Medicina de Família e Comunidade
Conjuntivite aguda
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O baixo ganho de peso na criança é uma queixa frequente na prática pediátrica e na atenção primária. Também chamado de peso falterante, faltering weight ou, em alguns contextos, falha de crescimento, esse quadro exige uma avaliação cuidadosa, mas nem sempre demanda uma investigação laboratorial extensa logo no início.
Na maior parte dos casos, a causa está relacionada à ingestão calórica inadequada, especialmente nos primeiros meses de vida. Por isso, a história alimentar detalhada, a avaliação da técnica de amamentação, a revisão da rotina de alimentação e a análise correta das curvas de crescimento são os pilares da abordagem inicial.
Neste artigo, vamos revisar como definir baixo ganho de peso na criança, quais são as principais causas, quando solicitar exames e como conduzir o manejo inicial de forma prática e segura.
Baixo ganho de peso na criança ocorre quando o crescimento ponderal fica abaixo do esperado para idade, sexo e comprimento ou altura. O termo “peso falterante” tem sido usado para descrever crianças que não atingem o ganho ponderal esperado ou apresentam queda significativa na trajetória de crescimento.
Mais do que um peso isolado abaixo do percentil esperado, o que preocupa é a trajetória da criança ao longo do tempo. Uma criança constitucionalmente pequena pode estar saudável se mantiver sua curva de crescimento. Por outro lado, uma criança que cruza percentis para baixo ou apresenta desaceleração progressiva do ganho ponderal precisa ser avaliada.
Por isso, a interpretação deve considerar:
As diretrizes recentes da Academia Americana de Pediatria e da Sociedade Norte-Americana de Gastroenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátrica propõem critérios antropométricos para identificar peso falterante.
Na prática, o diagnóstico pode ser considerado quando há um dos seguintes achados:
| Critério antropométrico | Interpretação prática |
| Peso-para-comprimento ou IMC-para-idade abaixo de -1,65 escore-z | Aproximadamente abaixo do percentil 5 |
| Em menores de 2 anos: velocidade de ganho de peso abaixo de -2 escores-z | Ganho ponderal muito abaixo do esperado para idade |
| Queda de peso, peso-para-comprimento ou IMC igual ou maior que 1 escore-z | Perda relevante da trajetória de crescimento |
Esses critérios ajudam a diferenciar variações normais de crescimento de situações que exigem intervenção.
No entanto, a avaliação clínica não deve ser substituída por um número isolado. É fundamental verificar se as medidas foram obtidas corretamente, se a criança foi pesada na mesma condição e se a curva usada é adequada para a idade.
A avaliação antropométrica é o primeiro passo para evitar diagnósticos incorretos. Medidas imprecisas podem gerar preocupação desnecessária ou atrasar a identificação de um problema real.
Para crianças menores de 2 anos, o comprimento deve ser medido em posição deitada, com infantômetro. Para crianças com 2 anos ou mais, a altura deve ser medida em pé, com estadiômetro. O peso deve ser aferido em balança calibrada, preferencialmente digital.
| Idade | Medida recomendada |
| Menores de 2 anos | Peso, comprimento recumbente e perímetro cefálico |
| 2 anos ou mais | Peso, altura e IMC |
| Todas as idades | Interpretação em curva padronizada para idade e sexo |
A análise longitudinal é indispensável. Uma medida isolada pode ser útil para triagem, mas a curva de crescimento mostra a tendência e orienta melhor a conduta.
As causas podem ser organizadas em dois grandes grupos: ingestão calórica inadequada e ingestão aparentemente adequada com perda de peso, má absorção ou aumento do gasto energético.
A ingestão insuficiente é a causa mais comum, sobretudo em lactentes. Ainda assim, o médico deve manter atenção para sinais de doenças orgânicas, vulnerabilidade social e dificuldades alimentares.
Esse grupo inclui situações em que a criança recebe menos calorias do que precisa para crescer adequadamente.
| Causa | Exemplos |
| Problemas na amamentação | Má pega, baixa transferência de leite, baixa produção percebida ou real |
| Erros no preparo de fórmula | Diluição inadequada, volume insuficiente, frequência inadequada |
| Dificuldades anatômicas | Fenda labial, fenda palatina, frênulo lingual com repercussão funcional |
| Dificuldades de alimentação | Recusa alimentar, seletividade intensa, refeições muito longas |
| Problemas motores ou neurológicos | Síndrome de Down, doenças neuromusculares, atraso do desenvolvimento |
| Fatores psicossociais | Insegurança alimentar, negligência, sofrimento familiar, restrições culturais ou religiosas |
| Transtornos alimentares | Transtorno alimentar restritivo/evitativo, anorexia nervosa em adolescentes |
Nos lactentes amamentados, a avaliação da mamada é parte central da investigação. Não basta perguntar se a criança mama: é necessário avaliar frequência, duração, pega, deglutição, sinais de saciedade, diurese, evacuações e ganho ponderal.
Quando a história sugere ingestão suficiente, é preciso considerar condições que aumentam perdas, reduzem absorção ou elevam a demanda metabólica.
| Mecanismo | Possíveis causas |
| Má absorção | Doença celíaca, fibrose cística, doença inflamatória intestinal, alergia à proteína do leite de vaca |
| Perdas gastrointestinais | Diarreia crônica, vômitos persistentes, doença gastrointestinal crônica |
| Maior gasto energético | Cardiopatia congênita, doença pulmonar crônica, hipertireoidismo |
| Doenças crônicas | Doença renal, malignidades, infecções crônicas, HIV, tuberculose |
| Condições inflamatórias | Doenças autoimunes, doença inflamatória intestinal |
Nesses casos, a criança pode apresentar sinais associados, como diarreia crônica, vômitos, dispneia, sudorese às mamadas, febre prolongada, atraso do desenvolvimento, palidez, edema, hepatoesplenomegalia ou infecções recorrentes.
A avaliação deve começar com uma história clínica detalhada e um exame físico completo. Em crianças sem sinais de gravidade, essa abordagem costuma ser mais útil do que solicitar uma bateria de exames laboratoriais logo na primeira consulta.
A história alimentar deve ser objetiva e detalhada. Algumas perguntas úteis incluem:
Em lactentes, também é importante investigar diurese, evacuações, intervalo entre mamadas, sonolência, icterícia, prematuridade, intercorrências neonatais e dificuldades maternas com amamentação.
A história médica deve procurar doenças crônicas, hospitalizações, infecções recorrentes, uso de medicamentos, cirurgias, prematuridade e condições perinatais.
A história familiar ajuda a diferenciar baixa estatura constitucional, padrão familiar de crescimento e doenças genéticas ou metabólicas. Deve incluir altura dos pais, puberdade dos familiares, doenças gastrointestinais, doença celíaca, fibrose cística, doenças endocrinológicas e transtornos alimentares.
A dimensão social é indispensável. Baixo ganho de peso pode estar relacionado a insegurança alimentar, dificuldades de acesso a fórmula infantil, sofrimento parental, depressão materna, violência doméstica, negligência ou sobrecarga familiar.
Essa avaliação deve ser feita com cuidado, sem julgamento, buscando compreender o contexto da família e criar um plano viável.
O exame físico deve avaliar sinais de desnutrição, doença crônica e dificuldades de alimentação.
| Achado | Possível significado |
| Perda de tecido subcutâneo | Déficit energético prolongado |
| Edema | Desnutrição grave, doença renal, doença hepática ou outras causas |
| Palidez | Anemia ou doença crônica |
| Sopro cardíaco, taquipneia, sudorese | Cardiopatia ou doença pulmonar |
| Distensão abdominal | Doença gastrointestinal, má absorção ou constipação importante |
| Dermatite, lesões orais | Deficiências nutricionais ou doenças sistêmicas |
| Atraso do desenvolvimento | Doença neurológica, genética ou efeito da desnutrição |
| Engasgos, tosse ao mamar, alteração oral-motora | Distúrbio de alimentação ou deglutição |
A avaliação do desenvolvimento também é importante, especialmente nas áreas motora, oral-motora, linguagem e interação social.
Uma mensagem central das diretrizes atuais é que exames laboratoriais de rotina não são recomendados na avaliação inicial de crianças com baixo ganho de peso quando não há sinais, sintomas ou achados específicos que apontem para uma causa orgânica.
Em outras palavras, a criança com peso falterante, mas clinicamente estável, sem sinais de alarme e com história sugestiva de ingestão inadequada, pode ser manejada inicialmente com intervenção nutricional e seguimento próximo.
Os exames devem ser considerados quando houver:
A escolha dos exames deve ser guiada pela hipótese clínica. Não há um “pacote universal” obrigatório para todas as crianças.
Quando indicados, os exames devem ser direcionados pelo quadro clínico.
| Suspeita clínica | Exames possíveis |
| Anemia ou doença crônica | Hemograma, ferritina, marcadores inflamatórios |
| Doença celíaca | Sorologia para doença celíaca, considerando idade e ingestão de glúten |
| Doença renal | Urina tipo 1, ureia, creatinina, eletrólitos |
| Endocrinopatia | TSH e T4 livre quando houver sinais compatíveis |
| Infecção crônica | Investigação conforme exposição e sintomas, como tuberculose ou HIV |
| Má absorção | Avaliação de fezes, exames específicos conforme suspeita |
| Fibrose cística | Teste do suor ou investigação específica quando houver sinais sugestivos |
O ponto mais importante é evitar investigação ampla e inespecífica em crianças sem achados direcionadores. Exames excessivos podem gerar falsos positivos, ansiedade familiar e cascatas diagnósticas desnecessárias.
O tratamento depende da causa provável e da gravidade. Na maioria das crianças, o manejo inicial envolve aumento da oferta calórica, orientação alimentar, correção de dificuldades de alimentação e seguimento próximo.
O aumento calórico deve ser individualizado conforme idade, padrão alimentar e gravidade do déficit. Em lactentes, pode envolver ajuste da técnica de amamentação, aumento da frequência das mamadas, ordenha e oferta complementar quando necessário ou correção do preparo da fórmula.
Em crianças maiores, pode envolver enriquecimento alimentar, aumento da densidade calórica das refeições e organização da rotina alimentar.
Exemplos de estratégias:
Quando houver recusa alimentar importante, seletividade intensa, engasgos, aversão oral, refeições muito prolongadas ou sofrimento familiar associado à alimentação, deve-se considerar distúrbio alimentar pediátrico.
Nesses casos, a abordagem pode exigir equipe multiprofissional, incluindo pediatra, nutricionista, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional, psicólogo e gastroenterologista pediátrico, conforme a necessidade.
O seguimento é parte do tratamento. A criança deve ser reavaliada em intervalo compatível com a gravidade do quadro.
Em lactentes pequenos ou crianças com déficit importante, o retorno pode ser mais precoce. Em casos leves, pode-se acompanhar em algumas semanas, desde que a família tenha orientação clara e acesso ao serviço.
No retorno, o médico deve avaliar:
O encaminhamento deve ser considerado quando há gravidade, suspeita de doença específica ou falha de resposta ao manejo inicial.
| Situação | Possível encaminhamento |
| Desnutrição grave | Pediatria, nutrição, serviço de urgência ou internação conforme estado clínico |
| Suspeita de má absorção | Gastroenterologia pediátrica |
| Engasgos, tosse ao alimentar, disfagia | Fonoaudiologia e avaliação de deglutição |
| Atraso do desenvolvimento | Pediatria do desenvolvimento, neurologia, reabilitação |
| Cardiopatia ou sintomas respiratórios importantes | Cardiologia ou pneumologia pediátrica |
| Insegurança alimentar ou vulnerabilidade social | Assistência social e rede de proteção |
| Recusa alimentar intensa | Equipe multiprofissional em alimentação pediátrica |
O objetivo do encaminhamento não é substituir o acompanhamento longitudinal, mas ampliar o cuidado quando há necessidade de avaliação especializada.
Alguns achados devem aumentar a preocupação e acelerar a investigação ou encaminhamento.
| Sinal de alerta | Por que importa? |
| Perda ponderal importante ou desnutrição grave | Maior risco clínico e nutricional |
| Letargia, prostração ou desidratação | Pode indicar instabilidade clínica |
| Vômitos persistentes | Sugere obstrução, doença gastrointestinal ou metabólica |
| Diarreia crônica ou sangue nas fezes | Sugere má absorção, alergia ou doença inflamatória |
| Febre prolongada | Pode indicar infecção crônica ou doença inflamatória |
| Dispneia, cianose ou sudorese às mamadas | Sugere cardiopatia ou doença pulmonar |
| Infecções recorrentes | Pode indicar imunodeficiência ou doença crônica |
| Atraso importante do desenvolvimento | Pode indicar condição neurológica, genética ou impacto nutricional |
| Suspeita de negligência ou violência | Exige abordagem de proteção e rede de cuidado |
O baixo ganho de peso nos primeiros anos de vida merece atenção porque esse período é fundamental para crescimento, desenvolvimento neurológico e formação de reservas nutricionais.
Quando não reconhecido e tratado, o peso falterante pode estar associado a prejuízos no crescimento linear, menor potencial de altura adulta e impacto no desenvolvimento cognitivo, especialmente quando ocorre nos primeiros 2 anos de vida.
Ao mesmo tempo, é importante evitar uma abordagem alarmista. Muitas crianças podem ser manejadas com sucesso na atenção primária ou pelo pediatra geral, desde que haja avaliação sistemática, intervenção nutricional adequada e seguimento próximo.
O baixo ganho de peso na criança deve ser avaliado de forma estruturada, priorizando a trajetória de crescimento, a história alimentar, o exame físico e o contexto familiar e social.
A ingestão calórica inadequada é a causa mais comum, especialmente em lactentes, e deve ser investigada cuidadosamente antes de ampliar exames. A avaliação da amamentação, o preparo correto de fórmulas, a rotina alimentar e as condições psicossociais são pontos centrais da consulta.
Exames laboratoriais não devem ser solicitados de rotina em crianças sem sinais direcionadores. Eles são indicados quando há desnutrição grave, sintomas específicos, história familiar relevante, persistência do quadro ou falha de resposta à intervenção inicial.
O manejo envolve aumento da oferta calórica, correção de dificuldades alimentares, suplementação quando indicada e acompanhamento longitudinal. Quando houver sinais de alarme ou suspeita de doença orgânica, o encaminhamento deve ser realizado de forma direcionada.
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Gabriel Henriques Amorim é médico (CRM-SP 272307), especialista em Educação na Saúde pela USP e residente de Medicina de Família e Comunidade no Hospital das Clínicas da FMUSP. No blog da Manole, compartilha conteúdos práticos, baseados em evidências, voltados para o dia a dia do cuidado em saúde.
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