Introdução
O uso de álcool deve ser avaliado de forma clínica, empática e sem julgamento. O uso não saudável de bebidas alcoólicas inclui um espectro que vai do consumo de risco ao transtorno decorrente do uso de bebidas alcoólicas.
Essa distinção é importante porque o paciente pode sofrer danos à saúde mesmo sem preencher critérios diagnósticos formais. Pressão alta, insônia, ganho de peso, arritmias, ansiedade, depressão, alterações hepáticas e acidentes podem estar relacionados ao álcool.
Terminologia: como falar sem estigma
Termos como “alcoolismo”, “alcoólatra” e “viciado” não são recomendados como linguagem clínica, pois estão associados a estigma. Prefira expressões centradas na pessoa.
| Evite |
Prefira |
| Alcoólatra |
Pessoa com transtorno decorrente do uso de bebidas alcoólicas |
| Viciado |
Pessoa com transtorno por uso de substância |
| Abuso de álcool |
Uso não saudável de bebidas alcoólicas |
| Dependente químico |
Pessoa com dependência ou transtorno, conforme classificação usada |
O que é uso não saudável de álcool?
O uso não saudável inclui uso arriscado, uso prejudicial e transtorno decorrente do uso de bebidas alcoólicas.
| Categoria |
Definição prática |
| Uso arriscado |
Consumo que coloca a pessoa em risco de danos |
| Uso prejudicial |
Consumo que já causou consequências adversas físicas, mentais ou psicossociais |
| Transtorno decorrente do uso de bebidas alcoólicas |
Padrão problemático com prejuízo ou sofrimento clinicamente significativo |
Limites de consumo de risco
| Grupo |
Consumo considerado não saudável |
| Mulheres |
Mais de 3 doses por dia ou mais de 7 doses por semana |
| Homens |
Mais de 4 doses por dia ou mais de 14 doses por semana |
Esses limites ajudam no rastreamento, mas o diagnóstico de transtorno decorrente do uso de bebidas alcoólicas exige critérios clínicos.
Por que rastrear?
O uso não saudável de álcool é subdiagnosticado e subtratado. A identificação precoce permite intervenção breve, redução de danos, tratamento medicamentoso quando indicado e manejo de comorbidades.
| Situação clínica |
Por que perguntar sobre álcool |
| Hipertensão |
O álcool pode elevar a pressão |
| Insônia |
Pode piorar qualidade do sono |
| Ansiedade e depressão |
Relação pode ser bidirecional |
| Transaminases elevadas |
Pode haver doença hepática relacionada ao álcool |
| Arritmias |
O álcool pode precipitar eventos cardíacos |
| Acidentes, quedas e brigas |
Podem indicar uso de risco |
| Ganho de peso |
Álcool pode contribuir para excesso calórico |
| Queixas cognitivas |
Pode haver impacto neurológico e funcional |
Como perguntar?
A forma da pergunta influencia a resposta. Perguntas abertas e de normalização são mais sensíveis.
| Tipo de pergunta |
Exemplo |
| Aberta |
“Conte para mim como você costuma beber.” |
| Normalização |
“Quando foi a última vez que você bebeu?” |
| Fechada |
“Você bebe?” |
| Direcionada ao não uso |
“Você não está bebendo, está?” |
Perguntas fechadas e direcionadas ao não uso podem deixar de identificar muitos pacientes.
Ferramentas de rastreamento
| Ferramenta |
Como funciona |
| SASQ |
Pergunta única sobre episódios de consumo elevado no último ano |
| AUDIT-C |
Três perguntas sobre frequência, quantidade e consumo excessivo |
| AUDIT completo |
Dez perguntas; pode estratificar gravidade |
| TAPS, SB2I, BSTAD |
Opções estudadas para adolescentes |
No SASQ, pergunta-se quantas vezes no último ano a pessoa consumiu 4 ou mais doses em um dia, no caso de mulheres, ou 5 ou mais doses em um dia, no caso de homens. Qualquer resposta diferente de zero é consistente com uso não saudável.
Diagnóstico
Após rastreamento positivo, é necessária entrevista clínica. Os critérios do DSM-5-TR diferenciam consumo de risco de transtorno decorrente do uso de bebidas alcoólicas.
A entrevista deve explorar:
| Domínio |
O que investigar |
| Frequência |
Quantos dias por semana ou mês |
| Quantidade |
Número e tipo de bebidas |
| Perda de controle |
Dificuldade de reduzir ou parar |
| Tempo gasto |
Obtenção, uso e recuperação |
| Prejuízo funcional |
Trabalho, casa, relações e lazer |
| Uso em situações de risco |
Dirigir, operar máquinas, quedas |
| Sintomas físicos/psíquicos |
Piora de ansiedade, depressão, sono, pressão, fígado |
| Tolerância e abstinência |
Necessidade de doses maiores ou sintomas ao reduzir |
| Fissura |
Desejo intenso de beber |
Exame físico e exames complementares
O exame físico pode ser normal, mas deve procurar sinais de complicações.
| Avaliação |
Possíveis achados |
| Pressão arterial |
Hipertensão |
| Estado mental |
Ansiedade, depressão, comprometimento cognitivo |
| Fígado |
Hepatomegalia, sinais de doença hepática |
| Neurológico |
Tremor, neuropatia, alterações cognitivas |
| Pele e mucosas |
Sinais de doença hepática avançada |
| Exames laboratoriais |
Transaminases, hemograma, função hepática e renal conforme caso |
Tratamento: decisão compartilhada
O manejo deve considerar objetivos do paciente, preferências, características clínicas e evidência disponível. Nem sempre o objetivo inicial precisa ser abstinência completa; reduzir consumo também pode ser clinicamente valioso.
| Estratégia |
Papel |
| Intervenção breve |
Útil para uso de risco |
| Tratamento psicossocial |
Ajuda a evitar retorno ao uso e aumentar autoeficácia |
| Apoio entre pares |
Pode complementar o cuidado |
| Medicamentos |
Reduzem consumo, dias de consumo excessivo ou apoiam abstinência |
| Manejo de comorbidades |
Saúde mental, hipertensão, sono, fígado e outras condições |
Medicamentos usados
| Medicamento |
Papel geral |
| Naltrexona |
Reduz consumo e episódios de consumo intenso |
| Acamprosato |
Apoia manutenção da abstinência |
| Dissulfiram |
Produz reação aversiva com álcool; exige seleção cuidadosa |
| Gabapentina |
Pode ser útil em alguns pacientes |
| Topiramato |
Opção em casos selecionados |
Naltrexona, acamprosato e dissulfiram são medicamentos aprovados pela FDA para tratamento do transtorno decorrente do uso de bebidas alcoólicas. Gabapentina e topiramato também são citados como opções terapêuticas em determinados contextos.
Conclusão prática
A avaliação do uso de álcool deve fazer parte da prática clínica, especialmente em pacientes com hipertensão, insônia, alterações hepáticas, ansiedade, depressão, arritmias ou acidentes.
Na prática, pergunte de forma aberta, rastreie com SASQ ou AUDIT-C, confirme diagnóstico com critérios DSM-5-TR e ofereça cuidado centrado na pessoa. O tratamento pode combinar intervenção breve, abordagem psicossocial, manejo de comorbidades e medicamentos como naltrexona, acamprosato, dissulfiram, gabapentina ou topiramato.
Referência bibliográfica: BMJ Best Practice. Transtornos decorrentes do uso de bebidas alcoólicas. Última atualização: 04 ago. 2026.
Gabriel Henriques Amorim é médico (CRM-SP 272307), especialista em Educação na Saúde pela USP e residente de Medicina de Família e Comunidade no Hospital das Clínicas da FMUSP. No blog da Manole, compartilha conteúdos práticos, baseados em evidências, voltados para o dia a dia do cuidado em saúde.