Durante a gestação, há um aumento natural da resistência à insulina, principalmente no terceiro trimestre, por influência de hormônios placentários como o lactogênio placentário, progesterona e cortisol. Quando o pâncreas da gestante não consegue compensar essa resistência com produção suficiente de insulina, surge a diabetes gestacional (DMG).
A condição está associada a complicações obstétricas importantes, como:
- Pré-eclâmpsia
- Macrossomia fetal
- Parto cesáreo
- Maior risco de desenvolvimento de diabetes tipo 2 após a gestação
Vale lembrar: ao contrário do diabetes pré-gestacional, a DMG não costuma estar associada a malformações congênitas, já que o pico hiperglicêmico ocorre após o período de organogênese.
Estratégias de rastreamento e diagnóstico: como (e quando) investigar?
Não há consenso global sobre o melhor método de triagem, e os protocolos variam de país para país. Em geral, dois modelos principais são usados:
1. Estratégia em dois passos:
- Primeiro, teste de triagem com 50g de glicose (GCT) entre 24-28 semanas.
- Se alterado, segue-se com o teste oral com 100g de glicose (GTT), com aferições em jejum, 1h, 2h e 3h.
2. Estratégia em um passo:
- Teste oral com 75g de glicose em jejum, entre 24-28 semanas.
- Diagnóstico confirmado se ao menos um dos seguintes critérios for atingido:
- Jejum ≥ 92 mg/dL
- 1 hora ≥ 180 mg/dL
- 2 horas ≥ 153 mg/dL
E o rastreio precoce?
Em gestantes com fatores de risco (obesidade, histórico de DMG, ovários policísticos, histórico familiar de DM tipo 2), o rastreamento pode ser feito já na primeira consulta do pré-natal.
Podemos prevenir a DMG? O que a evidência mostra?
A prevenção da diabetes gestacional ainda é um desafio. Alguns estudos sugerem que mudanças no estilo de vida (alimentação e atividade física regular) em mulheres de alto risco podem reduzir a incidência da condição.
Entretanto, ainda não há evidência robusta de que intervenções universais reduzam a incidência de forma significativa. Assim, o foco permanece na identificação precoce e no controle rigoroso da glicemia durante a gestação para minimizar complicações.
A diabetes gestacional é uma condição multifatorial que exige atenção desde o primeiro contato com a gestante. Saber quando e como rastrear, diagnosticar e orientar é fundamental para evitar desfechos negativos. O papel do médico é oferecer um cuidado preventivo, baseado em evidência e ajustado ao perfil de risco de cada paciente.
Gabriel Henriques Amorim é médico (CRM-SP 272307), especialista em Educação na Saúde pela USP e residente de Medicina de Família e Comunidade no Hospital das Clínicas da FMUSP. No blog da Manole, compartilha conteúdos práticos, baseados em evidências, voltados para o dia a dia do cuidado em saúde.