Introdução
O derrame pleural ocorre quando há acúmulo de líquido entre as pleuras visceral e parietal. Embora uma fina camada de líquido seja normal para lubrificação durante a respiração, o excesso indica desequilíbrio entre produção e remoção de líquido.
A apresentação mais comum é dispneia, mas tosse e dor torácica pleurítica também podem ocorrer. A causa subjacente define outros sinais, sintomas e a estratégia de tratamento.
Principais sintomas e achados
| Sintoma/achado |
Interpretação |
| Dispneia |
Manifestação predominante |
| Tosse |
Pode melhorar após drenagem |
| Dor torácica pleurítica |
Sugere inflamação pleural |
| Macicez à percussão |
Indica coleção líquida |
| Redução do murmúrio vesicular |
Achado típico na área do derrame |
| Redução do frêmito tátil |
Sugere líquido pleural |
| Diminuição da transmissão vocal |
Apoia suspeita clínica |
Transudato ou exsudato?
A diferenciação entre transudato e exsudato é central na investigação.
| Tipo |
Mecanismo |
Causas comuns |
| Transudato |
Alteração sistêmica de pressão hidrostática ou oncótica |
Insuficiência cardíaca, cirrose, síndrome nefrótica, hipoalbuminemia |
| Exsudato |
Alteração local por inflamação, infecção, neoplasia ou infarto |
Pneumonia, neoplasia, embolia pulmonar, pleurite autoimune |
Critérios de Light
Um derrame é considerado exsudativo se apresentar pelo menos um dos critérios:
| Critério |
Ponto de corte |
| Proteína pleural/proteína sérica |
>0,5 |
| LDH pleural/LDH sérico |
>0,6 |
| LDH pleural |
Maior que 2/3 do limite superior normal sérico |
Os critérios de Light são sensíveis, mas podem classificar erroneamente alguns transudatos como exsudatos, especialmente em pacientes com insuficiência cardíaca em uso de diuréticos.
Causas principais
| Causa |
Pistas clínicas |
| Insuficiência cardíaca |
Ortopneia, edema, turgência jugular, derrame bilateral |
| Pneumonia |
Febre, tosse produtiva, dor pleurítica |
| Neoplasia |
Perda de peso, tabagismo, idade >50 anos, recorrência |
| Embolia pulmonar |
Dispneia súbita, dor pleurítica, fatores tromboembólicos |
| Cirrose |
Ascite, hidrotórax hepático |
| Tuberculose |
Contexto epidemiológico, febre, sudorese, emagrecimento |
| Doença autoimune |
Artrite reumatoide, lúpus e manifestações sistêmicas |
| Medicamentos |
Inibidores de tirosina quinase, nitrofurantoína, dantroleno e outros |
Diagnóstico por imagem
| Exame |
Papel |
| Radiografia de tórax |
Primeiro exame para confirmar suspeita ou achado incidental |
| Ultrassonografia torácica |
Recomendada em todos os pacientes com suspeita; mais sensível que radiografia |
| Tomografia computadorizada |
Útil para avaliar pleura, pulmão e causas subjacentes |
| Ultrassonografia para procedimento |
Deve guiar toracocentese e drenagem |
A ultrassonografia pode detectar pequenos volumes, caracterizar septações, loculações e líquido ecogênico, além de aumentar a segurança dos procedimentos.
Toracocentese
A toracocentese pode ser diagnóstica e terapêutica.
| Indicação |
Objetivo |
| Causa desconhecida |
Analisar líquido pleural |
| Derrame sintomático |
Alívio de dispneia e tosse |
| Suspeita de infecção |
Avaliar pH, glicose, cultura e necessidade de drenagem |
| Suspeita de neoplasia |
Citologia e investigação adicional |
A toracocentese diagnóstica é indicada quando a causa é desconhecida e deve ser guiada por ultrassonografia.
Análise do líquido pleural
| Parâmetro |
Utilidade |
| Aparência e odor |
Podem sugerir pus, quilotórax ou infecção |
| Proteína e LDH |
Classificação transudato/exsudato |
| Contagem celular |
Perfil inflamatório |
| Glicose |
Baixa em infecção pleural e outras condições |
| pH |
Define risco de derrame parapneumônico complexo |
| Citologia |
Investiga neoplasia |
| Cultura |
Importante em suspeita infecciosa |
Para citologia, volumes maiores aumentam a sensibilidade; idealmente, cerca de 50 mL.
Quando drenar?
No derrame parapneumônico, o pH é decisivo.
| Situação |
Conduta |
| Pus franco |
Dreno intercostal sem demora |
| pH ≤7,20 |
Alto risco de infecção pleural; drenar se houver volume acessível |
| pH >7,2 e <7,4 |
Risco intermediário; considerar LDH, glicose, septações, sepse e volume |
| pH ≥7,4 |
Baixo risco; drenagem imediata geralmente não é necessária |
| Glicose <3,3 mmol/L |
Sugere alta probabilidade de infecção pleural quando pH não está disponível |
Drenos de pequeno calibre, guiados por ultrassonografia, são preferidos em infecção pleural.
Tratamento
| Causa |
Tratamento geral |
| Insuficiência cardíaca |
Tratamento da congestão e doença de base |
| Derrame parapneumônico/empiema |
Antibiótico e drenagem quando indicado |
| Derrame maligno |
Toracocentese terapêutica, pleurodese ou cateter pleural conforme caso |
| Cirrose/hidrotórax hepático |
Manejo da doença hepática; evitar drenagem rotineira |
| Derrame recorrente benigno |
Avaliação especializada, toracoscopia em casos selecionados |
Conclusão prática
O derrame pleural não é um diagnóstico final, mas um sinal de doença subjacente. A abordagem deve confirmar o derrame, caracterizar transudato ou exsudato e identificar a causa.
Na prática, ultrassonografia torácica e toracocentese guiada por imagem são centrais quando a causa não está clara. Em derrames infecciosos, pH, glicose e presença de pus orientam a necessidade de drenagem.
Referência bibliográfica: BMJ Best Practice. Derrame pleural. Última atualização: 14 ago. 2026.
Gabriel Henriques Amorim é médico (CRM-SP 272307), especialista em Educação na Saúde pela USP e residente de Medicina de Família e Comunidade no Hospital das Clínicas da FMUSP. No blog da Manole, compartilha conteúdos práticos, baseados em evidências, voltados para o dia a dia do cuidado em saúde.