Introdução
O abuso e a agressão sexual são situações frequentes, complexas e de grande impacto clínico, psicológico, social e legal. Podem afetar pessoas de qualquer idade, incluindo crianças, adolescentes, mulheres adultas, homens e pessoas em situação de vulnerabilidade.
Para o profissional de saúde, a abordagem exige cuidado técnico e sensibilidade. O atendimento deve priorizar segurança, acolhimento, documentação adequada, tratamento de lesões, prevenção de infecções sexualmente transmissíveis, avaliação de risco de gravidez, profilaxia pós-exposição ao HIV quando indicada e suporte psicológico.
Um ponto central é que a ausência de lesões no exame físico não exclui abuso ou agressão sexual. Isso é especialmente importante em crianças, nas quais a maioria dos exames físicos pode ser normal mesmo em casos confirmados.
O que é violência sexual?
A Organização Mundial da Saúde define violência sexual como qualquer ato sexual, tentativa de ato sexual, comentário ou investida sexual indesejada, ou ato direcionado à sexualidade de uma pessoa por meio de coerção, em qualquer ambiente.
Já o abuso sexual infantil envolve a participação de uma criança em atividade sexual que ela não compreende plenamente, para a qual não está preparada do ponto de vista do desenvolvimento ou para a qual não pode dar consentimento informado.
| Termo |
Definição prática |
| Violência sexual |
Ato ou tentativa de ato sexual mediante coerção |
| Abuso sexual infantil |
Envolvimento de criança em atividade sexual que ela não compreende ou não pode consentir |
| Estupro |
Relação ou penetração sexual sem consentimento, conforme definição legal local |
| Agressão sexual |
Termo mais amplo para atividades sexuais não consentidas |
As definições legais podem variar entre países e jurisdições. Por isso, o profissional deve seguir protocolos locais, especialmente quando houver necessidade de notificação, exame forense ou proteção da vítima.
Por que esse tema é importante na prática médica?
A violência sexual é um problema mundial. O BMJ destaca que mais da metade das mulheres e quase 1 em cada 3 homens sofreram violência sexual com contato físico em algum momento da vida. Em crianças, estimativas globais indicam que cerca de 12,7% sofreram abuso sexual antes dos 18 anos.
| População |
Dado |
| Mulheres |
Mais da metade sofreu violência sexual com contato físico em algum momento da vida |
| Homens |
Quase 1 em cada 3 sofreu violência sexual com contato físico em algum momento da vida |
| Crianças no mundo |
12,7% sofreram abuso sexual antes dos 18 anos |
| Meninas no mundo |
Cerca de 1 em cada 5 sofreu abuso ou exploração sexual antes dos 18 anos |
| Meninos no mundo |
Cerca de 1 em cada 13 sofreu abuso ou exploração sexual antes dos 18 anos |
Adolescentes, especialmente meninas, são vítimas com maior frequência do que crianças mais novas. O BMJ também reforça que a maioria das crianças conhece seus agressores.
Efeitos físicos e psicológicos
O abuso e a agressão sexual podem gerar efeitos imediatos e de longo prazo.
| Dimensão |
Possíveis manifestações |
| Física imediata |
Lesões corporais, trauma genital ou anal, dor, risco de ISTs, risco de gravidez |
| Psicológica imediata |
Ansiedade, medo, culpa, raiva, alterações de humor |
| Psicológica tardia |
Flashbacks, pesadelos, fobias, sintomas somáticos |
| Longo prazo |
TEPT, depressão, ansiedade, transtornos alimentares, distúrbios do sono e uso problemático de substâncias |
Após uma agressão sexual, alguns pacientes podem apresentar uma síndrome de estupro-trauma, com fase aguda de dias a semanas e fase tardia nas semanas ou meses seguintes.
Primeiros princípios do atendimento
A avaliação de abuso ou agressão sexual não deve ser conduzida como uma consulta comum. Ela envolve cuidado clínico, proteção, possível coleta de evidências, documentação e encaminhamento.
| Princípio |
Aplicação prática |
| Segurança |
Garantir que criança, adolescente ou adulto não retorne a ambiente de risco |
| Consentimento |
Explicar cada etapa e respeitar limites do paciente sempre que possível |
| Acolhimento |
Manter postura calma, profissional e sem julgamento |
| Documentação |
Registrar falas, perguntas, respostas e achados de forma detalhada |
| Exame sensível |
Evitar procedimentos desnecessários ou invasivos |
| Rede de proteção |
Acionar serviços adequados, inclusive quando houver denúncia compulsória |
| Seguimento |
Planejar retorno clínico, exames e cuidado em saúde mental |
Como conduzir a entrevista?
A entrevista deve usar perguntas abertas, sem induzir respostas. Isso vale para crianças, adolescentes e adultos.
O BMJ recomenda registrar a declaração da vítima nas próprias palavras, em vez de resumir ou reinterpretar a fala.
| Evite |
Prefira |
| Perguntas que sugerem resposta |
Perguntas abertas |
| Reações emocionais intensas |
Postura profissional e acolhedora |
| Resumir a fala da vítima com suas palavras |
Registrar a fala literal quando possível |
| Pressionar por detalhes |
Respeitar ritmo, segurança e consentimento |
| Julgar comportamento antes ou após o evento |
Acolher e avaliar necessidades clínicas |
Exemplo de postura adequada
Em vez de perguntar:
“Ele fez isso com você, não fez?”
Prefira:
“Você pode me contar, com suas palavras, o que aconteceu?”
Sinais e comportamentos associados em crianças
Em crianças, o abuso sexual pode não se apresentar com uma queixa direta. Muitas vezes, surgem mudanças comportamentais ou queixas inespecíficas.
| Achado possível |
Interpretação |
| Mudança brusca de comportamento |
Pode indicar sofrimento psicológico |
| Sintomas depressivos ou internalizantes |
Podem ocorrer após abuso |
| Comportamento agressivo |
Pode ser manifestação externa de sofrimento |
| Problemas de comportamento sexual |
Podem levantar suspeita quando coercivos, intrusivos ou incompatíveis com o desenvolvimento |
| Queixas médicas crônicas |
Podem refletir estresse psicológico |
| Queixas geniturinárias persistentes |
Podem indicar estresse ou IST |
| Piora escolar |
Pode aparecer em contexto de sofrimento |
Esses sinais são inespecíficos. Eles não confirmam abuso isoladamente, mas devem aumentar a atenção clínica quando aparecem em contexto compatível.
Exploração sexual: sinais de alerta
O BMJ também descreve achados que podem levantar suspeita de exploração sexual.
| Sinal de alerta |
Exemplo |
| Lesões inexplicadas |
Lesões corporais sem explicação plausível |
| Tatuagens ou marcas padronizadas |
Podem sugerir exploração |
| História de fuga de casa |
Especialmente em adolescentes |
| História variável ou falsa |
Informações inconsistentes |
| Falta de documentos ou endereço |
Pode sugerir vulnerabilidade |
| Múltiplas ISTs ou gestações |
Indica risco elevado |
| Posse de grandes quantias de dinheiro |
Deve ser contextualizada |
| Diferença importante de idade com parceiro |
Pode indicar coerção ou exploração |
| Terceiro insistindo em contar a história |
Pode indicar controle sobre a vítima |
Exame físico: pontos essenciais
O exame físico deve ser completo, sensível e guiado pelo contexto clínico. Em casos de suspeita de abuso sexual infantil, deve-se considerar encaminhamento para serviço especializado em avaliação de abuso.
| Situação |
Conduta |
| Criança pré-púbere |
Considerar avaliação especializada; exame especular não deve ser usado no consultório |
| Adolescente ou mulher adulta |
Exame conforme consentimento, contexto e protocolo |
| Suspeita de lesões |
Documentar localização, tamanho, aspecto e evolução |
| Lesões graves |
Priorizar estabilização e tratamento antes da avaliação forense |
| Exame normal |
Não exclui abuso ou agressão sexual |
Exame normal não exclui agressão
Esse é um dos pontos mais importantes do tema. A cicatrização rápida dos tecidos genitais e outros fatores podem resultar em exame físico normal após abuso sexual.
| Grupo |
Observação |
| Crianças |
A maioria apresenta exame físico normal mesmo em casos de abuso confirmado |
| Mulheres adultas |
Aproximadamente metade pode não apresentar lesões genitais |
| Lesões não genitais |
Podem ser mais comuns que lesões genitais em adultos |
| Ausência de lesão |
Não implica consentimento e não exclui penetração |
Portanto, o diagnóstico não deve depender apenas do exame físico.
Avaliação no período agudo: até 72 horas
Quando a pessoa se apresenta até 72 horas após a agressão, a avaliação deve integrar cuidado clínico, segurança e possibilidade de coleta forense.
| Etapa |
O que fazer |
| Avaliação psicossocial |
Garantir ambiente seguro após a alta |
| Proteção |
Acionar serviços de proteção quando indicado |
| Suporte psicológico |
Encaminhar para psicologia ou serviço social |
| Exame físico |
Avaliar lesões e condições clínicas |
| Coleta forense |
Considerar o quanto antes, conforme consentimento e protocolo local |
| Testes iniciais |
HIV, sífilis, ISTs conforme contexto |
| Exames antes da PEP HIV |
Função hepática, hemograma, ureia e creatinina |
| Teste de gravidez |
Para mulheres em idade reprodutiva |
| Profilaxias |
HIV, ISTs, hepatite B, HPV e contracepção de emergência conforme indicação |
Avaliação após 72 horas
Após 72 horas, a abordagem psicossocial permanece essencial, mas algumas intervenções mudam.
| Conduta |
Observação |
| Avaliação de segurança |
Continua sendo prioridade |
| Exame físico |
Avaliar lesões e outras condições clínicas |
| Exame forense |
Pode ainda ser indicado conforme protocolo local |
| Testes para ISTs |
Chlamydia, gonorreia, tricomoníase e outros conforme achados |
| HIV e sífilis |
Testes sorológicos, lembrando janela diagnóstica |
| Teste de gravidez |
Para mulheres em idade reprodutiva |
| PPE HIV |
Não recomendada se a agressão ocorreu há mais de 72 horas |
| Contracepção de emergência |
Pode ser oferecida até 120 horas em mulheres com risco de gravidez |
Alguns protocolos recomendam coleta de evidências forenses até 168 horas, dependendo do tipo de amostra e da jurisdição.
Exames laboratoriais e forenses
| Exame ou amostra |
Finalidade |
| Espécimes forenses |
Podem ajudar a identificar agressor |
| Swabs de unhas, faringe, genitália e ânus |
Coleta conforme protocolo |
| Roupas e roupas de cama |
Podem conter evidências |
| Teste para gonorreia |
Diagnóstico de IST |
| Teste para clamídia |
Diagnóstico de IST |
| Teste para tricomoníase |
Diagnóstico de IST |
| Sorologia para sífilis |
Avaliação inicial e seguimento |
| Sorologia para HIV |
Avaliação inicial e seguimento |
| Hepatite B |
Conforme fatores de risco e vacinação |
| Hepatite C |
Conforme fatores de risco |
| Hemograma, função renal e hepática |
Antes e durante PPE HIV, se indicada |
| Teste de gravidez |
Para mulheres em idade reprodutiva |
Em crianças, resultados positivos para algumas ISTs podem ter importância diagnóstica relevante, desde que outras vias de transmissão sejam excluídas. Por isso, resultados positivos devem ser confirmados e interpretados com apoio especializado.
ISTs em crianças e adultos
O manejo das ISTs varia conforme idade, puberdade e contexto.
| Grupo |
Conduta geral |
| Crianças pré-púberes |
Profilaxia antibiótica geralmente não é recomendada de rotina |
| Crianças pré-púberes com alto risco |
Profilaxia pode ser considerada após coleta de amostras |
| Adolescentes e adultos |
Tratamento empírico para ISTs é recomendado em muitos casos |
| Mulheres adolescentes/adultas |
Profilaxia para clamídia, gonorreia e tricomoníase |
| Homens adolescentes/adultos |
Profilaxia para clamídia e gonorreia |
A adesão ao acompanhamento após agressão sexual costuma ser baixa; por isso, em adolescentes e adultos, o tratamento empírico é frequentemente recomendado.
Profilaxia pós-exposição ao HIV
Pacientes que relatam agressão sexual com penetração devem receber aconselhamento sobre profilaxia pós-exposição ao HIV, quando indicada.
| Situação |
Conduta |
| Até 72 horas após agressão |
Considerar PPE HIV |
| Mais de 72 horas |
PPE HIV não é recomendada |
| Crianças recebendo PPE |
Recomendada consulta com especialista em doenças infecciosas |
| Antes de iniciar PPE |
Avaliar HIV, função hepática, função renal e hemograma |
| Durante PPE |
Monitorar adesão e tolerância |
A PPE deve ser iniciada o mais rapidamente possível quando indicada.
Hepatite B e HPV
A vacinação também faz parte do cuidado pós-agressão.
| Prevenção |
Conduta |
| Hepatite B |
Considerar vacinação em pacientes não vacinados |
| Hepatite B com agressor HBsAg positivo |
Considerar imunoglobulina anti-hepatite B, preferencialmente até 24 horas |
| HPV |
Considerar vacinação em homens e mulheres de 9 a 26 anos que não iniciaram ou concluíram esquema |
| Vacina HPV |
Não trata infecção já adquirida, mas protege contra tipos ainda não adquiridos |
A vacina contra hepatite B é mais efetiva quando administrada nas primeiras 24 horas após a exposição.
Contracepção de emergência
A contracepção de emergência deve ser oferecida a mulheres em idade reprodutiva até 120 horas após a agressão sexual.
| Método |
Janela de uso |
| Levonorgestrel |
Até 72 horas após o contato sexual |
| Ulipristal |
Até 120 horas após o contato sexual |
| DIU de cobre |
Até 120 horas após a agressão |
O DIU de cobre é descrito como o método de contracepção de emergência mais eficaz e mantém alta eficácia durante toda a janela de 120 horas. Ele não deve ser usado se a paciente já estiver grávida.
Conduta por tempo e faixa etária
| Situação |
Conduta principal |
| Criança pré-púbere até 72h |
Segurança, proteção, suporte psicológico, considerar PPE HIV, hepatite B, HPV e IST conforme risco |
| Adolescente/adulto até 72h |
Segurança, suporte psicológico, profilaxia de IST, considerar PPE HIV, hepatite B, HPV e contracepção de emergência |
| Criança pré-púbere após 72h |
Segurança, suporte psicológico, vacinação, exames e tratamento de IST se positivo |
| Adolescente/adulto após 72h |
Segurança, suporte psicológico, vacinação, contracepção até 120h e tratamento de IST conforme indicação |
Diagnósticos diferenciais em crianças
Nem todo achado genital ou anal indica abuso. O BMJ reforça a importância de conhecer variantes normais e condições que podem simular trauma.
| Condição |
Pistas clínicas |
| Líquen escleroso |
Hipopigmentação e configuração típica |
| Prolapso uretral |
Massa uretral circular com hematúria |
| Nevo |
Pápulas ou máculas persistentes |
| Hemangioma |
Nódulos avermelhados persistentes |
| Molusco contagioso |
Lesões lisas e umbilicadas |
| Vaginite inespecífica |
Irritação associada a higiene ou produtos irritantes |
| Corpo estranho vaginal |
Corrimento, vaginite ou sangramento em crianças |
A avaliação especializada ajuda a evitar interpretações equivocadas.
Achados em crianças: como interpretar?
O BMJ apresenta a classificação de Joyce Adams et al para significância de achados físicos em crianças. Para fins práticos, os achados podem ser organizados assim:
| Categoria |
Exemplos gerais |
| Variantes normais |
Diversas configurações himenais, pigmentação, achados de linha média, dilatação anal reflexa |
| Causas não traumáticas |
Dermatite irritativa, infecções não sexuais, constipação, inflamações |
| Condições que simulam abuso |
Líquen escleroso, doença inflamatória intestinal, Behçet, hemangiomas, vitiligo |
| Achados indeterminados |
Algumas fendas himenais e dilatação anal sem fatores predisponentes |
| Achados sugestivos de trauma |
Lesões genitais, anais ou orais sem explicação plausível |
| Achados diagnósticos de contato sexual |
Gravidez ou identificação de sêmen em amostras coletadas do corpo da criança |
Mesmo achados sugestivos exigem interpretação contextual e, idealmente, avaliação por profissional treinado.
Documentação: parte central do atendimento
A documentação cuidadosa é essencial, tanto para o cuidado clínico quanto para possíveis implicações legais.
| O que documentar |
Como documentar |
| Quem estava presente |
Identificar todos na sala |
| Relato do paciente |
Registrar nas próprias palavras |
| Perguntas feitas |
Evitar indução e registrar perguntas relevantes |
| Exame físico |
Descrever achados com linguagem objetiva |
| Lesões |
Localização, tamanho, aspecto e relação anatômica |
| Diagramas corporais |
Usar quando disponíveis |
| Exames coletados |
Registrar tipo, local e finalidade |
| Tratamentos oferecidos |
Incluir profilaxias, vacinas e contracepção |
| Encaminhamentos |
Proteção, saúde mental, infectologia, ginecologia, pediatria ou serviço especializado |
Acompanhamento
O seguimento deve ser planejado antes da alta.
| Momento |
Objetivo |
| Menos de 1 semana |
Rever resultados, adesão e necessidades imediatas |
| 1 a 2 semanas |
Avaliar lesões em evolução e resultados de ISTs |
| 3 a 5 dias após iniciar PEP HIV |
Avaliar adesão e tolerância |
| 4 a 6 semanas |
Repetir sorologias conforme risco |
| 3 meses |
Repetir testes para HIV e sífilis conforme protocolo |
| Saúde mental contínua |
Prevenir e tratar TEPT, depressão e outras complicações |
Pacientes com TEPT devem receber tratamento psicológico focado no trauma, como terapia cognitivo-comportamental focada no trauma.
Complicações possíveis
| Complicação |
Período |
Probabilidade descrita |
| Gestação |
Curto prazo |
Alta |
| ISTs |
Curto prazo |
Baixa |
| TEPT |
Longo prazo |
Alta |
| HIV |
Longo prazo |
Baixa |
| Hepatite B |
Longo prazo |
Baixa |
Além dessas complicações, o BMJ destaca associação ao longo da vida com ansiedade, depressão, transtornos alimentares, distúrbios do sono, uso indevido de substâncias e comportamentos de risco.
Prevenção
A prevenção do abuso sexual infantil frequentemente envolve programas escolares com componentes para crianças, professores e pais. Esses programas podem ensinar habilidades importantes, embora seu impacto direto sobre taxas de vitimização ainda não esteja comprovado.
Já a prevenção de agressões sexuais em adultos envolve educação, legislação, redução de vulnerabilidades, serviços acessíveis e ações voltadas a grupos de maior risco.
| Estratégia |
Objetivo |
| Programas escolares |
Ensinar habilidades de proteção |
| Educação de pais e professores |
Aumentar reconhecimento e resposta |
| Serviços acessíveis |
Facilitar procura precoce após agressão |
| Campanhas educativas |
Incentivar denúncia e cuidado |
| Ambientes protetores |
Reduzir vulnerabilidade institucional |
| Legislação e responsabilização |
Reduzir impunidade e risco recorrente |
Pontos-chave para a prática médica
| Pergunta clínica |
Resposta prática |
| Exame normal exclui abuso? |
Não |
| Crianças pré-púberes devem receber profilaxia antibiótica de rotina? |
Geralmente não |
| Adolescentes e adultos devem receber profilaxia de IST? |
Frequentemente sim |
| PPE HIV é indicada após 72 horas? |
Não é recomendada |
| Contracepção de emergência pode ser usada até quando? |
Até 120 horas, conforme método |
| DIU de cobre pode ser usado como contracepção de emergência? |
Sim, até 120 horas, se não houver gravidez |
| O que é prioridade em todos os casos? |
Segurança, acolhimento, documentação e seguimento |
| Crianças exigem notificação? |
Em geral, deve-se acionar serviços de proteção conforme legislação local |
| O que fazer com achados físicos duvidosos? |
Encaminhar ou discutir com especialista |
Conclusão
O atendimento a pessoas que sofreram abuso ou agressão sexual exige uma abordagem integrada, sensível e tecnicamente rigorosa. O profissional deve garantir segurança, acolher sem julgamento, documentar cuidadosamente, tratar lesões, avaliar ISTs, oferecer profilaxias quando indicadas, considerar contracepção de emergência e organizar acompanhamento clínico e psicológico.
A mensagem mais importante é que o cuidado não deve depender da presença de lesões. Em crianças, a maioria dos exames pode ser normal; em adultos, a ausência de lesão também não exclui agressão. Por isso, a escuta qualificada, o respeito ao consentimento, a proteção da vítima e o seguimento adequado são pilares do atendimento.
Referência: BMJ Best Practice. Abuso e agressão sexual. Última atualização: 22 jul. 2026.
Gabriel Henriques Amorim é médico (CRM-SP 272307), especialista em Educação na Saúde pela USP e residente de Medicina de Família e Comunidade no Hospital das Clínicas da FMUSP. No blog da Manole, compartilha conteúdos práticos, baseados em evidências, voltados para o dia a dia do cuidado em saúde.