Cirurgia
Abdome agudo: como avaliar no PS?
Introdução O abdome agudo é uma das situações mais importantes na prática clínica e no pronto atendimento. Ele se refere…
O novo episódio de fibrilação atrial é uma situação frequente na prática médica e exige avaliação rápida, especialmente porque pode se apresentar desde palpitações leves até instabilidade hemodinâmica, isquemia miocárdica, edema pulmonar ou acidente vascular cerebral.
A fibrilação atrial é uma taquiarritmia supraventricular caracterizada por ativação elétrica atrial descoordenada e contração atrial inefetiva. No eletrocardiograma, os achados típicos são intervalos R-R irregularmente irregulares, ausência de ondas P repetidas distintas e ativações atriais irregulares.
Na prática, deve-se suspeitar de fibrilação atrial quando o paciente apresenta pulso irregularmente irregular, com ou sem sintomas.
O principal sintoma é palpitação, mas o quadro pode ser bastante variável.
| Manifestação | Como pode aparecer |
| Palpitações | Sensação de coração acelerado ou “vibração” no peito |
| Dispneia | Pode refletir frequência ventricular elevada ou doença cardíaca/pulmonar associada |
| Dor ou desconforto torácico | Exige avaliação de isquemia miocárdica |
| Fadiga | Sintoma inespecífico, mas comum |
| Tontura | Pode ocorrer por redução do débito cardíaco |
| Poliúria | Pode decorrer de diurese induzida por taquicardia |
| Pré-síncope ou síncope | Sugere maior repercussão hemodinâmica |
Mesmo pacientes sintomáticos podem ter episódios assintomáticos. Por isso, a avaliação clínica deve combinar história, exame físico e confirmação eletrocardiográfica.
A avaliação inicial deve incluir palpação manual do pulso e realização imediata de ECG de 12 derivações.
| Achado no ECG | Interpretação |
| Ausência de onda P discernível | Sugere perda da atividade atrial organizada |
| Intervalos R-R irregularmente irregulares | Achado clássico quando a condução atrioventricular não está comprometida |
| Traçado de derivação única ≥30 segundos | Também pode ser diagnóstico |
A irregularidade do pulso pode ser difícil de perceber quando a frequência está muito alta. Por isso, o ECG é essencial.
A abordagem deve identificar rapidamente se há risco imediato.
| Avaliação | Por que importa |
| Instabilidade hemodinâmica | Pode indicar necessidade de cardioversão elétrica urgente |
| Isquemia miocárdica | Dor torácica ou alterações sugestivas exigem manejo imediato |
| Edema pulmonar | Pode indicar insuficiência cardíaca aguda |
| AVC agudo | Sinais neurológicos mudam a prioridade do atendimento |
| Síndrome de pré-excitação | FA com Wolff-Parkinson-White pode ser grave |
| Causa reversível | Hipertireoidismo, infecção, álcool, doença pulmonar e outras causas devem ser investigadas |
| Duração do episódio | Influencia estratégia de cardioversão e anticoagulação |
| Risco tromboembólico | Define necessidade de anticoagulação oral |
A cardioversão elétrica sincronizada não deve ser adiada em pacientes com quadro potencialmente fatal.
| Situação | Conduta |
| Instabilidade hemodinâmica | Cardioversão elétrica sincronizada urgente |
| Isquemia miocárdica aguda | Cardioversão e manejo da síndrome isquêmica |
| Doença precipitante grave | Internação e tratamento da causa |
| FA com pré-excitação | Cardioversão pode ser necessária |
| Sinais de AVC agudo | Avaliação neurológica urgente |
Nesses casos, deve-se internar o paciente em unidade de cuidado agudo, solicitar suporte anestésico para sedação quando necessário e iniciar anticoagulação pré-cardioversão se o paciente ainda não estiver anticoagulado, desde que isso não atrase a intervenção urgente.
O BMJ Best Practice destaca a estrutura AF-CARE para abordagem holística da fibrilação atrial.
| Componente | Significado prático |
| C — Comorbidades e fatores de risco | Controlar hipertensão, obesidade, apneia do sono, diabetes, álcool e outras condições |
| A — Evitar AVC e tromboembolismo | Avaliar risco tromboembólico e indicar anticoagulação quando apropriado |
| R — Reduzir sintomas | Controle de frequência e/ou controle de ritmo |
| E — Avaliação dinâmica | Reavaliar periodicamente risco, sintomas e estratégia terapêutica |
O controle de comorbidades não é acessório: é parte central do tratamento.
A anticoagulação oral é recomendada para pacientes com risco tromboembólico elevado. O risco deve ser calculado com o escore CHA₂DS₂-VA.
| Escore CHA₂DS₂-VA | Conduta sugerida |
| 0 | Em geral, baixo risco |
| 1 ou mais | Considerar anticoagulação oral |
| 2 ou mais | Anticoagulação oral recomendada |
Além do risco de AVC, deve-se avaliar risco de sangramento e corrigir fatores modificáveis, como hipertensão não controlada, uso concomitante de medicamentos que aumentam sangramento e consumo excessivo de álcool.
Em pacientes sem instabilidade com risco de vida, o controle da frequência cardíaca deve ser iniciado enquanto a avaliação continua.
| Estratégia | Quando considerar |
| Controle de frequência | Primeira abordagem em muitos pacientes estáveis |
| Controle de ritmo | Sintomas persistentes apesar da frequência controlada ou falha no controle da frequência |
| Cardioversão | Instabilidade ou casos selecionados conforme duração, sintomas e risco |
O novo episódio de fibrilação atrial deve ser conduzido em etapas: suspeitar pelo pulso irregularmente irregular, confirmar com ECG, avaliar instabilidade, investigar causas reversíveis, calcular risco de AVC e decidir entre controle de frequência, controle de ritmo e anticoagulação.
Na prática, o erro mais perigoso é tratar a fibrilação atrial apenas como “arritmia” e esquecer seus dois grandes riscos: instabilidade aguda e tromboembolismo.
Referência bibliográfica: BMJ Best Practice. Novo episódio de fibrilação atrial. Última atualização: 25 ago. 2026.

Gabriel Henriques Amorim é médico (CRM-SP 272307), especialista em Educação na Saúde pela USP e residente de Medicina de Família e Comunidade no Hospital das Clínicas da FMUSP. No blog da Manole, compartilha conteúdos práticos, baseados em evidências, voltados para o dia a dia do cuidado em saúde.
Cirurgia
Introdução O abdome agudo é uma das situações mais importantes na prática clínica e no pronto atendimento. Ele se refere…
Clínica Médica
Introdução A catarata é uma das causas mais importantes de perda visual no mundo e, ao mesmo tempo, uma das…