Introdução
A síndrome da lise tumoral é uma emergência oncológica causada pela ruptura rápida de células cancerígenas e liberação de conteúdo intracelular na corrente sanguínea.
Esse processo pode levar a hiperuricemia, hiperfosfatemia, hipercalemia e hipocalcemia, com risco de lesão renal aguda, arritmias cardíacas, convulsões, disfunção neuromuscular e morte.
A principal estratégia é antecipar o risco. Em muitos pacientes, a síndrome da lise tumoral pode ser evitada com estratificação adequada, hidratação intensa e agentes anti-hiperuricêmicos.
O que acontece na síndrome da lise tumoral?
| Alteração |
Mecanismo |
Consequência |
| Hiperuricemia |
Degradação de ácidos nucleicos em ácido úrico |
Cristais de ácido úrico, obstrução tubular e lesão renal |
| Hiperfosfatemia |
Liberação de fosfato intracelular |
Precipitação de fosfato de cálcio e nefrocalcinose |
| Hipocalcemia |
Secundária à hiperfosfatemia |
Cãibras, tetania, convulsões e arritmias |
| Hipercalemia |
Liberação de potássio intracelular |
Arritmias e morte súbita |
Quem tem maior risco?
A síndrome da lise tumoral é mais comum em neoplasias hematológicas altamente proliferativas, volumosas e sensíveis ao tratamento.
| Alto risco clínico |
Exemplos |
| Neoplasias hematológicas agressivas |
Leucemia linfoide aguda, leucemia mieloide aguda, linfoma de Burkitt |
| Alta carga tumoral |
Doença volumosa, leucocitose, LDH elevada |
| Tumor muito sensível ao tratamento |
Quimioterapia, terapias-alvo ou imunoterapias eficazes |
| Função renal comprometida |
Creatinina elevada, depleção de volume, desidratação |
| Alterações prévias |
Hiperuricemia, ureia elevada, distúrbios eletrolíticos |
Relatos em tumores sólidos são incomuns, mas vêm aumentando com o avanço das terapias oncológicas.
Quando ela aparece?
As manifestações clínicas geralmente ocorrem de 12 a 72 horas após o início do tratamento contra o câncer. Alterações laboratoriais podem surgir ainda mais cedo, até cerca de 6 horas após o início da terapia.
Também existe síndrome da lise tumoral espontânea, antes do tratamento, embora seja incomum.
Classificação: laboratorial e clínica
| Tipo |
Definição |
| SLT laboratorial |
Duas ou mais alterações: hiperuricemia, hiperfosfatemia, hipercalemia ou hipocalcemia |
| SLT clínica |
SLT laboratorial associada a lesão renal aguda, arritmia, convulsão ou morte súbita |
Sintomas e manifestações clínicas
| Manifestação |
Possível causa |
| Náuseas, vômitos e diarreia |
Alterações metabólicas iniciais |
| Letargia, fraqueza e fadiga |
Distúrbios eletrolíticos |
| Oligúria ou anúria |
Lesão renal aguda |
| Hematúria ou urina turva |
Cristalúria e lesão renal |
| Cãibras, parestesias e tetania |
Hipocalcemia |
| Convulsões |
Hipocalcemia grave ou distúrbios metabólicos |
| Dor torácica, síncope ou arritmia |
Hipercalemia ou hipocalcemia |
| Dispneia e edema |
Sobrecarga hídrica por lesão renal |
Avaliação inicial
A avaliação deve começar antes do tratamento oncológico em pacientes de risco.
| Exame/avaliação |
Finalidade |
| Ácido úrico |
Identificar hiperuricemia |
| Potássio |
Detectar risco de arritmia |
| Fósforo |
Avaliar hiperfosfatemia |
| Cálcio |
Identificar hipocalcemia |
| Ureia e creatinina |
Avaliar função renal |
| LDH |
Marcador de carga tumoral e proliferação |
| Débito urinário |
Monitorar perfusão e função renal |
| ECG |
Avaliar repercussão da hipercalemia/hipocalcemia |
Prevenção
A prevenção depende da categoria de risco.
| Risco |
Conduta geral |
| Baixo risco |
Monitoramento laboratorial e clínico regular; considerar alopurinol se necessário |
| Risco intermediário |
Hidratação intravenosa antes do tratamento, monitoramento e agente anti-hiperuricêmico |
| Alto risco |
Hidratação intravenosa antes do tratamento, monitoramento intensivo e rasburicase ou alopurinol conforme cenário |
Medicamentos que aumentam ácido úrico, potássio ou fosfato, como tiazídicos ou diuréticos poupadores de potássio, devem ser evitados quando possível.
Tratamento da síndrome da lise tumoral estabelecida
| Problema |
Conduta |
| Arritmia ou convulsão |
Tratamento urgente |
| Hipovolemia ou risco renal |
Ressuscitação intensa com fluidos |
| Hiperuricemia |
Rasburicase |
| Hipercalemia |
Correção imediata conforme gravidade |
| Hiperfosfatemia |
Quelantes de fosfato |
| Lesão renal grave ou refratária |
Considerar diálise |
| Baixo débito urinário |
Monitoramento horário inicial |
Conclusão prática
A síndrome da lise tumoral é uma emergência que começa antes dos sintomas. Por isso, o melhor tratamento é a prevenção: identificar risco, hidratar adequadamente, monitorar eletrólitos e função renal, e usar agentes anti-hiperuricêmicos conforme o risco.
Na prática, todo paciente com neoplasia hematológica agressiva, alta carga tumoral, LDH elevada ou função renal comprometida deve acender o alerta antes do início da terapia oncológica.
Referência bibliográfica: BMJ Best Practice. Síndrome da lise tumoral. Última atualização: 14 ago. 2026.
Gabriel Henriques Amorim é médico (CRM-SP 272307), especialista em Educação na Saúde pela USP e residente de Medicina de Família e Comunidade no Hospital das Clínicas da FMUSP. No blog da Manole, compartilha conteúdos práticos, baseados em evidências, voltados para o dia a dia do cuidado em saúde.