Entrevista clínica: habilidades de comunicação para profissionais de saúde. Porto Alegre: Artmed, 2012. cap. 1, “Iniciar uma relação terapêutica”.

Gabriel Henriques Amorim é médico (CRM-SP 272307), especialista em Educação na Saúde pela USP e residente de Medicina de Família e Comunidade no Hospital das Clínicas da FMUSP. No blog da Manole, compartilha conteúdos práticos, baseados em evidências, voltados para o dia a dia do cuidado em saúde.
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